Léxico Familiar – Natalia Ginzburg

interlunio61-lexicoExistem livros que são capazes de atingir uma camada mais profunda do leitor: histórias que falam com nossas histórias, pessoas ou personagens que revelam o que não conseguimos expressar. Léxico Familiar é um destes livros que nos tomam pela mão e nos levam a rever fragmentos de nossas vidas, como se fossem um dos espectros que surgem para Scrooge no Natal.

Com uma linguagem direta mas ao mesmo tempo afetuosa, a autora italiana Natalia Ginzburg tece um bordado de memórias – para usar uma metáfora do posfácio da edição – relativas à sua vida familiar, da infância à vida adulta. O foco está longe de ser ela mesma: não há quase menção sobre suas descobertas de menina, sobre o seu casamento com Leone Ginzburg ou sobre ser mãe de três filhos. A família aqui é a família que temos enquanto filhos, a que convivemos com as pessoas que não escolhemos: os pais, os irmãos, os parentes e amigos dos pais. E ela constrói esse bordado tomando como fio as frases, anedotas, expressões usadas pela família que vão se repetindo ao longo da narrativa, como não poderia ser diferente em qualquer convivência familiar.

As frases familiares e as piadas internas nos causam uma sensação de conforto, como se fizéssemos parte dessa família ou comparássemos com a nossa. Expressões como “surge um novo astro”, “as sobras de Virginia” e “não reconheço mais a minha Alemanha” causam-nos gargalhadas, pois nos sentimos incluídos nessa história e nos lembramos do que um avô ou uma tia costumava repetir em nossa infância e que virou um bordão em várias situações.

Ainda que ela mostre o pai como um homem duro e intransigente, acabamos por rir muito com esta figura, com sua falta de paciência e seus despertares durante a noite, preocupado com que rumo os filhos iam tomar. Sua mãe é retratada como uma figura um tanto passiva mas de um espírito livre, feliz e tranquilo, com uma sabedoria poética diante da vida. A família Levi, que conta ainda com os irmãos Gino, Mario, Alberto e Paola, vive com muito bom humor, mas ao mesmo tempo com a grande sombra do fascismo na Itália e da Segunda Guerra, que levam muitos amigos e familiares ao exílio e à morte.

Cada família constrói o seu próprio léxico familiar, mas não há dúvida de que o léxico da família de Natalia Ginzburg é especial e cheio de referências artísticas interessantes, nos envolvendo naquele afeto misterioso que as famílias têm, que se apresentam até mesmo nas brigas e discussões acaloradas. Uma leitura deliciosa, com todos os elementos que uma vida guarda: sonhos, perdas, melancolia, alegria, sonhos e desilusão, com humor e beleza, e um final que nos leva a querer voltar ao começo.

Aos 7 e aos 40 – João Anzanello Carrascoza

interlunio58-7e40A idade dos 7 aos 9 anos sempre me pareceu uma época da vida que é definitiva. Parece um tempo em que tudo se estabelece, as escolhas já foram feitas, os valores estão formatados e o aprendizado que se seguirá dificilmente nos atingirá no cerne, apenas naquilo que temos de mais maleável.

Em Aos 7 e aos 40 temos um vislumbre do quanto esse pedaço de infância pode nos deixar marcados e o quanto essa saudade do que foi pode ser um bálsamo para as feridas da vida adulta.

Dividido em dois tempos narrativos, este pequeno romance de Carrascoza fala da vida de um menino aos 7 anos – com um narrador em primeira pessoa – e o mesmo com sua idade atual, seus 40 anos – com um discurso em terceira pessoa, e em versos. O menino descreve suas brincadeiras, seus amigos de rua e escola, suas partidas de futebol com o irmão mais velho, o treinamento de salto em altura, os conselhos certeiros da mãe, as conversas no carro com o pai e o primeiro amor, sua prima Teresa. Esse narrador criança lembra muito os de José J. Veiga, meninos com muita doçura, encanto pela vida, inocência e vivacidade. Já o homem é descrito por suas perdas, a separação da esposa, a saudade do filho que só vê aos finais de semana, a lembrança de quando era apenas um menino e podia se sentir feliz.

Os capítulos são divididos em categorias contrárias, demarcando bem a diferença entre os dois períodos de vida: Depressa e Devagar, Leitura e Escritura, Nunca mais e Para sempre, Dia e Noite, Silêncio e Som, Fim e Recomeço. Enquanto o menino é “fiel ao seu instante”, existindo para o dia, isto é, cada dia serve para ser aproveitado, o homem vive seus anos, o que passou e o que ainda está por vir. Enquanto o menino é transparência, o homem é entrelinha. E nesse encontro de lembrança e realidade, o homem quer voltar ao começo para ver se consegue resgatar o que sentia, seja a sensação de ver pela primeira vez os olhos e o sorriso de Teresa, seja a emoção de ir com um amigo pegar um passarinho na arapuca.

“Às vezes, é preciso mesmo olhar pra trás se queremos ir em frente.”

Tartarin de Tarascon – Alphonse Daudet

interlunio49-tartarinSe alguém aí está procurando um livro leve, engraçado e com um pouco de aventura, pode ser que o encontre neste pequeno livro do francês Alphonse Daudet. Publicado em 1872, Tartarin de Tarascon tem um dos personagens mais divertidos da literatura, pois ele é uma mistura de Dom Quixote com Sancho Pança e sofre o tempo todo com essa dualidade, essa briga entre o Tartarin que quer explorar o mundo e caçar leões e o Tartarin corpulento que quer ficar em sua poltrona com seu chocolate quente.

A comunidade de Tarascon, no Sul da França, tem costumes bem peculiares, com suas cantigas tradicionais e sua paixão pela caça. O problema é que não há nada para caçar na cidade, então a caça para eles é na verdade um bom almoço no campo, coroado com tiros nas próprias boinas. Aquele que tem a boina mais destruída é o vencedor, e esse sempre é Tartarin. Sua fama de herói é corroborada pela grande quantidade de armas expostas em sua casa e seus livros sobre guerra, mas a verdade é que Tartarin nunca saiu da cidade e seus inimigos são apenas imaginários, por quem ele está sempre esperando a cada esquina. Ele é um contador de histórias, histórias que nunca viveu, mas que leu, histórias de outros que acabaram tornando-se suas à medida que as narra continuamente, de forma tão dramática.

“O homem do Sul não mente; ele se engana. Não diz a verdade todo o tempo, mas acredita que sim… Suas mentiras não são bem mentiras, são uma espécie de miragem…”

Um dia um circo chega à cidade e Tartarin se depara frente a frente com um leão. A partir desse momento ele encontra uma missão de vida: irá para a África caçar leões! Depois de muita relutância de seu lado Sancho e da pressão dos tarasconeses, Tartarin seguirá para a Argélia com toda a sua parafernália de caçador, e vai se deparar com muitas aventuras, mas não exatamente as que esperava viver.

O narrador dessa história – um observador de todos os passos do herói – é a verdadeira fonte do humor do livro, com suas tiradas irônicas e retratos cômicos de cada trapalhada de Tartarin. Além disso, o autor aproveita para alfinetar a França em relação à colonização da Argélia e para destruir as ilusões do estrangeiro que pensa a África em seus estereótipos de lugar ermo, com habitantes selvagens; um erro que ele mesmo cometeu, quando visitou a Argélia ainda jovem. Mas as ilusões e a ingenuidade de Tartarin causam-nos mais riso que pena justamente porque ele precisa aprender, precisa tirar o véu da vaidade extrema e ver além do seu pequeno universo tarasconês, que ele leva para onde vai.

Mary Poppins – P. L. Travers [Breve comentário]

interlunio39-maryUm já clássico moderno nas histórias infantis, Mary Poppins é a babá que chega na família Banks para trazer um pouco de magia à vida de suas crianças, tão negligenciadas pelos pais. Mary é uma protagonista curiosa, já que não foi feita exatamente para agradar o leitor. Vaidosa, ela parece ser egocêntrica, mas sempre é prestativa com problemas alheios, se ela os considera sérios. Ela serve mais como um canal para um mundo mágico, um símbolo do escapismo infantil diante da indiferença dos pais.

Através de cenas fantásticas, pessoas que flutuam, conversas com animais e uma festa de aniversário pra lá de excêntrica, Mary enreda uma aventura atrás da outra, contanto que não se faça muitas perguntas! A personagem pode parecer meio ríspida, mas ela não teria seu charme se fosse o estereótipo da babá água-com-açúcar, e ela parece muito doce naquela que foi minha cena favorita: quando entra com seu namorado em uma tela que ele pintou. Além disso, as crianças são ótimos personagens, especialmente Jane, que parece ter tudo para dar a atenção devida aos irmãos quando Mary se for. O livro me agradou bastante, com exceção de um ou outro capítulo que me pareceu dispensável.

Sete narrativas góticas – Karen Blixen

interlunio08-goticasDepois de algum tempo que retornou involuntariamente da África, a dinamarquesa Karen Blixen parece ter encontrado na escrita o ânimo que precisava para amenizar sua saudade. O Sete Narrativas Góticas foi seu primeiro livro publicado, em 1934, e consiste em contos ou novelas fantásticas, com histórias que já contava oralmente para seus amigos, naquele continente que considerava sua verdadeira casa.

As histórias têm uma estrutura semelhante aos contos de fadas, cheias de peripécias e com algumas narrativas menores internas, histórias dentro de histórias, que às vezes são mais importantes ou envolventes que a história principal. São como um labirinto circular, em que depois que se chega ao meio só resta ir desenrolando o caminho de volta até fechar a trama.

O termo gótico não poderia ser mais preciso: a autora traz o mundo medieval para personagens do século XIX e ambienta suas vidas em castelos, mosteiros, florestas sombrias. As paisagens são soturnas e os personagens são simbólicos, parecem não ser de carne e osso, mas apenas representações de ideias ou ideais. Os valores parecem ser contraditórios e muitas vezes o negativo é apresentado como positivo: a morte traz luz, a noite reserva esperança… Acima de tudo é criada uma atmosfera poderosa de sombras, em que desfila a loucura e o sobrenatural.

Um tema que está muito presente é o da manipulação. Um personagem com um certo poder ou talento irá tratar os outros como suas marionetes. Isso ocorre sobretudo em “O dilúvio em Nordeney”, “O macaco” e “O poeta”. Na primeira novela temos personagens com muita improbabilidade de se encontrar reunidos em um celeiro, contando suas vidas em volta do fogo de uma lamparina. Esperam a morte ou a possibilidade de salvação, caso sejam resgatados de uma enchente. Na segunda, que tem um mosteiro como cenário, uma prioresa possui um macaco por quem é muito devotada. O animal terá um curioso papel no destino do jovem sobrinho da prioresa e a moça com quem ele quer casar. Já na terceira história há um triângulo amoroso marcado pela tragédia: um velho irá manipular um jovem casal para que tudo ocorra conforme seus objetivos, separando-os por amor à Poesia e a Beleza.

As mulheres são geralmente retratadas como a Mulher enquanto ideia e muitas vezes apresentadas como inatingíveis. Em “O velho cavalheiro” o narrador nos conta duas histórias amorosas: de quando se apaixonou por uma mulher casada e a sua noite de amor com uma jovem que encontrou bêbada nas ruas de Paris. Aqui temos dois exemplos de mulheres no pedestal: a dama poderosa e superior, e a jovem misteriosa, que responde a todas as fantasias. “Os sonhadores” também traz essa mulher envolta em mistério, mas aqui ela é quase uma deusa imortal, encantadora de homens.

Talvez a história mais fraca seja ”Os caminhos em torno de Pisa”, que nos apresenta a um conde dinamarquês que está na Itália para fugir de sua esposa ciumenta. Ele vem a conhecer uma senhora que quer ver a neta antes de morrer e pede a ele que a ajude. Provavelmente esta seja a novela com menos elementos fantásticos. Por outro lado, “A ceia em Elsinore” tem um forte elemento sobrenatural. Trata de uma família vivendo em Elsinore, que conta com duas irmãs espirituosas e melancólicas e seu irmão Morten, jovem destemido e vaidoso que acaba se tornando corsário, apresando vários navios para o seu país durante as guerras napoleônicas. Quando o corso é proibido, ele some no mundo e torna-se pirata, mas volta depois como fantasma para se encontrar com suas irmãs.

Ninguém consegue criar imagens que funcionam como pinturas literárias como Karen Blixen. Embora essas narrativas góticas possam soar ingênuas e seus temas e reflexões possam ser vistos como ultrapassados, a autora constrói uma atmosfera onírica que pode marcar muito a imaginação do leitor. São histórias que remetem a um tempo em que as narrativas orais em volta do fogo eram o único entretenimento possível e tinham o poder de deixar quem as ouvia rememorando seus trechos mágicos antes de dormir.

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Esta leitura faz parte do Projeto Mulheres Modernistas e de uma discussão no Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

Mrs. Dalloway – Virginia Woolf

interlunio03dallowayPublicado em 1925, Mrs. Dalloway é um curto romance que descreve um dia na vida de seus personagens, na cidade de Londres, em algum mês de junho após a Primeira Guerra. Apesar de se passar em apenas um dia, o leitor tem a nítida visão da vida inteira destes personagens, pois ele acompanha suas ponderações mais íntimas, suas questões mais profundas. Com muito poucos diálogos e bastante uso do chamado fluxo de consciência, temos a impressão de que os personagens estão isolados, pois a interação se dá muito mais por lembranças e assim o mundo interior prevalece.

Clarissa Dalloway é uma mulher casada, de meia idade, que está organizando uma festa. Apesar de sua privilegiada situação financeira, ela tem a característica de procurar resolver seus próprios pequenos problemas. A frase inicial do romance, “Mrs. Dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores” já dá uma pista tanto de sua preocupação em tomar para si os problemas, como também da busca por viver a vida de forma direta: ela quer ter o poder de ser responsável pela beleza de sua festa.

O início do livro descreve a vida nas ruas, a alegria de um dia que começa, os barulhos e os cheiros da cidade, as pessoas apressadas que passam, o fluxo da vida moderna do começo do século XX. Como um poema de Álvaro de Campos, podemos escutar o barulho dos carros e o roçar de pessoas se movimentando entre si. Os cortes sutis – ou a falta deles –, lembram os planos-sequência do cinema: a narrativa sai do mundo interior de um personagem e passa a de outro quase sem o leitor perceber, dando a impressão de que tudo parece conectado, um personagem afetando o outro, mesmo que alguns nem se conheçam. Temos então tanto esse ruído das ruas, com pessoas anônimas envoltas em suas questões, quanto o ruído interno dos pensamentos de Clarissa e dos demais personagens.

“Elas amam a vida. Nos olhos das pessoas, em seus passos gingados, cadenciados, arrastados; no alarido e no tumulto; nas carruagens, nos automóveis, nos ônibus, nos furgões, nos homens-sanduíche que avançavam oscilantes; nas bandas de música; nos realejos; no triunfo e no repique, e no estranho zumbido de um aeroplano no alto, era bem isso o que ela amava; a vida; Londres; esse momento de junho.”

O passeio de Clarissa pelas ruas de Londres apresenta todos os personagens principais e tudo que representam pra ela: seu marido Richard, sua filha Elizabeth, a professora de Elizabeth, Doris Kilman, seu ex-noivo Peter Walsh e sua amiga Sally Seton, e finalmente Septimus e Lucrezia, que não a conhecem mas compartilham com ela uma cena na rua. As flores e a bela manhã em Londres a fazem lembrar de sua juventude e não apenas suas lembranças como propriamente duas figuras da época surgem, e que aparecem sem serem necessariamente convidadas para a festa, levando-a ao passado: seu ex-noivo Peter Walsh e sua amiga Sally Seton.

Esse retorno, os preparativos para a festa, o confronto com a idade em que a vida já se resolveu e não há mais novos projetos, a aparente futilidade da vida privilegiada, tudo deixa Clarissa ansiosa pois ela não consegue justificar seu cotidiano. No entanto ela se revela apenas alguém que quer celebrar a vida e acima de tudo fugir da morte e da solidão, e não ver a velha vizinha na janela como um espelho de seu futuro.

“‘É por isso que dou essas festas’, disse, em voz alta, à vida.”

Do outro lado da moeda temos Septimus, que é um homem que lutou na Primeira Guerra e sofre com ataques de pânico, manifestando também algum tipo de problema mental. Essa dualidade entre Clarissa, que ama e procura celebrar a vida, e Septimus, que perdeu a perspectiva de sentido e não vê mais graça na existência, trespassa toda a narrativa, mas eles encontram pontos em comum, pois acreditam que a vida tem uma medida e é com ela que se conclui quem é que cabe ou não nela. A vida vale a pena? Segundo eles, a vida por si só não basta, ela só vale a pena em certos termos.

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Esta leitura faz parte do Projeto Mulheres Modernistas e de uma discussão no Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

Contos – Katherine Mansfield

02_mansfEsta coletânea de contos de Katherine Mansfield cobre textos de vários momentos de sua vida como escritora e nela é possível perceber uma certa diferença entre os primeiros e os últimos, já que a autora parece se preocupar mais e mais com a linguagem e com o mundo interior dos seus personagens.

Nos primeiros contos, existe uma tendência em retratar viagens, situações em cafés, hotéis e trens, ambientes com pessoas desconhecidas, estrangeiras. São momentos em que o personagem está muito atento ao seu redor, pois tudo é novo e estranho. As pessoas são inéditas e as circunstâncias, mesmo corriqueiras para quem é do local, são curiosas para quem é forasteiro. Em “Alemães comendo”, uma mulher inglesa, durante uma refeição num café ou pousada, se vê diante de uma atitude de superioridade de alguns alemães, pouco antes da Primeira Guerra. Já durante a guerra, temos “Uma viagem indiscreta”, um conto com atmosfera um tanto onírica, que inicia com uma viagem de trem e culmina em outro café: uma mulher se utiliza de alguns disfarces para encontrar-se com um jovem cabo.

“A pequena governanta” também se passa em grande parte durante uma viagem de trem, ainda que aqui essa viagem tenha uma importância maior, pois ela não serve apenas como um meio de chegar a um lugar, ela representa todas as mudanças que irão ocorrer na vida da personagem. É um conto cheio de símbolos e assinala bem o medo de uma mulher diante de um mundo governado pelos homens, mas também a esperança, a busca pela felicidade nas coisas simples. Com uma carga semelhante de ingenuidade à da pequena governanta, mas sem a desculpa da juventude, a “Srta. Brill” também busca ser feliz com as pequenas coisas, mas aqui ela se limita a observar a vida em vez de vivê-la. Uma triste história sobre solidão, assim como “Je ne parle pas français”, em que um jovem parisiense, supostamente escritor, conta sua história malfadada com um casal inglês.

“Prelúdio”, “Na Baía”, e “A Casa de Bonecas” compõem uma trilogia de contos ou noveletas baseadas na infância da autora na Nova Zelândia. Basicamente apresentam pequenos momentos familiares dos Fairfields: o casal Linda e Stanley Burnell, seus filhos, a mãe de Linda, a Sra. Fairfield, a irmã Beryl e os funcionários da casa. No primeiro acompanhamos a mudança deles da cidade para o campo. No segundo, um dos mais belos contos do livro, vemos o dia nascer e morrer na praia, quando a família está em alguma casa de veraneio. A narrativa guarda um tema que se repete: a vida das mulheres (e crianças) sem os homens, a liberdade feminina. E no último, o foco é nas crianças, o mundo infantil como espelho do mundo adulto: a revolução que causa a chegada de uma linda casa de bonecas para as meninas. Estes contos são marcados pelos problemas femininos da época que retrata, que não são tão diferentes dos de hoje: mulheres que têm filhos mas que não apreciam ser mães, mulheres que vivem a serviço de um “chefe de família”, mulheres que acreditam que só terão valor quando casarem.

O casamento, inclusive, também é tema em “Marriage à la mode” e “Conto de homem casado”. Ambos falam sobre máscaras na vida conjugal, e enquanto em um não sabemos o que é máscara e o que é verdadeiro, pois há uma personagem que acha mais importante alimentar sua vaidade que dar atenção ao marido que ama, em outro a máscara está bem clara, pois trata-se de um relato de alguém que vê muito claramente que seu casamento é apenas uma farsa. Infelizmente este conto é incompleto e assim como “A Mosca”, que conta da angústia de um pai que perdeu seu filho para a guerra, o leitor não tem como saber a que fim as histórias iriam chegar.

Por fim, um conto que já comentei aqui, “As filhas do falecido coronel”, que conta as reações de duas irmãs ao se depararem com a morte do pai, já que elas não sabem o que fazer com a liberdade conquistada. Assim como em vários outros contos da coletânea, o que mais percebemos é que aquilo que é mais importante nunca é dito, é sempre sugerido, subentendido. O essencial está sempre escondido nos pequenos gestos e Mansfield se mostra uma sábia ilusionista que mostra com uma mão enquanto esconde com a outra.

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Esta leitura faz parte do Projeto Para ler como um escritor e o Projeto Mulheres Modernistas. Também faz parte de uma discussão no Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

Um, dois e já – Inés Bortagaray

37_umdoisQuando eu era criança, sempre que voltávamos às aulas, as professoras solicitavam a famigerada redação contando as nossas férias. Geralmente eu nunca sabia o que contar e quando tentava tudo parecia muito sem graça, mesmo quando as férias tinham sido boas. Um, dois e já, da uruguaia Inés Bortagaray, poderia parecer uma redação sobre férias em família, já que a narradora é uma menina por volta de seus 10 anos, com suas frases curtas e ritmo particular, mas o livro tem o grande mérito de contar o momento que antecede as férias, uma longa viagem familiar de carro, tão típica das décadas de 70 e 80, que muitas vezes parecia que a autora estava contando um pouco da minha própria história.

Talvez seja por esse motivo que os personagens da família não têm nomes: eles poderiam ser qualquer pai ou mãe, qualquer irmão ou irmã. O relato parece ser feito para que toda uma geração se identifique: quatro irmãos dividindo o banco de trás, com direito a brigas e brincadeiras e a disputa pelos assentos com janela.

A narrativa se divide em vários pontos no tempo e no espaço, segundo o olhar da menina. Primeiro o seu olhar através da janela do carro, com a paisagem dando a impressão de se movimentar e a sensação de o carro estar parado. Depois o seu olhar para dentro do carro, com as lembranças e expectativas da família, os jogos de viagem, a música que toca, as distrações, as piadas contadas, as adivinhas, os enigmas. Sem esquecer as repetições compulsivas e supersticiosas para que nenhum acidente aconteça, bem como as fantasias e os sonhos que toda criança tem para que saiba lidar com o medo da morte. Aqui não temos, portanto, uma história propriamente dita, temos apenas a visão de mundo de uma menina, à medida que a vida passa diante de seus olhos, com idade suficiente para perceber-se e perceber os outros.

Acredito que é exatamente essa percepção tão apurada da narradora, que conta o pouco que acontece com tantos detalhes, que leva o leitor junto nesta viagem e o faz sentir o cheiro de vômito e de pijama dentro do carro. No momento em que a família vai tirar uma foto na beira da estrada, por exemplo, é possível visualizar muito bem cada movimento de cada membro da família e ficar imaginando a curiosidade de como saiu aquela foto até ela ser revelada. Talvez seja um livro específico para quem é nostálgico, para lembrar dos amigos de infância que foram embora e de que não tivemos mais notícias, ou dos bichinhos de estimação dos quais não soubemos tomar conta, mas pode ser que seja também para os filhos do meio, aqueles que sempre têm que lutar mais para conseguir seu lugar no mundo.

O Amante – Marguerite Duras

25_amanteA primeira coisa que compreendi quando comecei a ler O Amante, da francesa Marguerite Duras, é que não era simplesmente um relato sobre sua iniciação sexual aos 15 anos, como muitas vezes as sinopses nos contam. A bem da verdade, o caráter erótico da narrativa me pareceu ficar em segundo plano, diante das tragédias familiares da narradora, e o sexo aparece não apenas como elemento de prazer, mas também como um mecanismo de libertação da dor e da pobreza.

É bastante simbólico que o encontro entre essa menina de 15 anos e aquele que irá tornar-se seu amante – um rico chinês de 27 anos – se dê na travessia de um rio, o rio Mekong, na então Saigon do começo do século XX. A balsa a levará a outra margem, sua existência de criança ficará para trás e através dessa relação, que envolve também dinheiro, ela irá conquistar poder perante a mãe e os dois irmãos. Tudo sempre se volta para a mãe e os irmãos, especialmente a mãe, de quem a narradora fala com revolta, raiva, frustração, ciúme: ela demonstra como é possível odiar as pessoas que mais amamos e como isso nos deixa confusos e culpados. Mas ela irá experimentar o poder também sobre esse homem, que a ama desde o primeiro momento, e sua relação com ele é sofrida e desesperada porque não há possibilidade de futuro: cada encontro é intenso porque é uma despedida.

A imagem da menina na balsa, com seu vestido aproveitado da mãe, seus sapatos de lamê e um chapéu masculino, encontrando um homem rico numa limusine preta, é a imagem a que a narradora volta sempre, de forma que nada nessa história é contado linearmente: é como se ela apontasse detalhes de uma fotografia a cada momento que a vê, e em cada um deles uma nova lembrança surgisse. É um jogo com o tempo das memórias, que dá a sensação de alguém muito velho indo e voltando em seu relato, onde as memórias aparecem como elas se desenvolvem no pensamento, e não cronologicamente, e no fundo elas não passam de um quebra-cabeças desmontado, em que cada peça vai surgindo para que o leitor sinta as emoções no devido tempo. Os verbos no presente, em boa parte do livro, lhe dão um tom onírico, sugestivo e vago, e em algumas passagens podemos nos perguntar se é possível confiar nessas lembranças, mas isso é o que menos importa, pois o mais importante passou pela peneira fina da escritora e as imagens que ela constrói são pequenos relicários que guardam o essencial.

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Essa leitura faz parte do Projeto Mulheres Modernistas e será debatida no Fórum Entre Pontos e Vírgulas.