Mrs. Dalloway – Virginia Woolf

interlunio03dallowayPublicado em 1925, Mrs. Dalloway é um curto romance que descreve um dia na vida de seus personagens, na cidade de Londres, em algum mês de junho após a Primeira Guerra. Apesar de se passar em apenas um dia, o leitor tem a nítida visão da vida inteira destes personagens, pois ele acompanha suas ponderações mais íntimas, suas questões mais profundas. Com muito poucos diálogos e bastante uso do chamado fluxo de consciência, temos a impressão de que os personagens estão isolados, pois a interação se dá muito mais por lembranças e assim o mundo interior prevalece.

Clarissa Dalloway é uma mulher casada, de meia idade, que está organizando uma festa. Apesar de sua privilegiada situação financeira, ela tem a característica de procurar resolver seus próprios pequenos problemas. A frase inicial do romance, “Mrs. Dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores” já dá uma pista tanto de sua preocupação em tomar para si os problemas, como também da busca por viver a vida de forma direta: ela quer ter o poder de ser responsável pela beleza de sua festa.

O início do livro descreve a vida nas ruas, a alegria de um dia que começa, os barulhos e os cheiros da cidade, as pessoas apressadas que passam, o fluxo da vida moderna do começo do século XX. Como um poema de Álvaro de Campos, podemos escutar o barulho dos carros e o roçar de pessoas se movimentando entre si. Os cortes sutis – ou a falta deles –, lembram os planos-sequência do cinema: a narrativa sai do mundo interior de um personagem e passa a de outro quase sem o leitor perceber, dando a impressão de que tudo parece conectado, um personagem afetando o outro, mesmo que alguns nem se conheçam. Temos então tanto esse ruído das ruas, com pessoas anônimas envoltas em suas questões, quanto o ruído interno dos pensamentos de Clarissa e dos demais personagens.

“Elas amam a vida. Nos olhos das pessoas, em seus passos gingados, cadenciados, arrastados; no alarido e no tumulto; nas carruagens, nos automóveis, nos ônibus, nos furgões, nos homens-sanduíche que avançavam oscilantes; nas bandas de música; nos realejos; no triunfo e no repique, e no estranho zumbido de um aeroplano no alto, era bem isso o que ela amava; a vida; Londres; esse momento de junho.”

O passeio de Clarissa pelas ruas de Londres apresenta todos os personagens principais e tudo que representam pra ela: seu marido Richard, sua filha Elizabeth, a professora de Elizabeth, Doris Kilman, seu ex-noivo Peter Walsh e sua amiga Sally Seton, e finalmente Septimus e Lucrezia, que não a conhecem mas compartilham com ela uma cena na rua. As flores e a bela manhã em Londres a fazem lembrar de sua juventude e não apenas suas lembranças como propriamente duas figuras da época surgem, e que aparecem sem serem necessariamente convidadas para a festa, levando-a ao passado: seu ex-noivo Peter Walsh e sua amiga Sally Seton.

Esse retorno, os preparativos para a festa, o confronto com a idade em que a vida já se resolveu e não há mais novos projetos, a aparente futilidade da vida privilegiada, tudo deixa Clarissa ansiosa pois ela não consegue justificar seu cotidiano. No entanto ela se revela apenas alguém que quer celebrar a vida e acima de tudo fugir da morte e da solidão, e não ver a velha vizinha na janela como um espelho de seu futuro.

“‘É por isso que dou essas festas’, disse, em voz alta, à vida.”

Do outro lado da moeda temos Septimus, que é um homem que lutou na Primeira Guerra e sofre com ataques de pânico, manifestando também algum tipo de problema mental. Essa dualidade entre Clarissa, que ama e procura celebrar a vida, e Septimus, que perdeu a perspectiva de sentido e não vê mais graça na existência, trespassa toda a narrativa, mas eles encontram pontos em comum, pois acreditam que a vida tem uma medida e é com ela que se conclui quem é que cabe ou não nela. A vida vale a pena? Segundo eles, a vida por si só não basta, ela só vale a pena em certos termos.

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Esta leitura faz parte do Projeto Mulheres Modernistas e de uma discussão no Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

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Dois Irmãos – Milton Hatoum

interlunio-doisirmaos_02Uma famosa parábola bíblica [Lucas 15:11-32] conta que um filho volta à casa arrependido depois de ter desperdiçado sua herança, exigida antes mesmo do pai morrer. O irmão mais velho, que sempre ajudou o pai, fica ressentido por vê-lo perdoar e receber o irmão mais novo com festas. O pai argumenta que o amor vence todas as coisas. Ao iniciar a história de Yaqub e Omar, podemos pensar em um primeiro momento que Dois irmãos quer recontar a parábola do filho pródigo, mas o romance de Hatoum vai muito mais longe que isso, pois leva essa dualidade mérito e justiça versus amor e perdão às últimas consequências.

Zana e Halim são libaneses morando em Manaus na década de 40. Com uma história de amor iniciada por causa de um poema, acabam casando e tendo 3 filhos, os gêmeos Yaqub e Omar, e uma menina chamada Rânia. Com eles mora Domingas, uma órfã índia que lhes serve de empregada e cujo filho, de pai desconhecido, também acaba trabalhando na casa. Este filho é o narrador da história, que conhece os segredos da família através da mãe e dos desabafos de Halim. Algumas vezes o mesmo episódio é contado de maneira diferente pois ele conta as diversas versões que ouviu.

“Muita coisa do que aconteceu eu mesmo vi, porque enxerguei de fora aquele pequeno mundo. Sim, de fora e às vezes distante. Mas fui o observador desse jogo e presenciei muitas cartadas, até o lance final.”

O filho de Domingas deixa bem marcado todo o antagonismo entre os irmãos gêmeos e a sua rivalidade, nascida da preferência de Zana por Omar e da indiferença de Halim, que não desejava ter filhos. Ele mostra o quanto são opostos, um mais tímido, outro mais atirado; um mais sério, outro mais aventureiro, num jogo de espelhos em que cada um é o torto do outro. Um vive para provar ao outro que é superior, que pode fazer o que o outro não pode.

Por Yaqub Zana parece sentir apenas orgulho, por Omar, um amor doentio. Não à toa Yaqub é praticamente criado por Domingas e, depois de uma briga entre os dois irmãos, é Yaqub que é enviado ao Líbano com 13 anos de idade, o que o deixa com uma marca perene de filho enjeitado. Com o tempo, Yaqub já no Brasil torna-se engenheiro e vai morar em São Paulo. E assim ele encontra sua força: ele permanece na família como um retrato na parede da sala, sempre perfeito. A sua ausência o transforma num ídolo. Enquanto Omar segue sua vida de farrista, sem trabalhar, mimado pelas mulheres da casa e ainda assim o mais amado pela mãe, o que causa o distanciamento de Zana e Halim.

“Naquela época, Yaqub e o Brasil inteiro pareciam ter um futuro promissor.”

Passeando pela história dessa família também entramos em contato com um pouco da história do país, a interferência do regime militar no cotidiano e sobretudo com a história e a geografia de Manaus do século passado, com seus rios, portos, praças, bairros como a Cidade Flutuante, e suas ruas repletas de estrangeiros. Mas a sensação que fica é que estes personagens estão em outro plano, que suas vidas pessoais são maiores que o mundo, que a tragédia diária de irmãos que se odeiam, de um casal que se distancia, de uma solidão abafada ou de uma vida escrava que não sabe fugir, gritam mais alto que tudo. A recompensa pelo esforço parece nunca chegar. Assim como na parábola, o que vai vencer é o amor e o perdão, mas quais serão as consequências dessa escolha e quem pagará por isso? Ao contrário da história bíblica, não há lugar para arrependimentos, afinal Omar não é o filho pródigo que volta arrependido, ele é o filho pródigo que volta todas as noites apenas para descansar.