Contos – Katherine Mansfield

02_mansfEsta coletânea de contos de Katherine Mansfield cobre textos de vários momentos de sua vida como escritora e nela é possível perceber uma certa diferença entre os primeiros e os últimos, já que a autora parece se preocupar mais e mais com a linguagem e com o mundo interior dos seus personagens.

Nos primeiros contos, existe uma tendência em retratar viagens, situações em cafés, hotéis e trens, ambientes com pessoas desconhecidas, estrangeiras. São momentos em que o personagem está muito atento ao seu redor, pois tudo é novo e estranho. As pessoas são inéditas e as circunstâncias, mesmo corriqueiras para quem é do local, são curiosas para quem é forasteiro. Em “Alemães comendo”, uma mulher inglesa, durante uma refeição num café ou pousada, se vê diante de uma atitude de superioridade de alguns alemães, pouco antes da Primeira Guerra. Já durante a guerra, temos “Uma viagem indiscreta”, um conto com atmosfera um tanto onírica, que inicia com uma viagem de trem e culmina em outro café: uma mulher se utiliza de alguns disfarces para encontrar-se com um jovem cabo.

“A pequena governanta” também se passa em grande parte durante uma viagem de trem, ainda que aqui essa viagem tenha uma importância maior, pois ela não serve apenas como um meio de chegar a um lugar, ela representa todas as mudanças que irão ocorrer na vida da personagem. É um conto cheio de símbolos e assinala bem o medo de uma mulher diante de um mundo governado pelos homens, mas também a esperança, a busca pela felicidade nas coisas simples. Com uma carga semelhante de ingenuidade à da pequena governanta, mas sem a desculpa da juventude, a “Srta. Brill” também busca ser feliz com as pequenas coisas, mas aqui ela se limita a observar a vida em vez de vivê-la. Uma triste história sobre solidão, assim como “Je ne parle pas français”, em que um jovem parisiense, supostamente escritor, conta sua história malfadada com um casal inglês.

“Prelúdio”, “Na Baía”, e “A Casa de Bonecas” compõem uma trilogia de contos ou noveletas baseadas na infância da autora na Nova Zelândia. Basicamente apresentam pequenos momentos familiares dos Fairfields: o casal Linda e Stanley Burnell, seus filhos, a mãe de Linda, a Sra. Fairfield, a irmã Beryl e os funcionários da casa. No primeiro acompanhamos a mudança deles da cidade para o campo. No segundo, um dos mais belos contos do livro, vemos o dia nascer e morrer na praia, quando a família está em alguma casa de veraneio. A narrativa guarda um tema que se repete: a vida das mulheres (e crianças) sem os homens, a liberdade feminina. E no último, o foco é nas crianças, o mundo infantil como espelho do mundo adulto: a revolução que causa a chegada de uma linda casa de bonecas para as meninas. Estes contos são marcados pelos problemas femininos da época que retrata, que não são tão diferentes dos de hoje: mulheres que têm filhos mas que não apreciam ser mães, mulheres que vivem a serviço de um “chefe de família”, mulheres que acreditam que só terão valor quando casarem.

O casamento, inclusive, também é tema em “Marriage à la mode” e “Conto de homem casado”. Ambos falam sobre máscaras na vida conjugal, e enquanto em um não sabemos o que é máscara e o que é verdadeiro, pois há uma personagem que acha mais importante alimentar sua vaidade que dar atenção ao marido que ama, em outro a máscara está bem clara, pois trata-se de um relato de alguém que vê muito claramente que seu casamento é apenas uma farsa. Infelizmente este conto é incompleto e assim como “A Mosca”, que conta da angústia de um pai que perdeu seu filho para a guerra, o leitor não tem como saber a que fim as histórias iriam chegar.

Por fim, um conto que já comentei aqui, “As filhas do falecido coronel”, que conta as reações de duas irmãs ao se depararem com a morte do pai, já que elas não sabem o que fazer com a liberdade conquistada. Assim como em vários outros contos da coletânea, o que mais percebemos é que aquilo que é mais importante nunca é dito, é sempre sugerido, subentendido. O essencial está sempre escondido nos pequenos gestos e Mansfield se mostra uma sábia ilusionista que mostra com uma mão enquanto esconde com a outra.

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Esta leitura faz parte do Projeto Para ler como um escritor e o Projeto Mulheres Modernistas. Também faz parte de uma discussão no Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

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Middlesex – Jeffrey Eugenides

51_middleMiddlesex é um romance que abarca tantas categorias e discussões que fica difícil começar a apontar todas. Mistura de romance de formação com saga familiar, é um livro que retrata a descoberta da identidade de Cal ou Calíope – primeiro como menina, depois como homem, mas sendo biologicamente os dois ao mesmo tempo – não sem antes contar em detalhes a história da sua família, os Stephanides, começando por seus avós gregos, nascidos na Turquia, que fogem para os Estados Unidos após o grande incêndio de Esmirna, em 1922. A partir daí acompanhamos vários fatos do século XX do ponto de vista destes avós, e depois de seus pais, que vão encontrar em Detroit um novo lar, ainda que não consigam se distanciar muito de suas raízes. Somente na segunda parte do livro o protagonista vira realmente protagonista e toma a atenção para a questão da sua intersexualidade:

“Sou a oração subordinada final de uma longa sentença que começa há muito tempo, em outra língua, e vocês precisarão lê-la desde o início para chegar ao fim, que é quando entro na história.”

Metade da narrativa, portanto, contempla as origens de Cal: vemos como seus avós, Desdêmona e Esquerdinha, tiveram que lidar com um segredo que vai afetar a vida de todos mais tarde; vemos seus pais, Milton e Tessie, se apaixonarem e repetirem uma tendência familiar de casar entre parentes; vemos todos os dramas, cômicos ou trágicos, de uma família estrangeira tentando se adaptar a uma nova realidade e vemos a infância e o início da adolescência de Cal como menina, de certa forma não muito diferente da de qualquer uma outra.

Assim como Desdêmona e Esquerdinha, que ao chegarem na América interpretavam as novidades com correspondentes na mitologia e na cultura grega, o autor trespassa a narrativa com essas referências, a começar por uma Invocação da Musa, típica do início das obras épicas gregas, em que o escritor pedia por inspiração. Passa também por mitos como Terésias e o Minotauro, criaturas duplas que representam a figura de Calíope (ela própria a musa da poesia épica). A duplicidade, aliás, está por todo o livro: masculino/feminino, tradição/ciência, natureza/criação, Velho Mundo/Novo Mundo, enfim, é uma história repleta de quimeras.

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★★★★★ | Companhia das Letras, 2014

Cal é então esse personagem com aura mítica, essa quimera capaz de assustar mas com o poder de ter a experiência dos dois gêneros. Ele tem a consciência real de ser uma mulher para depois descobrir-se homem e se ver praticamente liberto das amarras femininas. E sua experiência nos traz velhas e grandes perguntas: o que exatamente significa ser homem ou mulher? Qual o papel cultural e qual o papel dos órgãos genitais na formação de nossa atitude perante o mundo? O que é destino e o que é livre-arbítrio na sexualidade? Para Cal, inevitavelmente seu gene recessivo do quinto cromossomo definiu o que sua vida ia ser, dentro do mundo em que ele nasceu, mas não só isso, afinal essa é uma história de herança não apenas genética, mas também de como levamos para frente os costumes de nossos ascendentes.

“Viver conduz a gente não ao futuro, mas ao passado, à infância e a antes do nascimento, até, enfim, a comunhão com os mortos. A gente envelhece, sobe as escadas ofegante, entra no corpo do pai. Dali, é só um pulinho até os avós, e então, antes que se dê conta, está viajando no tempo. Avançamos para trás nesta vida.”

Acima de todas as discussões que traz, e não à toa vencedor do Pulitzer de 2003, Middlesex é um livro envolvente e divertido, com algumas situações quase inverossímeis, que beiram o realismo mágico, e que dão à narrativa um tom cômico e leve. Jeffrey Eugenides tem uma escrita clara, mas ao mesmo tempo rica e bonita, e consegue grandes efeitos com suas mudanças de ponto de vista entre primeira e terceira pessoa, especialmente quando coloca o narrador Cal quase como onisciente, na mente de seus pais e avós antes mesmo de ter nascido. Com suas descrições perfeitas e seu enredo genialmente entrelaçado, é possível ouvir os sons, as vozes dos personagens, visualizar o tempo indo e voltando em flashbacks e flashforwards, sentir os cheiros das espeluncas frequentadas por Esquerdinha e sentir o sabor da fina massa de galactobourekos de Desdêmona estalando no céu da boca.

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*Escolhi e recebi este livro como cortesia da editora Companhia das Letras.