Alta Fidelidade – Nick Hornby

Sempre tive uma relação do tipo nunca-te-li-sempre-te-amei com os livros de Nick Hornby, e depois de ler Alta Fidelidade posso dizer que era bem o que eu esperava. O romance conta a história de Rob, um londrino de 35 anos, dono de uma loja de discos, que descreve sua complicada relação com as mulheres e com a música. Para se identificar com Rob você tem que ter pelo menos uma dessas 5 características:
a) ter nascido entre os anos 60 e 80;
b) conhecer um pouco de cultura pop britânica e americana;
c) gostar de música e ter possuído (ou possuir) discos de vinil;
d) ter chegado aos 30 e não ter uma vida adulta padrão;
e) ter passado por rejeições amorosas durante a vida.

Através de listas parecidas com essa, Rob vai enumerando tudo aquilo que é importante pra ele: músicas, filmes, livros e até relacionamentos que deram errado. São as rejeições, inclusive, que conduzem a narrativa, começando pelos 5 mais inesquecíveis fins de relacionamento por que já passou, numa escala que vai da namoradinha de infância ao grande amor vivido nos tempos de faculdade. Segundo ele, essas situações moldaram suas escolhas de vida e depois que Laura, sua atual namorada, resolve deixá-lo, ele vai então entrar em contato com cada uma dessas mulheres, para tentar entender o que deu errado.

A escrita de Hornby é simples e elegante, e sempre soa como as letras de canções pop às quais faz referência, algo como música em forma de literatura (foi bom, aliás, ler no original porque tenho a impressão de que é o tipo de escrita que soa muito diferente em português). As listas Top Five que Rob e os funcionários de sua loja fazem o tempo todo são parte da diversão do livro e apesar de Rob ser um cara depressivo e cheio de auto-piedade, não tem como ler sem um sorriso no rosto, tamanho é o humor (britânico) com que ele trata suas teorias sobre relacionamentos, música e arte em geral. Há um momento, por exemplo, em que ele se pergunta se a arte não acabaria nos tornando pessoas com tendência à solidão ou à melancolia:

“O que veio primeiro – a música ou o sofrimento? Eu escutava música porque estava triste? Ou estava triste porque escutava música? Será que todos esses discos te tornam uma pessoa melancólica?”

Depois dos 30 é inevitável se tornar um pouco saudosista e o ambiente das lojas de discos, que eu tanto freqüentei nos anos 90, bem como as discussões musicais sobre bandas preferidas ou conviver com quem é colecionador de música ou o maravilhoso ritual de gravar coletâneas em fitas cassetes para os amigos, tudo contribuiu para que eu me sentisse em casa durante a leitura. Mas o livro não fica só nessa posição de retrato de uma geração ou mesmo de uma confidência masculina em relação ao sexo, ele também brinca com as infantilidades da vida adulta que raramente admitimos, mas que fazem todo sentido, especialmente quando passamos por uma fase ruim e tudo nos leva a agir como na adolescência, esse limbo onde tudo parece ser mil vezes pior do que realmente é.

Adaptação: Alta Fidelidade (High Fidelity, 2000) – Stephen Frears
Um ponto baixo da versão cinematográfica é a troca de Londres por Chicago, o que significa perder muito do personagem e de seu humor, transformando Rob num cara menos irônico, menos loser e até com iniciativa profissional, talvez para que um público maior se identifique com ele. Uma das minhas questões preferidas no livro é a de ele ser um adulto inadequado, que não consegue resolver sua vida pelos padrões esperados e aqui sua inadequação é um mero desconforto. Mas gosto muito das cenas da loja de discos e é sempre bom ver personagens conversando sobre música envoltos numa ótima trilha sonora.

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12 comentários sobre “Alta Fidelidade – Nick Hornby

  1. Das 5 características eu só não tenho a primeira hahaha Mas adorei como sempre a sua resenha e assim que tiver um tempinho vou atrás desse livro. Adoro o humor londrino, acho o melhor e vou procurar então a versão original em inglês.
    Beijos
    Tati

    1. Tati, eu tenho todas! Menina, então você nasceu na década de 90? :O
      Olha, se você puder ler em inglês eu recomendo porque a linguagem é super simples e é uma delícia de ler. 😉 Bj!

    1. Eu queria ter lido esse livro antes, Ette, mas acabei deixando sempre pra depois, mas valeu a espera! Obrigada! =)

  2. Lua,
    eu comprei esse livro em português… (mas ainda não li). Ainda quero começar a ler mais literatura em inglês; leio bem textos da minha área (ciência política) e não sei pq não me aventuro mais na literatura…
    Eu amei as cenas de conversas deles na loja no filme tb! ; )
    E eu e meu pai brincávamos de listas musicais depois de ver o filme, rs.
    Fora isso, adoro o humor britânico; preciso mesmo tentar ler em inglês meus autores ingleses prediletos.
    Beijos, adorei a resenha!

    1. Denise, se você quiser iniciar por esse é perfeito porque a linguagem dele é muito simples, uma delícia de ler. Às vezes tenho preguiça de ler em inglês quando a linguagem é muito rebuscada, mas nesse caso é bem tranqüilo. Quando assisti ao filme na época em que saiu, eu também vivia fazendo listas com meu marido, rs. Beijinho, obrigada pela visita! 😉

  3. Eu adoro o Nick Hornby (aliás, tô precisando ler mais livros dele). Todos os livros que li foram em português e tenho essa curiosidade de ler o texto original. Quanto ao filme, um ícone pop. Só não se se me enquadro na categoria d). O que seria uma vida adulta padrão?
    Bjo

    1. Realmente, Michelle, o filme se tornou um ícone mesmo. Eu já quero ler tudo do Hornby, já tenho até um aqui pra uma próxima leitura.
      Uma vida adulta padrão é aquela que diz respeito ao que a sociedade espera de um adulto: emprego formal, casamento, filhos, agir conforme as convenções etc. Beijinho! =)

  4. Oi Lua!
    Primeiro que eu adorei essa expressão “nunca-te-li-sempre-te-amei”, vou usar!
    Bom, vamos lá, conheço um pouco de cultura pop, tive vinil e já sofri desilusões, então acho que estou em casa!
    Muito boa sua resenha, guardarei a dica de ler no original, deve ser bem melhor mesmo!
    😉
    Bjaum

    1. Cah, a última opção pega todo mundo, né? Eu não cheguei a ver como é a tradução em português, mas pelos trechos que vi na internet eu achei que soam como tradução de música, afinal o texto tem mesmo um espírito de letra de música. =) Bj!

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