As Cidades Invisíveis – Italo Calvino


Neste livro de Italo Calvino, o explorador veneziano Marco Polo vai descrevendo para o grande imperador Kublai Khan toda a extensão de seu império, isto é, as cidades que ele possui mas não conhece. Num primeiro momento a descrição se dá através de sinais, gestos e jogos, mas aos poucos ele vai dominando a língua local – o que não quer dizer que a expressão fique melhor, já que Kublai acaba se acostumando a essa linguagem simbólica que eles constroem para interagir.

A cada capítulo, uma cidade diferente (todas com nomes de mulher) e a cada parte do livro, as reflexões dos dois sobre elas, sobre a existência, sobre a verdade, sobre o tempo. Entre as cidades, algumas possuem categorias em comum, como a memória, o desejo, as trocas, a continuidade… mas todas carregam a marca do invisível.

É o tipo de livro que recebe sua cor através do leitor, como se fossem aqueles livros de criança para colorir: o leitor preenche as metáforas do livro segundo sua própria experiência. Se por um lado podemos ver nestas cidades todas as cidades possíveis – e de certa maneira até identifiquei a cidade em que moro como Maurília, a cidade metrópole que o tempo inteiro se compara à sua versão anterior provinciana – por outro elas não se resumem a cidades propriamente ditas, pois a arquitetura de cada uma serve apenas como reflexo para a existência, dando a sensação de que o que está sendo descrito não são cidades, mas o próprio ser humano.

Não é possível ler o livro de uma vez só, ainda que ele seja curto, pois os textos de Calvino têm a propriedade poética de dizer muito com pouco. Cada cidade faz você parar para apreciar a paisagem e durante a leitura você é obrigado a pensar, a imaginar e, o que é melhor, a criar e a colorir as formas desenhadas pelo autor.

“Como é realmente a cidade sob esse carregado invólucro de símbolos, o que contém e o que esconde, ao se sair de Tamara é impossível saber. Do lado de fora, a terra estende-se vazia até o horizonte, abre-se o céu onde correm as nuvens. Nas formas que o acaso e o vento dão às nuvens, o homem se propõe a reconhecer figuras: veleiro, mão, elefante…”

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Ode a uma Estrela – Pablo Neruda

A Cosac Naify de vez em quando faz umas promoções em sua loja e recentemente eu aproveitei para comprar alguns livros, dentre eles este infanto-juvenil, com poema de Pablo Neruda e ilustrações de Elena Odriozola.
É um livro muito bonito, com todo aquele cuidado de sempre que a editora tem, mas eu fiquei um pouco decepcionada pelo fato dele conter apenas um poema curto. Ainda que seja uma publicação para crianças e que o poema do Neruda seja realmente especial, foi meio frustrante consumir o livro em poucos minutos. Isso é que dá gostar de livro infantil.

O poema, que foi retirado do livro Odes Complementares, de 1957, conta a história de um homem que rouba uma estrela do céu e o transtorno que vira sua vida depois disso. Tentando manter o brilho da estrela só para si ele percebe que guarda algo que não pode possuir, algo que é maior do que pode suportar. As ilustrações dão uma dimensão bem melancólica à história e têm um tom quase cômico.

Desde que visitei as casas do Neruda, no Chile, eu fiquei interessada em sua obra, de que li apenas textos esparsos. Mas agora sinto-me na obrigação de procurar uma obra mais completa para realmente conhecer seu trabalho.

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Kontroll (2003) – Nimród Antal

Numa estação de metrô em Budapeste muitas pessoas estão sendo encontradas mortas nos trilhos. Uma figura sombria parece ser responsável pelas mortes, mas os administradores da estação imaginam que são apenas suicídios. As equipes responsáveis pelo controle de bilhetes são acionadas para ficarem atentas no caso de alguém parecer suicida. Bulcsú e mais 4 colegas formam uma das equipes e agora, além de tentar impedir que as pessoas viajem sem pagar, têm que observar qualquer coisa suspeita.

Esse filme consegue misturar muito bem comédia, drama, ação, suspense e até romance. Cada personagem é algo à parte, até mesmo os inúmeros passageiros com quem eles lidam sempre trazem alguma situação engraçada ou inusitada. Sem falar da própria equipe de Bulcsú, cada um mais peculiar que o outro. Ele mesmo tem suas particularidades e, apesar de parecer o mais normal de todos, parece ter algum problema com seu passado, já que nunca sai da estação, nem mesmo pra dormir.

Cada cena tem a fotografia bem cuidada, a estética do subterrâneo serve ao filme em vários níveis e as atuações são ótimas. Não posso esquecer de mencionar a trilha sonora, que é muito boa! Uma ótima opção para desintoxicar um pouco da mesmice do cinema americano.

Trailer:

O Grande Gatsby – F. Scott Fitzgerald

A história se passa numa época dourada da história americana, onde havia grande prosperidade econômica, logo após a Primeira Guerra. Nick Carraway e outros personagens do livro são do Meio Oeste americano e por um motivo ou outro estão todos na região de Nova York, no verão de 1922.

Nick vai trabalhar em Nova York como corretor de ações e se instala em Long Island, mais especificamente em West Egg. Vive numa casa pequena, mas seus vizinhos moram em mansões, entre eles Jay Gatsby, um homem muito rico e misterioso. Sua prima Daisy está morando com o marido do outro lado da baía, em East Egg.

Ele tem uma função muito específica neste livro: é o narrador, é com os olhos dele que vemos Daisy, Gatsby, Tom, Myrtle e Jordan. Como mesmo se define, ele é um homem decente, que aprendeu a não julgar, e a maneira como ele descreve as situações e as pessoas que o cercam é uma das grandes qualidades do livro pois você fica se perguntando até onde a subjetividade dele entra nos personagens. Sua personalidade apagada o coloca como observador de tudo e todos, mas a chave para entender a vida lá fora está dentro de Nick:

“Eu estava ao mesmo tempo dentro e fora, encantado e repelido pela variedade inesgotável da vida.”

O calor do verão é quase um personagem, manipulando humores e iluminando os dias. O autor faz muita referência à luz do sol, parece até que todos os acontecimentos importantes ocorrem ao ar livre, com exceção de um momento singular em que chove, talvez para marcar uma mudança significativa na vida de Gatsby. A música também é presente e o jazz serve como trilha sonora em alguns momentos. É um livro muito leve de ler, mas nada superficial. Ao mesmo tempo que cativa, no sentido que você não consegue largar o livro, é daqueles que você pensa em ler novamente para saborear os detalhes.

Talvez justamente por estes detalhes mais literários, não tive vontade de ver nenhuma versão em filme, por enquanto. Mas em breve sairá um novo The Great Gatsby baseado no livro, e como o Baz Luhrmann sempre faz coisas originais, é provável que saia coisa boa.

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Ciro Colares, A Crônica Paixão por Fortaleza – Lucíola Limaverde


Eu sei que o fato deste livro ter sido escrito por uma prima querida me faz bastante suspeita para falar sobre ele, mas não poderia deixar de comentar este belo texto que originalmente foi uma monografia de final de curso e se transformou em livro, ao ganhar o prêmio Braga Montenegro, em 2010.

A proposta geral é demonstrar como a crônica, gênero que se acha entre o jornalismo e a literatura, pode encontrar uma vida após jornal e mais especificamente, como o cronista cearense Ciro Colares (1923-2002) conseguiu esse feito aproximando suas crônicas da poesia. Através de uma análise de textos do livro Fortalezamada, Lucíola Limaverde demonstra como era a relação deste jornalista com a cidade de Fortaleza e como seu olhar poético para as coisas simples do cotidiano elevava seus textos diários. Seria mais um trabalho acadêmico se não fosse a própria autora dialogar com essa ideia e levar a escrita de sua monografia para um nível também literário. O que temos então é um bonito texto acadêmico que vale a pena ser lido não só pelo seu tema como por suas linhas carregadas de poesia e paixão pelo cronista Colares. Tanto é assim que a introdução e a conclusão do livro são cartas pessoais ao jornalista, demonstrando como sua obra marcou a autora e como é possível aplicar um pouco de emoção a trabalhos sérios sem sair do rigor que eles demandam.

Num primeiro momento, somos introduzidos às relações entre jornalismo e literatura, entre prosa e poesia, e conhecemos um pouco da história de Ciro Colares, que trabalhou em vários jornais de Fortaleza e que tinha como inspiração maior sua cidade, seu bairro, seu beco. Ciro tinha alma boêmia, aqui entendida quase como um sinônimo a um estado de ser atento à poesia do mundo, como ele próprio define:

“Ser boêmio é um estado d’alma. Às vezes não há nenhum boêmio dentre os homens que num boteco, altas noites, bebem e tocam sambinhas em caixas de fósforos beija-flor. Às vezes, os mais autênticos dormem as noites todas e de manhã cedo vão dar milho às galinhas, apanhar rosas e borboletas.”

Lucíola vai demonstrando então de que forma Ciro conseguia revelar o cotidiano de sua cidade, do seu beco e dos bares que frequentava de forma singular, ultrapassando as regras de objetividade do jornal, buscando trazer permanência ao que é descartável:

“A literatura, como arte, se quer permanente e universal. E o jornalista, inclusive o também escritor, assiste a uma morte por dia: é o jornal quase recém-escrito, já substituído. O fim do jornal, de alguma forma, é o fim de quem o escreve, as folhas carcomidas servindo de embrulho ou de forro – embora haja sempre a esperança de que ela acabe por limpar janelas, aclarando ambientes.”

A cidade, enquanto grande protagonista de seus textos, serve não para regionalizar as crônicas, mas antes as torna universais, pois todo leitor possui lugares que lhes são caros, o que gera identificação. No entanto, neste caso, isso pode ser mais forte ainda para o próprio fortalezense, que através das crônicas-poemas pode resgatar um pouco uma cidade que quase não existe mais, uma Fortaleza cuja transformação foi sendo aos poucos relatada e lamentada por Ciro, já que ela foi se afastando cada vez mais de sua experiência de infância, numa época em que as cadeiras eram postas na calçada e todos se conheciam pelo nome:

“Bem que a cidade pequena devia ter sido amarrada
na linha de minha pipa ou na fieira do meu pião,
só assim ela parava, que era para esperar a gente crescer
e entendê-la melhor,
mas todo mundo foi que parou
e a cidade embalou tomando a frente de todo mundo.”

O trabalho de Lucíola é uma bela homenagem não só a Ciro Colares como a Fortaleza e nos faz olhar diferente para a cidade, para que seja amada com todos os seus defeitos e encantos, vendo poesia na lama dos becos, nos calçamentos de pedra, ou nas avenidas de asfalto.

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Fahrenheit 451 (1966) – François Truffaut

Depois de assistir a Le quatre cents coups, ano passado, fiquei muito curiosa em ver mais coisas de Truffaut. Mas para ver Fahrenheit 451, eu quis primeiro ler o livro de Ray Bradbury. E para isso eu tinha que antes ler 1984 e reler Admirável Mundo Novo. Depois desse festival de distopias, finalmente voltei ao ponto de partida.

Existe muita fidelidade ao livro de Bradbury nesta versão de Truffaut,  mas acho que o diretor foi além e conseguiu me convencer mais. Em alguns pontos ele foi mais radical: até os créditos iniciais do filme são narrados e a própria palavra escrita é proibida (se não me engano no livro existem outros tipos de leitura). O foco da proibição do livro é pela forma como eles podem deixar o ser humano infeliz (porque fazem questionar o mundo) ou como eles podem lhe dar uma arrogância intelectual. Nesta sociedade, todos devem ser iguais e a leitura faz com que os leitores se sintam superiores.

Alguns personagens foram limados e Clarisse ganha mais idade e tem um destino diferente, inclusive achei muito bacana a escolha de usar a mesma atriz para fazer o papel de Mildred (no filme ela se chama Linda). Interpretei como uma maneira de demonstrá-las como versões diferentes de uma mesma mulher,  ou como a educação pode levar alguém a caminhos diferentes. A Clarisse do livro é mais interessante e sábia, no filme ela tem um outro tipo de importância. Claro que não correspondeu ao imaginário pessoal que construí quando li, afinal o filme é de 1966, com estética e estilo de atuação próprios, e o livro, que tem pouca descrição de tempo e lugar (com exceção da referência a um passado em que os livros eram permitidos), faz o leitor, ou pelo menos me fez, imaginar um mundo de acordo com sua própria época, mas não há como ficar indiferente à direção única de Truffaut e sua visão pertinente da obra de Bradbury.

Perfect Sense (2011) – David Mackenzie

Em Perfect Sense, o mundo passa por uma espécie de epidemia em que as pessoas começam a perder os sentidos, começando pelo olfato. O foco da história é em Susan e Michael, que terão um envolvimento amoroso e mostrarão de maneira particular como essa epidemia se desenvolve. Antes da metade do filme você já prevê tudo que vai acontecer em seguida, então acaba que a parte mais interessante é o próprio relacionamento dos dois ou pelo menos suas personalidades, já que o que eles sentem um pelo outro vai ficando muito relacionado com a doença que se manifesta neles. Fora isso o filme é uma confusão, misturando drama, romance e ficção-científica, atirando pra todo lado e não acertando em nada. É impossível não lembrar de Ensaio sobre a Cegueira e de como este sim acertou em demonstrar a que ponto os seres humanos podem chegar ao perder um sentido.
Tudo bem, a fotografia do filme é linda, mas quando a gente coloca como primeira qualidade do filme o fato da fotografia ser linda já é uma pista de que o filme tem problemas. Não deu para aguentar 4 clímaces no roteiro e a narração chata da personagem Susan, que fica direcionando os sentimentos de quem está assistindo, explicando coisas que não precisavam ser explicadas. Um filme que tinha vários elementos bons que poderiam ser desenvolvidos de outra forma, mas que pra mim não deram certo ao se juntarem.

Fahrenheit 451 – Ray Bradbury


Em Fahrenheit 451, Ray Bradbury mostra ao leitor um mundo bem parecido com o nosso atual, com a essencial diferença de que os livros são proibidos, tanto a propriedade quanto a leitura, e para controlar esta proibição os bombeiros são responsáveis por queimá-los – daí o título do livro, que seria a temperatura em que eles queimam.

Guy Montag é um bombeiro que claramente sente prazer em queimar livros, instigado pelo seu chefe Beatty, um homem culto, que um dia amou os livros mas agora prefere queimá-los. Ele é casado com Mildred, uma mulher que passa o dia interagindo com uma espécie de conjunto de televisões na parede e que parece ser uma pessoa vazia, ou esvaziada. Um dia ele encontra a espirituosa Clarisse, sua vizinha adolescente que o faz pensar e questionar a própria vida. A partir de seus encontros com ela é que ele desperta a curiosidade em relação aos livros e vai, durante a história, seguir um percurso de informação, rebeldia e transformação.

Algumas coisas me incomodaram nesta obra. Considero fraco o argumento de que o desaparecimento dos livros se deu porque todos os livros eram “perigosos” ou faziam as pessoas pensarem, até porque nem todo livro tem essa qualidade. Eu acreditaria mais numa destruição de alguns títulos (exemplos históricos reais não faltam) ou mesmo que as pessoas foram trocando os livros por outras mídias mais fáceis, coisa que até o autor deixou clara no livro. Mas tudo bem, posso concordar que o livro enquanto objeto carrega, além de seu conteúdo, uma aura meio de misticidade que poderia incomodar os governos a ponto de serem alvo do fogo. No entanto, fiz careta para um certo didatismo, quase infanto-juvenil, que permeia o livro, especialmente quando surge Faber, o personagem que vai ser praticamente um professor para Montag. Ele é responsável por explicar a Montag e ao leitor a importância da causa, ainda que deixe claro que o buraco é mais embaixo:

“Não é de livros que você precisa, é de algumas coisas que antigamente estavam nos livros. […] Não há neles nada de mágico. A magia está apenas no que os livros dizem, no modo como confeccionavam um traje para nós, a partir de retalhos do universo.”

De certa forma eu tentei ver a história do livro mais como uma alegoria, em que os livros seriam apenas um símbolo da decadência do pensamento livre e das manifestações artísticas. Nesse sentido, Fahrenheit 451 se assemelha um pouco a Admirável Mundo Novo, no sentido que enfoca a importância da arte para o ser humano. A teoria é que o ser humano, por mais feliz que fosse, não conseguiria viver sem manifestações artísticas, sem questionamentos sobre a vida e até mesmo sem tristeza. Os indivíduos da sociedade criada por Bradbury, simbolizados pela personagem Mildred, são parecidos com aqueles da obra de Huxley. São pessoas anestesiadas pelos prazeres, a diversão e o entretenimento. Porém, como em toda distopia, sempre há um grupo marginal que constitui a esperança e Montag segue em direção a esse caminho.

Apesar de tudo, é um livro com qualidades. Uma das partes mais bacanas é quando o autor meio que profetiza os reality shows nas cenas de perseguição a Montag. Algumas imagens na narrativa são belas e me fizeram querer ler outras obras do autor. E o tom meio didático do livro, que me chateou um pouco, pode ser uma vantagem na educação de jovens. E é assim que vejo esse livro, como um livro para jovens, eu mesma teria amado este livro nos meus tempos de Clarisse.

Leia aqui sobre o filme Fahrenheit 451 (1966), de François Truffaut.
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Só dez por cento é mentira (2008) – Pedro Cezar

Documentário de 2008, Só dez por cento é mentira procura retratar a vida e a obra de Manoel de Barros através de uma “desbiografia” do poeta, procurando usar imagens, objetos, músicas e depoimentos que façam par com seus poemas, já que ele diz que sua vida não é biografável e sua obra, como toda poesia, não pode ser explicada.
É um lindo filme, com o único defeito de ser narrado pelo diretor: para mim a narração me lembrou as aulas de Telecurso 2000. Apesar disso, dá pra abstrair e curtir as histórias, as inspirações e as pessoas que fazem parte de sua vida, bem como os trechos de poemas que surgem para arrematar tudo. O título do filme, é claro, é um verso de um poema e resume uma característica essencial da obra de Barros: a invenção enquanto produto da imaginação e que difere da mentira. A invenção enquanto verdade maior.

“Invenção é uma coisa que serve para aumentar o mundo.”