As avós – Doris Lessing

interlunio54-avosAs avós é uma novela de história simples, mas que carrega uma grande problemática moral. Roz e Lil são melhores amigas desde a infância e são tão ligadas uma à outra que todos as tratam como irmãs gêmeas. Tudo na vida fazem juntas, inclusive casar e engravidar. Apesar disso são diferentes, Lil é atleta, de humor mais sério e contida e Roz é leviana, extrovertida e trabalha com teatro. Moram na mesma rua, à beira-mar, e são muito felizes, apesar de indiferentes ao seus maridos. Uma se torna viúva e a outra se separa, o que as deixa ainda mais felizes, cuidando de seus dois lindos filhos, Tom e Ian, que se tornam também melhores amigos, como as mães. Até que cada menino, no início da juventude, torna-se amante da amiga da mãe, de uma forma que não causa desconforto a nenhum deles, pelo contrário, os quatro parecem mais felizes do que nunca, com seus almoços e banhos de mar, cada menino instalado na casa de sua amante correspondente.

Até que a vida lá fora chama e esses meninos, já homens, são questionados por aparentemente não terem vida afetiva. É a partir daí que haverá uma primeira quebra no universo dessa singular família. Interessante perceber como fica clara a atração dos garotos pelas mulheres, mas o contrário não é descrito com tanta ênfase (a adaptação cinematográfica parece ter uma abordagem bem diferente). Comentários sobre a sexualidade são restritos aos pensamentos deles, elas parecem mais preocupadas com a afetividade como um todo.

A novela tem um tom quase de fantasia, no sentido de trazer tantas situações coincidentes, tantos personagens espelhos um do outro: além de Roz e Lil, Tom e Ian, há ainda Mary e Hannah, futuras esposas deles, e as filhas, Alice e Shirley. Que importa a verossimilhança? Doris Lessing quer apenas contar uma história que cause reflexão e discussão, e consegue. As duas mulheres – interessante reparar que a autora escolheu denominá-las de avós, no título, talvez para salientar suas idades – têm uma forte ligação amorosa, mas sem sexo. No entanto passam a resolver isso através do filho uma da outra, que são de certa forma também espelhos de suas mães. Da mesma forma os meninos se relacionam com elas, espelhos uma da outra, o que poderia ser interpretado como uma forma de serem amantes das próprias mães. Tecnicamente são apenas homens e mulheres se relacionando sem nenhum parentesco, mas por que não parece tão simples assim? Talvez porque o conceito de família esteja muito mais ligado ao crescer junto do que aos laços de sangue. Cada leitor terá seu julgamento, mas o que importa é que As avós tem personagens marcantes, com imagens bem construídas e uma estilo narrativo bem singular, mesmo com um texto tão curto.

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Na praia – Ian McEwan

interlunio52-praiaNa Inglaterra de 1962, Edward e Florence são dois jovens apaixonados que acabaram de casar. Estão tendo uma refeição no hotel, à beira-mar e, ambos virgens, estão nervosos com o que irá se seguir. O que vai acontecer não será nada bom e porá em risco o relacionamento dos dois. À parte, na narrativa, haverá flashbacks de suas infâncias e adolescências e como chegaram a se conhecer. Também será contada a história dos pais: Edward de família pobre, com uma mãe deficiente mental, e Florence de família rica, com uma mãe fria e distante.

Uma das coisas que percebi logo de início nessa leitura foi como o autor parece não ter tido o mesmo cuidado com sua narrativa, comparando com os outros livros dele que já tive oportunidade de ler. A história principal, o momento do casal na praia, daria um um bom conto isolado, mas o contexto sócio-cultural do início dos anos 60 e a vida dos pais de Edward e Florence parecem muito mal costurados e não me convenceram como justificativa ou como um bom pano de fundo para o que ocorre com eles, pelo menos não da forma como ele conduziu.

A ladainha do fim do Imperialismo Britânico, a psicanálise de enciclopédia e a desculpa de que esses jovens eram contidos porque a libertação sexual ainda não havia acontecido é um refrão que repete-se o tempo inteiro enquanto, na praia, temos apenas duas pessoas ingênuas que casaram sem se conhecer direito. Um mérito dou para Ian McEwan: Na praia tem um final muito bonito, e um conto mais lapidado teria um resultado melhor que um romance mal-ajambrado.

Obrigado, Jeeves – P. G. Wodehouse

interlunio51-jeevesObrigado, Jeeves faz parte de uma série de histórias do inglês P. G. Wodehouse com os personagens Bertram Wooster e seu mordomo Jeeves. Apesar dessa não ser a primeira história da dupla – há algumas histórias anteriores publicadas em revistas – é o primeiro romance com eles e foi publicado em 1934. Aqui Wooster se envolve com o possível casamento de seu amigo Chuffy e sua ex-noiva Pauline, atuando como um cupido extremamente atrapalhado.

A história começa com um impasse: Wooster gosta de praticar banjolele em seu apartamento em Londres, mas a vizinhança não está nem um pouco contente com isso e, para a surpresa dele, nem o pobre Jeeves aguenta mais o barulho. O mordomo pede demissão e, para poder tocar em paz o instrumento, Wooster vai morar por uns tempos num chalé da propriedade de seu amigo Chuffy. Essa propriedade será o cenário de todas as situações que se seguem pois Jeeves irá trabalhar para Chuffy, Pauline estará com o pai em um iate na costa do lugar e seu inimigo Glossop estará envolvido na venda da mansão de Chuffy, que precisa desesperadamente de dinheiro para pedir Pauline em casamento.

Mesmo não sendo mais seu criado, Jeeves continua seu amigo e o salva das mais estranhas situações, pois o pai de Pauline pensa que ela ainda gosta de Wooster e acredita que os dois andam se encontrando escondido. Na verdade Pauline e Chuffy é que estão apaixonados, mas uma série de mal-entendidos vão separar o casal e sobra para Bertie e Jeeves resolver o problema de todo mundo.

Trata-se, portanto, de uma típica comédia de costumes, cheia de mal-entendidos, amores impossíveis e disputas por dinheiro. É um retrato da decadência da aristocracia britânica, repleto de situações cômicas, inclusive situações físicas, que mostram que a dignidade cabe apenas ao bondoso e brilhante mordomo Jeeves, que está sempre resolvendo os problemas de seus senhores, esbanjando sabedoria e cultura.

O que é mais impressionante no livro – apesar de possuir uma história um tanto previsível – é como o autor, especialmente ao se aproximar do final, consegue costurar tudo e ligar todos os pontos da história, de forma que todos os elementos apresentados, personagens e situações, tenham um grande valor e sejam muito bem aproveitados. O leitor até sabe o que vai acontecer, mas o como acontece rende boas risadas.

Mary Poppins – P. L. Travers [Breve comentário]

interlunio39-maryUm já clássico moderno nas histórias infantis, Mary Poppins é a babá que chega na família Banks para trazer um pouco de magia à vida de suas crianças, tão negligenciadas pelos pais. Mary é uma protagonista curiosa, já que não foi feita exatamente para agradar o leitor. Vaidosa, ela parece ser egocêntrica, mas sempre é prestativa com problemas alheios, se ela os considera sérios. Ela serve mais como um canal para um mundo mágico, um símbolo do escapismo infantil diante da indiferença dos pais.

Através de cenas fantásticas, pessoas que flutuam, conversas com animais e uma festa de aniversário pra lá de excêntrica, Mary enreda uma aventura atrás da outra, contanto que não se faça muitas perguntas! A personagem pode parecer meio ríspida, mas ela não teria seu charme se fosse o estereótipo da babá água-com-açúcar, e ela parece muito doce naquela que foi minha cena favorita: quando entra com seu namorado em uma tela que ele pintou. Além disso, as crianças são ótimos personagens, especialmente Jane, que parece ter tudo para dar a atenção devida aos irmãos quando Mary se for. O livro me agradou bastante, com exceção de um ou outro capítulo que me pareceu dispensável.

A Guerra dos Mundos – H. G. Wells

interlunio31-guerraÉ impressionante ler este livro do britânico H. G. Wells, lançado em 1898, e constatar como ele serve de base, direta ou indiretamente, para histórias de catástrofes, mundos pós-apocalípticos e invasões alienígenas até hoje.

A Guerra dos Mundos é uma grande especulação de como seria se seres vivos de outro planeta, superiores aos terráqueos em inteligência e tecnologia, pudessem nos observar e nos invadir, com o intuito de tomar nosso mundo.

Neste caso o planeta seria Marte, que aqui estaria envelhecendo e obrigando seus habitantes a procurar um novo lar. A Terra seria um bom substituto para os marcianos e eles iniciam uma invasão de início tímida, e em seguida, destruidora.

O narrador constrói uma grande tensão, anunciando as tragédias que se seguirão à chegada dos marcianos ao mesmo tempo que nos relata cada momento por que passa, entre medo, pavor e especulações científicas e filosóficas. A história é contada do ponto de vista dele, no interior da Inglaterra, e do ponto de vista do seu irmão, em Londres.

A grande reflexão da obra é sobre o abuso de poder de seres dominantes: Wells faz o leitor pensar sobre a maneira como tratamos os outros animais e até mesmo nossos semelhantes sobre os quais temos domínio. Que argumento relativo à sobrevivência nós teríamos se houvesse uma espécie mais desenvolvida intelectualmente que a nossa, e com mais recursos tecnológicos? Como nos sentiríamos se passássemos a ser alimento para uma espécie superior? Diante dos marcianos os humanos são, durante todo o livro, sempre comparados a pequenos animais – insetos, coelhos, ratos –, facilmente controlados.

“Naquele momento senti uma emoção incomum à experiência humana, mas que as pobres criaturas que dominamos conhecem muito bem. Senti-me como um coelho que, ao voltar para sua toca, encontra uma dúzia de operários cavando os alicerces de uma casa. Percebi a primeira insinuação de algo que logo se tornou claro em minha mente, e que me oprimiu durante muitos dias – uma sensação de destronamento, a convicção de que já não era o mestre, mas um animal entre outros, sob o tacão dos marcianos. Daí em diante, como os animais, nós espreitaríamos, fugiríamos, buscaríamos esconderijos. O terrível império humano caíra.”

O narrador fica a maior parte do tempo sozinho e interage de verdade apenas com dois personagens-ideias: um padre e um artilheiro. O primeiro é o típico homem contraditório ao seus princípios, cheio de medo e desesperança. O segundo revela-se um homem prático e frio, aquele que se adequaria ao novo mundo, ainda que com uma moral duvidosa. Eles servem de contraponto ao narrador, aquele que tenta encontrar um equilíbrio diante de tanta tragédia, que busca tão somente a sobrevivência e o encontro com os seus.

A narrativa tem um ritmo tenso de ação na maior parte do tempo, o que a deixa um tanto cansativa. O autor traz poucos diálogos e momentos mais reflexivos, deixando-os mais para o final do livro. Comparando com outros livros do autor, como A Máquina do Tempo e A Ilha do Dr. Moreau, as especulações e reflexões não foram tão desenvolvidas, e o ritmo de fuga do narrador, correndo para lá e para cá, bem que justifica a escolha de Tom Cruise – conhecido por estar sempre correndo nos filmes – em seu papel na adaptação cinematográfica mais atual da obra. Ainda assim trata-se de uma boa leitura, que impressiona pela grande imaginação de Wells, sua criação de referências e sua preocupação com os grandes desafios da humanidade moderna.

“Todo nosso trabalho desfeito, todo o trabalho… O que são esses marcianos?
– O que somos nós? – respondi, limpando a garganta.”

O mensageiro – L. P. Hartley

interlunio26-mensageiroDurante a leitura de O Mensageiro, do inglês L. P. Hartley, três livros que li nos últimos anos me vieram à memória: Reparação, de Ian McEwan; Ciranda de Pedra, de Lygia Fagundes Telles; e O Sentido de um Fim, de Julian Barnes. Este último apenas pela proposta de fazer uma reflexão sobre a veracidade das nossas lembranças. Em ambos os livros os narradores, já com mais de 60 anos, ao rememorarem um momento crucial de seu passado, percebem que, ao longo do tempo, o que ficam são as emoções, as sensações que tivemos, que os fatos pouco importam, se não procurarmos por eles. No entanto, enquanto na obra de Barnes essa é uma questão levada até às últimas consequências, na de Hartley ela é apenas uma promessa inicial, levada de uma maneira bem sutil para quem estiver mais atento.

Leo Colston é um garoto de 12 anos que vai passar o verão na mansão Brandham, a casa de campo de seu rico colega de escola. O ano é 1900, e logo ele fará aniversário. Apesar de se sentir deslocado diante da família Maudsley, por sua condição social superior, Leo está empolgado com o local e as pessoas, que parecem tão perfeitas e mais interessantes que ele. Sobretudo Marian, por quem sente uma verdadeira adoração, uma jovem que está sempre preocupada em agradá-lo, ainda que com segundas intenções. Sua falta de jeito com as convenções da casa, suas roupas impróprias ao clima e ao ambiente, e as indiretas que recebe da família durante as refeições me lembraram de Virgínia, a heroína de Ciranda de Pedra. Assim como ela e tantos outros personagens de romances de formação, Leo quer fazer parte de um mundo que não é seu e as feridas que ficarão dessa desilusão juvenil vão ficar presentes para sempre.

Assim como Virgínia, Leo me lembrou Briony, de Reparação. Com muito mais inocência que ela, Leo também se envolve na vida de um casal e as consequências não são boas. Ele serve de mensageiro entre Marian, que possivelmente irá casar com um lorde, e Ted, um homem rude que trabalha como fazendeiro nos arredores da mansão. Inicialmente ele está feliz por agradar sua venerada Marian e não entende porque eles trocam cartas secretas, mas aos poucos ele vai descobrindo pistas sobre o que significa romance, sexo e falsidade. Leo se vê importante em seu papel de Mercúrio, como é chamado por um personagem, mas aos poucos, à medida que vai entendendo melhor o quanto isso afetará a vida de outras pessoas, se sente encurralado por encantadoras chantagens, às quais não consegue dizer não.

A inocência de Leo é comovente, afinal estamos falando de uma criança do começo do século XX, quando a infância era apenas um momento virtual, uma espécie de purgatório em que se espera chegar a um suposto paraíso, que seria o mundo adulto. Além disso, ele está em uma idade em que já não é mais tão criança, mas a maturidade ainda está muito longe. Quando Leo, já aos 60 e poucos anos, abre seu diário da época e relembra tudo que houve, tudo que por sua vida inteira tentou esquecer, ele se depara com a triste constatação de que algumas manchas não se apagam, e nesse sentido ele se compara ao próprio século XX, um século que já em sua metade se encontrava cheio de marcas, medos e culpas:

“— O século XX — perguntaria eu — fez muito melhor do que eu fiz? Quando você deixa esta sala, que eu admito ser estúpida e desanimada, e toma o último ônibus para sua casa no passado (se você não o perdeu), pergunte a si mesmo se achou tudo tão radiante quanto imaginou. Pergunte a si mesmo se ele cumpriu suas esperanças. Você foi derrotado, Colston, você foi derrotado, assim como o seu século, seu precioso século do qual você esperou tanto.”

Sobre a adaptação cinematográfica:
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O filme O Mensageiro, de 1971, dirigido por Joseph Losey, é uma adaptação extremamente fiel ao livro de Hartley, com ótimas atuações, tendo levado a Palma de Ouro em Cannes. Apesar de Julie Christie, então com 30 anos, ser muito velha para o papel de uma mocinha de no máximo 20 anos, ela consegue passar o espírito de Marian. Obviamente o que se perde aqui são as reflexões do narrador sobre tudo que acontece com ele, as considerações sobre memória, as consequências do trauma que ele sofre e o paralelo de sua vida com o século XX, mas fica clara a questão da perda da inocência e a dolorosa volta ao passado para fechar o que ficou suspenso.

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Esta leitura faz parte do Projeto Para ler como um escritor.

Um punhado de pó – Evelyn Waugh

interlunio12-handfulEm Um punhado de pó entramos em contato com o cotidiano de uma família inglesa nos anos 30, cuja casa, reformada de uma abadia gótica, representa tudo de mais precioso ao seu dono, Tony Last: tradição e valores da aristocracia britânica. Apesar das infinitas reformas e dos inúmeros criados tomarem todo o seu dinheiro, Tony não abre mão de suas lembranças e herança familiares. Quem não concorda com a situação é sua esposa Brenda, que depois de 8 anos vivendo no campo, numa casa que julga inútil, resolve se lançar a uma vida mais agitada em Londres, com direito a um amante e novos amigos.

Quando Tony finalmente descobre a traição e uma tragédia ocorre na família, um processo de divórcio é iniciado e aqui fica ainda mais claro o quão irônico é o autor, especialmente na fala de Brenda, que a todo instante disfarça seus erros colocando a culpa em Tony por tudo que lhe acontece. O egocentrismo de Brenda e de seu amante Beaver é tão absurdo que pode render boas risadas ao leitor.

É então que começa uma segunda parte do livro totalmente diferente da primeira. Tony faz uma viagem ao norte do Brasil acompanhando um explorador em busca de uma cidade perdida. O tom da história agora é outro, pois entre índios e uma selva desconhecida, o personagem precisa se preocupar apenas com a própria sobrevivência. Mas será que a distância fará com que esqueça Brenda? A situação-limite fará com que Tony demonstre alguma emoção, depois de tantos infortúnios aos quais sempre parece indiferente?

Esta parte do livro causa um certo desconforto, pois é uma grande quebra na coerência interna da narrativa. Apesar de estar passando por uma situação dolorosa, é difícil acreditar que Tony, um cavalheiro inglês acostumado a uma rotina em que o chá não pode deixar de ser servido na hora certa, tenha a disposição de adentrar a floresta amazônica em busca de uma ilusão. No entanto não há dúvida de que este momento é o mais envolvente da história e que dá aspectos originais a obra.

Com um final impactante, a despeito do resto da narrativa, que é geralmente arrastada e lenta, Um punhado de pó deixa uma impressão marcante no leitor, ainda que seus personagens não sejam nem de longe apaixonantes. Estão todos representando um papel voltado às convenções sociais, e a hipocrisia é a lei que rege esse mundo. Como se fosse um Fitzgerald inglês, Waugh faz uma crítica constante ao exagero dos prazeres, do dinheiro e das aparências: a mentira é valiosa, pois ela evita o grande monstro do constrangimento social.

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Esta leitura faz parte do Projeto 100 melhores romances segundo a revista Time.

Mrs. Dalloway – Virginia Woolf

interlunio03dallowayPublicado em 1925, Mrs. Dalloway é um curto romance que descreve um dia na vida de seus personagens, na cidade de Londres, em algum mês de junho após a Primeira Guerra. Apesar de se passar em apenas um dia, o leitor tem a nítida visão da vida inteira destes personagens, pois ele acompanha suas ponderações mais íntimas, suas questões mais profundas. Com muito poucos diálogos e bastante uso do chamado fluxo de consciência, temos a impressão de que os personagens estão isolados, pois a interação se dá muito mais por lembranças e assim o mundo interior prevalece.

Clarissa Dalloway é uma mulher casada, de meia idade, que está organizando uma festa. Apesar de sua privilegiada situação financeira, ela tem a característica de procurar resolver seus próprios pequenos problemas. A frase inicial do romance, “Mrs. Dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores” já dá uma pista tanto de sua preocupação em tomar para si os problemas, como também da busca por viver a vida de forma direta: ela quer ter o poder de ser responsável pela beleza de sua festa.

O início do livro descreve a vida nas ruas, a alegria de um dia que começa, os barulhos e os cheiros da cidade, as pessoas apressadas que passam, o fluxo da vida moderna do começo do século XX. Como um poema de Álvaro de Campos, podemos escutar o barulho dos carros e o roçar de pessoas se movimentando entre si. Os cortes sutis – ou a falta deles –, lembram os planos-sequência do cinema: a narrativa sai do mundo interior de um personagem e passa a de outro quase sem o leitor perceber, dando a impressão de que tudo parece conectado, um personagem afetando o outro, mesmo que alguns nem se conheçam. Temos então tanto esse ruído das ruas, com pessoas anônimas envoltas em suas questões, quanto o ruído interno dos pensamentos de Clarissa e dos demais personagens.

“Elas amam a vida. Nos olhos das pessoas, em seus passos gingados, cadenciados, arrastados; no alarido e no tumulto; nas carruagens, nos automóveis, nos ônibus, nos furgões, nos homens-sanduíche que avançavam oscilantes; nas bandas de música; nos realejos; no triunfo e no repique, e no estranho zumbido de um aeroplano no alto, era bem isso o que ela amava; a vida; Londres; esse momento de junho.”

O passeio de Clarissa pelas ruas de Londres apresenta todos os personagens principais e tudo que representam pra ela: seu marido Richard, sua filha Elizabeth, a professora de Elizabeth, Doris Kilman, seu ex-noivo Peter Walsh e sua amiga Sally Seton, e finalmente Septimus e Lucrezia, que não a conhecem mas compartilham com ela uma cena na rua. As flores e a bela manhã em Londres a fazem lembrar de sua juventude e não apenas suas lembranças como propriamente duas figuras da época surgem, e que aparecem sem serem necessariamente convidadas para a festa, levando-a ao passado: seu ex-noivo Peter Walsh e sua amiga Sally Seton.

Esse retorno, os preparativos para a festa, o confronto com a idade em que a vida já se resolveu e não há mais novos projetos, a aparente futilidade da vida privilegiada, tudo deixa Clarissa ansiosa pois ela não consegue justificar seu cotidiano. No entanto ela se revela apenas alguém que quer celebrar a vida e acima de tudo fugir da morte e da solidão, e não ver a velha vizinha na janela como um espelho de seu futuro.

“‘É por isso que dou essas festas’, disse, em voz alta, à vida.”

Do outro lado da moeda temos Septimus, que é um homem que lutou na Primeira Guerra e sofre com ataques de pânico, manifestando também algum tipo de problema mental. Essa dualidade entre Clarissa, que ama e procura celebrar a vida, e Septimus, que perdeu a perspectiva de sentido e não vê mais graça na existência, trespassa toda a narrativa, mas eles encontram pontos em comum, pois acreditam que a vida tem uma medida e é com ela que se conclui quem é que cabe ou não nela. A vida vale a pena? Segundo eles, a vida por si só não basta, ela só vale a pena em certos termos.

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Esta leitura faz parte do Projeto Mulheres Modernistas e de uma discussão no Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

Tom Jones – Henry Fielding

21_tomjonesEncerrando um pequeno projeto de ler os principais romances ingleses setecentistas tratados por Ian Watt em seu livro A Ascensão do Romance, finalmente terminei a leitura de Tom Jones, de Henry Fielding, publicado em 1749: a história de um rapaz abandonado pela mãe quando bebê e criado por um bondoso fidalgo.

Jones é apaixonado pela bela e rica Sofia, mas devido a sua origem moralmente inaceitável, sofre por saber que não pode casar-se com ela, ainda que ela também o ame. Muito atraente às mulheres e agradável com todos, Jones desperta a inveja de Blifil, sobrinho do fidalgo Allworthy, que os cria como irmãos. E por uma série de artimanhas de Blifil, Jones acaba sendo expulso de casa e tendo que seguir seu caminho sozinho: em grande parte do livro temos então uma história de estrada, onde a cada paragem há uma aventura de Tom Jones com novos personagens.

Apesar de constituir uma espécie de herói perdido em busca de seu lugar na vida, de saber quem é seu pai e de encontrar uma maneira de ficar com Sofia, Jones traz muitas características de um malandro sedutor, envolvendo-se com outras mulheres e até se aproveitando de algumas situações com elas para sobreviver. Mas o seu lado proeminente é o de apaziguador, apagando incêndios, resolvendo desavenças, salvando mulheres de vilões, enfim, resolvendo questões alheias e deixando amizades por onde passa.

Considerado por alguns estudiosos como um dos primeiros romances, Tom Jones também pode ser visto como uma espécie de novela picaresca, em que vários episódios ocorrem com esse herói um tanto anti-herói, sem que haja grandes mudanças ou desenvolvimento dos personagens: o entretenimento, o humor satírico, a ação e seus propósitos moralizantes (não necessariamente moralistas) se sobressaem. O gênero do livro pode ser, portanto, difícil de definir, já que Fielding queria inaugurar novas regras de como contar uma história. Não à toa ele interrompe a narrativa o tempo inteiro para demarcar suas regras:

“Como sou, em realidade, o fundador de uma nova província do escrever, posso ditar-lhe livremente as leis que me aprouverem.”

Essa conversa constante com o leitor, não só para delimitar sua técnica, como para divagar acerca dos acontecimentos do livro, e também para discutir assuntos aleatórios, fazendo referências literárias e filosóficas adornadas com citações em latim, pode ser algo bem incômodo, especialmente em um calhamaço de mais de 800 páginas. Contudo, os capítulos são curtos, com títulos que antecipam o que vai acontecer, e o leitor é aquele a quem o autor dá sempre uma piscadela de olhos, um cúmplice a rir de vários personagens secundários, com suas conjecturas absurdas ou equivocadas. No geral é um clássico simples e divertido de ler, principalmente por conter muita ação e por abusar de ironia e sarcasmo com a sociedade de seu tempo.