Projeto Para ler como um escritor #2 [Munro e Tolstaya]

No final do livro Para ler como um escritor, de Francine Prose, ela recomenda a leitura imediata de uma lista de livros – cerca de 120, basicamente os livros sobre os quais ela comenta ao longo dos capítulos. Dentre eles, já havia lido uns 15, e alguns – são poucos – ainda estou em dúvida se lerei. Uns porque acho que não vou gostar e outros porque quero lê-los em outro momento. De qualquer forma é um projeto longo, não tenho intenção de terminá-lo esse ano. Além disso, a edição brasileira traz também uma lista de livros nacionais que não me animei muito em seguir, mas devo encarar algumas sugestões.

Por ora, enquanto não leio uma obra completa da lista, vou comentar (com spoilers) mais dois contos contemplados por Francine Prose no capítulo “Palavras”.

05_dulse“Dulse” é um conto de Alice Munro que pode ser encontrado no livro Selected Stories* e narra um ou dois dias da vida de Lydia, na ocasião em que ela se hospeda em uma ilha na região de New Brunswick, no Canadá. Ao longo do conto vamos conhecendo mais sobre o personagem, mas de início entendemos que ela parece estar tentando fugir de sua realidade atual, conjecturando como seria morar naquele lugar distante e conseguir um trabalho e uma vida mais simples.

Através dela, pois a narrativa é em terceira pessoa mas se confunde com os pensamentos do personagem, conhecemos as pessoas que ela encontra na pousada e, como uma bala que ricocheteia, conhecemos Lydia, tanto pelo julgamento que faz dessas pessoas, como por suas lembranças que vão aparecendo aqui e ali. Ela está no lugar como observadora e nos apresenta Mr. Stanley, um senhor muito idoso que é obcecado por uma escritora que morou na ilha; o casal que dirige a pousada, que logo a desanimam em seus supostos planos de uma nova profissão; e o trio da equipe de telefonia: Lawrence, o chefe, Eugene, o mais jovem, e Vincent, o mais velho, que é viciado em dulse, uma alga vermelha, comum em regiões costeiras do hemisfério norte.

É uma história em que a ação é muito mais interna e por isso mesmo podemos contemplar bem o que o personagem sente. Lydia lamenta não possuir mais um homem em sua vida e se sente estranha perante as pessoas porque perdeu um status que aparentemente julga necessário para ser aceita ou bem vista. Logo no início ela já afirma que as pessoas não se interessam mais por ela e a culpa é provavelmente da sua nova condição. Ela é alguém vivendo a perda de alguém, o que sempre significa uma perda de si, uma busca para uma nova configuração.

Ao final, ela pensa que, assim como um doente desenganado, ela “vai indo”, meio lá e meio cá, e ao ver que Vincent deixa pra ela um pouco de dulse, o presente a conforta: ela está começando a se acostumar com seu sabor; ela está começando a se acostumar com as novas possibilidades de vida.

*Esse livro deverá ser lançado no Brasil pela Globo Livros ainda esse ano. O conto foi publicado originalmente em The Moons of Jupiter.

06_flameEm “Chama celeste”, de Tatiana Tolstaya, o personagem Korobeinikov sofre de um problema de úlcera e está se tratando em um sanatório no campo, próximo a Moscou. Lá ele faz amizade com uma família que mora perto e está sempre os visitando no final da tarde. Olga e seu marido sempre são muito carinhosos com ele e suas visitas trazem felicidade a todos, pois Korobeinikov é um agradável contador de histórias de mistérios e de alienígenas. Fossem elas verdadeiras ou não, não importava, essas histórias deixavam todos devidamente entretidos. No entanto, Dmitry, um novo freqüentador da casa, interessado em conquistar Olga, inventa uma mentira sobre Korobeinikov, o que suja sua imagem perante a família. A partir daí ele passa a ser tratado com uma mórbida frieza, mesmo quando descobrem que tudo não passava de uma “brincadeira”.

A narrativa é pontuada pelas belas descrições da natureza ao redor dos personagens, o clima de outono, as luzes e a escuridão determinadas pela vida no campo e, de início, como tudo isso emoldura a amizade entre todos. Korobeinikov faz parte do cotidiano da família de Olga e, ao ir embora na escuridão, com sua pequena lanterna, todas as noites, percebemos como é querido, ao afirmarem que ele segue seu caminho carregado por uma estrela. Korobeinikov, por sua vez, precisa muito dessas visitas à Olga e seu marido. A convivência com eles é o único remédio que o livra de suas dores, estas que aumentam quando a escuridão surge. O mal maior de Korobeinikov não é a úlcera, é a solidão.

Quando passa a ser tratado com indiferença, não compreende o que está acontecendo e busca mais e mais histórias em sua memória, com o intuito de agradar. Comenta então como um dia uma chama celeste caiu sobre a cidade de Petrozavodsk e Olga fica indignada, a ponto de pensar que a verdadeira chama celeste é a que caiu sobre ele, isto é, a doença que o corrói, um castigo por ter sido injusto com Dmitry. Mas mesmo depois que Dmitry se desmente, não há mais espaço para o pobre Korobeinikov. Sua presença lembra a Olga o quanto ela foi injusta e seu ódio só cresce. Ao deixar a casa de Olga pela última vez, ela deseja com todas as forças que ele morra, e Korobeinikov caminha na escuridão até ser consumido por sua chama celeste, concluindo a afirmação que já havia sido anunciada no primeiro parágrafo do conto, a de que as pessoas geralmente morrem por doenças muito diferentes daquelas que os médicos lhes atribuem.

Pelo jogo entre verdade e mentira, pelas belas imagens descritas e pela humanidade – para o bem e para o mal – dos personagens, fiquei bastante interessada em conhecer melhor a literatura de Tatiana Tolstaya. Infelizmente o livro do qual este conto faz parte, Sleepwalker in a fog, não foi lançado no Brasil, mas devo ler no lugar dele o No Degrau de Ouro, e só então partir para outras obras, esperando que sejam tão boas quanto este maravilhoso conto promete.

Anúncios

5 comentários sobre “Projeto Para ler como um escritor #2 [Munro e Tolstaya]

  1. Lua, esse conto “Chama Celeste” é lindo ❤ Já tinha ouvido a Juliana comentar e desde então ele nunca mais saiu da minha cabeça. Ele é bonito e desesperado de um jeito muito particular – e olha que nem li 😉

    beijo grande,

    1. É lindo mesmo, Maira, espero que os demais contos da Tolstaya se aproximem dessa qualidade, fiquei encantada e é meu conto preferido do projeto até agora, seguido bem de perto do da Flannery O’Connor. Caso queira lê-lo, tenho em pdf, ok? Beijo!

    1. Olá, Alexandre, eu tinha a assinatura da revista The New Yorker, onde eles publicaram em inglês. Fiz um print/colagem em pdf, vou enviar para seu email, ok? Não existe tradução para o português.

Deixe um comentário e eu responderei aqui mesmo. Obrigada pela visita!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s