As leituras de 2013 | Retrospectiva Literária

O ano de 2013 foi um ano de momentos bem diversos e as leituras tiveram que ser escolhidas conforme ia minha saúde, meu tempo e minha sanidade, especialmente no primeiro semestre. Por conta disso, não tive muitas leituras 5 estrelas. Eu acabava escolhendo uma leitura mais fácil ou lendo um livro para o Fórum, isto é, poucas escolhas próprias. Mas li muitos livros bons e praticamente consegui cumprir minha meta.

Os melhores
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As melhores leituras do ano foram Norwegian Wood e O filho de mil homens. Foram os únicos livros que me tocaram profundamente e dos quais não tenho nada a dizer de negativo. Ambos me deram um prazer imenso, daqueles que mesmo quando tratam de coisas tristes trazem felicidade.

Os piores
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Os piores não foram leituras ruins, pelo contrário, foram até divertidas! Mas foram livros em que a escrita dos autores me incomodou um pouco; eles têm em comum um certo “ranço” de best-seller que sempre me incomoda, tanto pelo estilo como por algumas situações clichês. Jogador Nº 1, de Ernest Cline é basicamente uma aventura de videogame cheia de referências à cultura dos anos 80 e tem momentos divertidos, mas no geral a história é bem fraquinha. Já O Cirurgião, da Tess Gerritsen é um romance policial que agrada a maioria dos fãs do gênero, mas comigo não funcionou muito bem.

Meta de 60 livros
Ano passado a minha meta foi de 80 livros e pelo que me lembro eu consegui bater ou chegar perto, mas eu não tinha a menor esperança de repetir o desafio esse ano quando percebi que os enjôos da gravidez iam durar pra sempre e que eu teria pelo menos uns dois meses sem possibilidade de leitura. Roubei um pouquinho porque li alguns livros infantis, mas considerando que encarei quase 2000 páginas de Os Miseráveis, ficou uma coisa pela outra.

Clássicos do ano
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Os clássicos que li foram: Os Miseráveis e O Corcunda de Notre-Dame, de Victor Hugo; Coração das Trevas, do Joseph Conrad;  Moll Flanders e Robinson Crusoé, ambos do Daniel Defoe e li boa parte de Pamela, do Samuel Richardson, mas abandonei (coisa que só faço quando o livro é realmente insuportável).

Gostei mas não era o momento certo
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Depois de ter lido Ciranda de Pedra, que foi uma leitura marcante, li As Meninas, da Lygia Fagundes Telles e não aproveitei muito. No decorrer do livro fui gostando mais e mais e simplesmente amei o final, mas no geral a leitura foi muito arrastada e sofrida. A Casa, da Natércia Campos, também foi outro livro que ainda não sei se li no momento errado pois gostei de muita coisa na história, me lembrou um pouco Cem Anos de Solidão (por ser a história de uma casa, que foi uma das idéias iniciais do Marquez, mas aqui a própria casa é a narradora), mas parece que alguma coisa ficou faltando e talvez seja porque eu li sem a devida atenção.

Gostei mas esperava mais
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Sem dúvida entram para essa categoria Serena, do Ian McEwan – um livro gostoso de ler, que empolga, mas que você precisa gostar do final pra ele funcionar e eu não fiquei muito contente com ele –, e o Teoria do Esquecimento, do Agualusa – uma história bonita e cheia de poesia, mas eu esperava um super livro e ele não foi bem o que eu imaginava, achei-o um tanto despedaçado, por assim dizer.

Pensei que ia ser 3 estrelas, foi 4
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As Irmãs Makioka é um livro mais contemplativo mas me encantou o tempo todo, daqueles que você se preocupa com os personagens, do que vai acontecer com eles, adorei. Não tenho expectativas quando o livro é muito curto e O Sentido de um Fim foi uma surpresa, uma narrativa que traz questões que me interessam muito. Se vivêssemos num lugar normal, do Juan Pablo Villalobos foi lido recentemente e eu simplesmente adorei, muito engraçado e crítico ao mesmo tempo, vou tentar reler para comentar sobre ele aqui no blog. Por fim, Famílias terrivelmente felizes, do Marçal Aquino, que conseguiu a proeza de ser o melhor livro de contos do ano.

Pensei que ia ser 5 estrelas, foi 4
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Não foram decepções, muito longe disso, foram livros que gostei muito, mas que eu esperava que me arrebatassem: O oceano no fim do caminho, que é um livro lindo, mas que pelas minhas expectativas ficou me devendo algo; Os Miseráveis, do Victor Hugo, que me deixava sempre ou muito maravilhada ou com muita raiva do autor; e Reparação, do Ian McEwan, o último livro que li esse ano e que eu queria que tivesse sido tão perfeito quanto é sua primeira parte. No entanto, esse chegou bem perto de ser 5 estrelas e fechou o ano muito bem.

Retrospectiva Literária Sensual 2013

Alguns amigos criaram essa tag e vou aproveitar para respondê-la. Créditos aqui.
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A capa do ano: Laranja Mecânica, na edição capa dura com sobrecapa da editora Aleph.
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O título do ano: A Louca da Casa, da Rosa Montero. O título se refere à imaginação humana, mas sempre que olho a capa me parece que é um livro sobre uma espécie de ovelha negra da família.
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A surpresa do ano: Se vivêssemos num lugar normal, do Juan Pablo Villalobos.
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A decepção do ano: Jogador nº 1, de Ernest Cline. Sabia que era um livro mais leve, mas achava que seria um pouco mais substancioso.
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A série do ano: sem dúvida As Crônicas de Gelo e Fogo tem sido uma série favorita e esse ano li o que considero o melhor até agora, que é A Tormenta de Espadas.
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O livro nacional do ano: Ciranda de Pedra, da Lygia Fagundes Telles.
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O autor do ano (um que você tenha lido pela primeira vez este ano): Valter Hugo Mãe, seguido bem de perto do Haruki Murakami.
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A pechincha ou a raridade do ano: não lembro de nada específico, mas fiz minha festa com as promoções da Cosac Naify e da Editora Globo.

O melhor desfecho: sem dúvidas George R.R. Martin arrebatou seus leitores com o final de A Tormenta de Espadas.
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O protagonista masculino do ano: talvez porque esteja mais fresco na minha cabeça, Robbie, de Reparação, do Ian McEwan. Simples, humano, perseverante.
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O protagonista feminino do ano: Morgana, de As Brumas de Avalon.
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Personagem coadjuvante masculino: a dupla Atreiú e Fuchur, de História sem fim, de Michael Ende.
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Personagem coadjuvante feminino: Sachiko, de As Irmãs Makioka. Não sei se ela é exatamente coadjuvante porque ela toma o papel de narradora, mas considero-a uma personagem agradável e ponderada.
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O pior do ano
Sem dúvida foi o livro que abandonei recentemente: Pamela, de Samuel Richardson. Uma tortura.

O melhor do ano: O Filho de Mil Homens, de Valter Hugo Mãe.
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Sua meta 2013 foi cumprida? No geral, sim.

Qual é sua meta para 2014? Estou com alguns projetos, como o Projeto Kundera (que não tem prazos), estou acompanhando o projeto da Juliana Brina com o livro Para ler como um escritor, da Francine Prose; tenho sempre os livros do Fórum para ler e quero que em 2014 eu escolha mais livros que me toquem de maneira pessoal, ainda que eu queira também compartilhar leituras mais e mais porque é muito gostoso ler junto com alguém.

É isso! Feliz Ano Novo!

Risíveis Amores – Milan Kundera [Projeto Kundera #2]

58_risiveisContinuando meu Projeto Kundera, li a segunda publicação do autor: Risíveis Amores, um livro de contos bem singular, por seu caráter conceitual. Embora tenha sido publicado em 1970, ele foi escrito entre 1959 e 1968, isto é, mais ou menos ao mesmo tempo que o romance A Brincadeira, o que é nítido em algumas temáticas em comum, especialmente a troça com coisas sérias, jogos que levam os personagens a situações ruins, simplesmente porque se recusam a aceitar a seriedade onde ela não deveria existir.

E um dos lugares onde a seriedade não mora é no sexo: os personagens vivem seus amores de uma forma muito real, e por isso mesmo muito risível para quem vê de fora, e as relações são muito mais interiores e egoístas, no sentido de que o outro só serve à medida que se comporta como um espelho. Tanto faz qual seja a aparência física de alguém, contanto que esta pessoa sirva ao propósito de refletir o lado mais bonito de quem está no jogo. Isto fica bem evidente nos 3 últimos contos do livro.

Em Ninguém vai rir e Eduardo e Deus temos histórias semelhantes em que seus protagonistas irão se enredar numa teia de mentiras para que possam escapar da seriedade imposta pelo regime político em que vivem. Seja para atingir interesses pessoais, seja para exercer algum grau de liberdade, esses personagens parecem querer fugir da sensação de que não são eles mesmos que regem sua vida.

“Eu compreendia de repente que era apenas uma ilusão ter imaginado que nós mesmos selávamos a égua de nossas aventuras e que dirigíamos nós mesmos a corrida; que essas aventuras talvez não fossem absolutamente nossas, mas talvez impostas do exterior.”

O pomo de ouro do eterno desejo é um conto mais singelo, sobre amizade, que mostra como dois amigos saem à caça de mulheres de tal forma que o jogo é mais importante que o resultado. O jogo também se sobressai em O jogo do carona, a história de um jovem casal que resolve fingir que são estranhos um ao outro, a tal ponto que um deles se deixa levar além do permitido. É bem interessante observar como a garota neste conto vai desenvolvendo sua segunda personalidade, o que lhe traz uma pura sensação de liberdade.

O Simpósio é o conto mais diferente do livro em sua estrutura. Aqui o autor faz referência aos simpósios gregos e divide o conto por atos, como se fosse uma peça de teatro. E o maior número de diálogos também nos dá essa impressão de texto dramático. O que mais me chamou atenção nessa história foi o tom irônico do autor demonstrando o fim das tragédias, ou de como o ser humano insiste em procurar o elemento trágico mesmo onde ele não existe. Um dos personagens desse conto, o dr. Havel, volta em O dr. Havel vinte anos depois: o colecionador de mulheres agora é casado com uma bela e famosa atriz e tem nela e em sua reputação sua fonte de poder, já que não pode mais contar com sua juventude.

Por fim, Que os velhos mortos cedam lugar aos novos mortos foi um dos meus contos preferidos, pois gostei como Kundera montou várias camadas do mesmo tema e da maneira como os personagens estão tentando fugir da velhice e da morte através do sexo.

Apesar de achar que a composição das personagens femininas do autor ainda não é ideal – pois geralmente elas vivem em função das personagens masculinas – em Risíveis Amores há mulheres bem melhor construídas que em A Brincadeira, claro que dentro dos limites de um livro de contos.

O mais divertido nesta leitura foi que ela foi compartilhada com a querida Maira. Tivemos uma ótima discussão sobre o livro, conto por conto, e foi incrível como cada uma via elementos no texto que a outra não via e a conversa foi muito rica. Quem quiser acompanhar esse debate ele foi realizado neste tópico do Fórum Entre Pontos e Vírgulas. Se alguém tiver lido o livro e quiser acrescentar alguma coisa, é só deixar sua contribuição por lá. Obrigada pela ótima companhia, Maira!