As Irmãs Makioka – Jun’ichiro Tanizaki [Fórum Entre Pontos e Vírgulas Jan/2013]

01_makiokaOs momentos intermediários sempre me intrigam por terem essa característica de abrigar o passado e preparar para o novo, deixando as coisas meio indefinidas. É um momento assim que Tanizaki retrata naquela que é considerada sua obra mais importante: As Irmãs Makioka. O livro revela um detalhado cotidiano de uma família japonesa no final dos anos 30, dividida entre a sobrevivência de valores tradicionais e a inevitável influência do Ocidente. Em um relato constituído por diversos episódios por que a família passa, bem como por cartas e poemas, vamos assistindo às pequenas histórias vividas por Sachiko e suas irmãs Tsuruko, Yukiko e Taeko.

Sachiko é a segunda irmã e vive um casamento feliz com Teinosuke em Ashiya, numa região do Japão mais tradicional. Moram com eles as irmãs mais jovens e solteiras, Yukiko e Taeko, quebrando uma obrigação social de morarem com a irmã mais velha, Tsuruko, mais rígida e com um marido intransigente. Esta, inclusive, não tem muita participação no livro e praticamente toma o lugar de uma figura materna, distante das demais irmãs.

As situações que vivem são geralmente comuns: refeições em casa, encontros sociais, idas ao teatro, algumas viagens. As regras sociais são, muitas vezes, mais importantes que o conforto, a saúde ou a felicidade das pessoas pois existe uma grande preocupação com o que a sociedade vai pensar e comentar, mesmo que a família Makioka já carregue o signo de decadente. As conversas estão quase sempre relacionadas ao destino de Yukiko e Taeko, uma porque não consegue arranjar um marido adequado, a outra por sua rebeldia e tendências feministas.

Yukiko é retraída e calada, com uma personalidade feminina e submissa, sempre seguindo os caminhos impostos pela família. É uma figura marcada – inclusive literalmente por uma mancha no rosto – pois apesar de sua beleza, seus talentos e seu nome, a má sorte a acompanha no que diz respeito a arranjar um marido adequado. Com sua idade já avançando e uma irmã com má reputação na sociedade, seus pretendentes não são as melhores escolhas. Já Taeko é moderna, trabalha, usa apenas roupas ocidentais e tem vida amorosa ativa, esperando apenas que Yukiko case para que também possa casar, ainda que seu interesse maior seja ter uma carreira e seu próprio dinheiro.

As duas irmãs simbolizam no livro duas facetas do país: o Japão das tradições e cultura antiga e o dos valores modernos e ocidentais. O nome de Yukiko tem, inclusive, relação com o título original do livro, Sasameyuki, que significa “neve fina”, a última neve a cair no inverno, dando à personagem o caráter de manifestar os últimos sopros do Japão antigo decadente.

O livro inteiro tem esse clima de decadência e uma certa melancolia das despedidas. Assistir à queda das flores de cerejeira, por exemplo, é um ritual das irmãs que gera felicidade e angústia diante das mudanças inevitáveis da vida, como mostra esse poema escrito por Sachiko:

(Vendo a chuva de pétalas en Heianjingu)
Quisera guardar
Numa dobra do quimono
As flores caídas
Em relutante adeus
À primavera perdida.

Apesar de Yukiko e Taeko constituírem esse grande embate do livro entre antigo e moderno, valores orientais e ocidentais, Sachiko é quem domina a perspectiva da narrativa: só consegui identificar um momento em que temos acesso ao pensamento de outra personagem, no caso Yukiko. No geral é o olhar de Sachiko que acompanhamos e ela acabou sendo a minha preferida das irmãs, mesmo quando eu não concordava com algumas de suas atitudes.

É um livro contemplativo, para quem aprecia momentos singelos entre família e amigos ou situações corriqueiras em geral, na procura do que é especial nas coisas simples. Com apenas dois ou três episódios com mais ação, o livro também dispensa uma reflexão sobre as guerras nas quais o Japão estava envolvido, que parecem não afetar muito as personagens, o que foi decisivo para que ele fosse censurado na época de publicação.

Sobre a adaptação cinematográfica (com spoilers):
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A minha curiosidade com o filme de 1983 foi basicamente para conferir a produção, o figurino e as paisagens japonesas. É uma adaptação interessante, que encontrou soluções boas para resumir um livro tão extenso e até atribuiu uma importância significativa à personagem Tsuruko, ainda que aqui ela seja uma personagem completamente diferente do livro. No entanto, foi justamente essa descaracterização de algumas personagens que não me agradou. Yukiko se apresenta como uma jovem sensual e dissimulada, e Teinosuke, que no livro forma um lindo casal com Sachiko e vê suas irmãs meramente como filhas, revela-se aqui apaixonado por Yukiko, escolha que acaba substituindo os problemas familiares por uma intriga amorosa e leva a história, portanto, para outro caminho.

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Dois náufragos e seus felinos

Abstraindo toda a polêmica que envolve estes dois livros, já bastante discutida sempre que se fala de um ou outro, segue um breve comentário sobre Max e os Felinos e a A Vida de Pi apenas como um registro de leitura, movida esta, confesso, pela curiosidade em assistir ao novo filme de Ang Lee.

63_maxfelinosMax e os Felinos – Moacyr Scliar

Nesta pequena novela de Scliar, o autor nos apresenta a Max, um menino alemão de 9 anos muito sensível, que tem como símbolo do medo que sente do pai a figura de um tigre de bengala empalhado, que serve de adorno para a loja de peles da família. No decorrer da narrativa, este é apenas o primeiro de três grandes felinos que Max irá enfrentar ao longo de sua vida e todos eles exacerbam o sentimento de impotência do indivíduo perante a um poder superior.

Já adulto, Max irá se confrontar com o felino mais emblemático do livro: o jaguar que viaja com ele num escaler depois de sofrer um naufrágio a caminho do Brasil. Sem a opção de fugir e sem a força para enfrentá-lo, o que lhe resta é alimentar a fera e conviver com a constante ameaça de ele próprio acabar servindo de alimento. Sem dúvida o seu relacionamento com o jaguar durante a travessia no mar é a parte mais envolvente da história contada por Scliar. Depois desse ponto os acontecimentos parecem tomar um aspecto de epílogo e Max se torna um personagem um tanto diferente.

Confesso que tanto neste livro quanto em A mulher que escreveu a Bíblia, me incomodou um pouco certas situações ou pensamentos absurdos na narrativa. Não por serem em si absurdos, mas por destoarem um pouco dos próprios elementos apresentados pelo autor, contradizendo a lógica interna do livro. Talvez isso seja uma característica do Scliar e dá para notar que seu texto é bem despretensioso: ele parece querer contar a história tal qual a imaginou, sem refiná-la muito. Sem ter essa impressão talvez eu tivesse apreciado mais a história.

64_vidapiA Vida de Pi – Yann Martel

Também dividido em três partes, o romance de Martel conta a história do menino Pi, um indiano que se divide em 3 religiões porque busca encontrar Deus de todas as formas possíveis, e que no início de sua vida adulta sofre um naufrágio no Pacífico a caminho do Canadá.

Assim como Max, ele terá um grande felino por companhia em seu bote: um tigre de bengala. Mesmo com sua experiência com animais, já que é filho de um dono de zoológico, o desafio aqui se apresenta bem maior e a sua luta fica mais evidente pela riqueza de detalhes apresentada pelo autor, mostrando Pi com uma personalidade perseverante, capaz de qualquer coisa pela sua sobrevivência.

Enquanto o felino de Max denota opressão, o de Pi representa o limite entre a morte e a vida, onde essas duas realidades se tocam e passam a ser quase a mesma coisa, pois o tigre o ameaça e o preserva. O que é estranho é que, considerando que o personagem apresenta no início do livro várias reflexões espirituais, mesmo diante de sua situação extrema essas reflexões praticamente desaparecem e a sobrevivência se torna o único assunto – algo que de certa forma pode ser explicado no final do livro, mas que ainda assim causa estranhamento ao leitor.

Apesar do livro ser envolvente e bem escrito, o tipo de escrita e soluções de Martel, que é algo mais comercial, de best seller, é algo que me deixa desconfortável e me desagrada muito (senti a mesma coisa, em maior escala, quando li A Pequena Abelha, de Chris Cleave). No Cinema eu até tolero mais, mas na Literatura, dificilmente. Sendo o filme muito fiel, acho mais interessante ficar na versão cinematográfica, com seus belos efeitos visuais.

Duas novelas chilenas

Uma das recentes modas literárias são os chamados romances curtos, mais precisamente novelas, pela sua estrutura. Tenho um certo embate com novelas (e com contos também) porque elas dificilmente alcançam a profundidade de um romance ou mesmo não dão tempo para que os personagens se arredondem, tomem corpo. Ainda assim podem ser ótimas leituras, como estes dois exemplos de autores chilenos contemporâneos.

61_contadoraA Contadora de Filmes – Hernán Rivera Letelier

“Como em casa o dinheiro andava a cavalo e a gente andava a pé, quando chegava um filme no acampamento da Mina e meu pai – só pelo nome do ator ou da atriz principal – achava que parecia ser bom, as moedas eram juntadas uma a uma, o preço exato da entrada, e me mandavam assistir.
Depois, ao voltar do cinema, eu tinha de contar o filme para a família inteira reunida na sala.”

Esse é o primeiro capítulo do livro e resume bem como começa a vida da menina Maria Margarita enquanto contadora de filmes num pequeno povoado no Chile, no final dos anos 50. Morando com seu pai inválido, abandonado pela mulher, e os 4 irmãos mais velhos, Maria tem em comum com a mãe a atitude de nunca se conformar com nada e o enorme amor pelo cinema. Ela leva tão a sério suas interpretações que acaba atraindo todas as pessoas do povoado na hora em que se apresenta e encontra a partir daí uma fonte de renda para a família, ganhando até um nome artístico: Fada Docine.

Se a primeira parte da história é até divertida, do meio pro fim ela vai ficando mais triste e interna. À medida que Maria vai amadurecendo e descobrindo o mundo, e o mundo vai apresentando novidades, como a televisão, a menina que tem medo dos dias nublados vai perdendo não só sua clientela como outras coisas mais importantes da vida. Apesar da personagem ser muito genuína, o caráter curto do livro nos deixa com a sensação de que poderia haver mais desenvolvimento, mas ainda assim o livro é tocante, com um final muito belo.

Existe um projeto do Walter Salles para que ele se torne filme e espero ansiosa por ver o deserto do Atacama nas telas.

62_bonsai2Bonsai – Alejandro Zambra
Esta pequeníssima novela começa, digamos assim, pelo fim, e se desenvolve como se fosse contada um pouco de trás para frente, da direita para a esquerda, deixando quaisquer ansiedades do leitor mais ou menos resolvidas:

“No final ela morre e ele fica sozinho.”

Ainda assim queremos saber os comos e os porquês e eles têm muita relação com a Literatura, que integra a vida do casal chileno Julio e Emilia, a ponto de interferir até em sua vida sexual. É um livro que fala de outros livros e fala de si mesmo: o personagem Julio inclusive escreve um romance chamado Bonsai. Não me envolvi muito com a história do casal, mas o livro traz muito boas considerações sobre relacionamentos. Para mim, o mais envolvente na obra foi mesmo a escrita de Zambra, que dá muito prazer em ser lida.

A adaptação para o cinema, pelo diretor Cristián Jiménez, é bem delicada e lenta, dá inclusive para se envolver bem mais com os personagens. No entanto, sendo baseado em um livro tão pequeno, dá a sensação de que o filme poderia ser mais curto, o que o torna um pouco monótono para quem já conhece a história. Ainda assim é um filme muito bonito, que eu recomendaria.

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