O filho de mil homens – Valter Hugo Mãe

50_filhoQue romance bonito! Uma história em que acontece pouco por fora e muito por dentro dos personagens. Um texto para ser saboreado a cada palavra, pois parece que o autor escolheu cada vírgula a dedo, sem sobras, sem faltas e com muita poesia.

Numa aldeia de valores ultrapassados surgem pessoas que não se entregam ao mesmo, que se saem bem com seu jeito diferente, ainda que depois de muito sofrer: Crisóstomo, um homem que quer ter um filho e faz um boneco de pano; Isaura, a enjeitada pelos homens; Camilo, filho de 15 homens e uma anã; Antonino, o homem maricas; Matilde, a mãe que acha que errou com o filho, e muitos outros que se encontram pela metade na vida. Essas pessoas todas são marcadas pela falta de um pedaço que não encontram em si. São tão humanas quanto poderiam ser enquanto personagens. Podem ser perversas em um momento para depois se mostrarem as mais amorosas, conforme o que a vida vai lhes oferecendo.

A solidão aparece sob diversas formas. A solidão de quem se acha pela metade, a solidão de dois que precisam ser três, a solidão de quem perdeu os pais, a solidão de quem perdeu a maternidade, a solidão de quem não encontra aceitação no mundo, a solidão que é o medo de ficar sozinho. Mas somos todos sozinhos mesmo ou apenas não enxergamos que temos a humanidade toda para amar e cuidar? Essa parece ser uma pergunta do livro.

“O Crisóstomo explicava que o amor era uma atitude. Uma predisposição natural para se ser a favor de outrem. É isso o amor. Uma predisposição natural para se favorecer alguém. Ser, sem sequer se pensar, por outra pessoa.”

Essa busca infinita pelo outro, essa vontade de se completar resulta bem desde o começo do livro, pois esses são seres cheios de esperança, cheios de desejos francos. Numa espécie de oração esses desejos são jogados ao vento e o vento mesmo, como no movimento do mar, traz de volta suas realizações. É o eterno anseio de viver e ser feliz, mas aqui com liberdade, com riscos, sendo sincero aos desejos mais profundos.

“Quem tem menos medo de sofrer, tem maiores possibilidades de ser feliz.”

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Livro – José Luís Peixoto


Ler Literatura Portuguesa pra mim é como pegar um navio de volta pra casa, embora eu nunca tenha estado em Portugal e não saiba explicar bem o motivo de tal identificação. E este navio de José Luís Peixoto chamado Livro me proporcionou uma viagem muito agradável.

Em uma vila de Portugal, na década de 40, um menino de 6 anos passa uma noite numa fonte a esperar por sua mãe que não chega, na companhia de suas malas e um livro. Assim a história começa e Ilídio guardará esse livro dado pela mãe por muitos anos, até que ele sirva de presente à sua amada Adelaide e depois siga a história como um pedaço de Portugal que foi para a França. O que realmente significa o título do livro, só descobrimos na segunda parte da obra, mas o próprio objeto livro e a literatura em si fazem parte dessa surpresa:

“Os livros que tenho nas estantes formam um desenho de mim: o que quero lembrar e o que não quero esquecer.”

Entre as décadas de 50 e 70, muitos portugueses emigraram para a França fugindo da ditadura. Ilídio e Adelaide acabam no mesmo rumo, embora seus motivos sejam mais pessoais. A viagem que fazem até lá, os motivos que os levam, os desencontros e dificuldades por que passam são só uma parte dessa deliciosa saga de personagens encantadores. Em alguns momentos lembrei de Um Lugar ao Sol, de Érico Veríssimo, mas não sei dizer o porquê, já que li este há muito tempo.

No início pensei que seria uma daquelas leituras lentas, que se faz aos poucos, mas em um instante me vi chegando na metade do livro com pena de acabá-lo logo. Não que o livro não tenha suas dificuldades. O tempo na narrativa, por exemplo, pode confundir um leitor desatento por seu movimento em espiral: vai, faz um leve contorno de volta e depois segue em frente. Mas se por um lado o autor tem uma narrativa poética que pede pausa e reflexão, por outro ele alimenta nossa curiosidade em saber o que será dessas pessoas. Mesmo com o livro fechado eu ficava me perguntando o que ia acontecer com elas.

A segunda parte do livro já é quase um outro livro, mas passado o susto e uma certa relutância consegui apreciar e me identificar com tantas coisas que já coloquei a obra no rol das preferidas. Sempre que vejo por aí que este livro é sobre a emigração portuguesa fico pensando que li o livro errado, porque pra mim esse livro é sobre amor, amizade e sobrevivência. É também sobre outras coisas que prefiro deixar para quem tiver oportunidade de ler descobrir depois, mas a linda capa da edição brasileira já entrega e antecipa o quanto este livro é bonito.

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