Travessuras da menina má – Mario Vargas Llosa

04_meninaJá reparei que tenho fácil afeição por personagens que são mais observadores que atuantes, desses que narram mais a vida dos amigos que a sua própria, geralmente porque esta não é lá muito interessante. Ricardo Somocurcio é desses personagens que têm muito a contar sobre a vida das pessoas que o rodeiam: apesar de Travessuras da menina má ser um livro que conta a sua própria história de amor com uma complicada mulher, são seus queridos coadjuvantes que roubam a cena, sendo os meus preferidos os Gravoski e Juan Barreto. Não à toa os títulos dos capítulos se referem a essas pessoas que passam por sua vida e que não só estão relacionadas a sua amada, como também geralmente têm um significado especial por si mesmas.

Ricardo muitas vezes se julga um fantasma. Seu único sonho é poder morar em Paris e para isso inicia uma carreira de tradutor e intérprete, profissão que o deixa num constante estado intermediário. Também sofre o mal de quem mora muito tempo longe de sua terra natal. Não se considera mais peruano, mas também tampouco é francês – mais uma vez em estado intermediário, fantasma que se esvaece diante da vida. Vive em função da Menina Má, de encontrá-la, de conquistá-la, de amá-la mas nem por isso deixa de ser um personagem que conquista o leitor logo de início, talvez por ser alguém cuja amizade qualquer um gostaria de ter.

O que mais me agradou no livro foi a maneira de Llosa narrar, especialmente no início dos capítulos, em que ele nos deixa ansiosos por novidades, pois começa sempre com um momento mais à frente, falando de novos personagens como se já os conhecêssemos, deixando que o leitor vá descobrindo somente depois a próxima fase de sua história com a Menina Má. Esse recurso funciona até o capítulo final, mas infelizmente o personagem deste momento não é tão bem desenvolvido como os anteriores, ou talvez não seja tão envolvente, o fato é que, ao contrário dos outros, este não acrescenta muito à história e não tem relação com a Menina Má. Além disso, observando de uma maneira fria, pode parecer que o romance tem mais coincidências do que seria suportável no que diz respeito a verossimilhança, mas Llosa faz isso de uma forma que não compromete a história, pelo contrário, as coincidências são profundamente necessárias para que tudo fique mais interessante.

Ler o Travessuras da menina má é como fazer uma deliciosa viagem junto com Ricardito por Londres, Tóquio, Madri e Paris e  é como crescer junto com ele dos anos 50 aos anos 80, comprovando que a história, a política e os homens não necessariamente vão melhorando ao longo do tempo e nem porque estamos ficando mais velhos estamos ficando mais sábios.

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14 comentários sobre “Travessuras da menina má – Mario Vargas Llosa

  1. Olá! Feliz ano novo! Já li Travessuras da menina má, e particularmente não gostei. Sei que em um livro de literatura tudo pode acontecer, mas encontrar sem querer, por mero esbarrão, com uma pessoa em vários países diferentes, é meio difícil de digerir. Não sou chegada ao Llosa (por conta principalmente de suas atitudes políticas), e há quem diga que o seu Prêmio Nobel havia influência do seu grande amigo Estados Unidos. Contudo, já li dois livros do autor, o resenhado, e Elogio à madrasta. Talvez eu não tenha tido sorte, pois os dois eu não gostei. Estou em busca de ler seus livros mais aclamados: A casa verde e a A cidade e os cachorros. Talvez assim eu me simpatize com ele. rsrsrsrs

    1. Olá, Mariana. Realmente há muitas coincidências no livro, como eu comentei no texto, mas elas são importantes pra história, o personagem mesmo se surpreende e são uma escolha consciente, o autor comenta muito sobre essa coisa da coincidência no seu livro A tentação do impossível. Mas eu entendo, quando não gostamos de um escritor é difícil aceitar qualquer coisa. No meu caso eu aprecio o Llosa como narrador e suspendo as informações biográficas dele, como faço com todo artista, contanto que não atrapalhem a obra, rs. Beijinho!

  2. Lua, imagina meu sorriso quando vi que você leu esse livro? E que gostou!!!
    Comprei meu exemplar na Black Friday e fiquei na dúvida se tinha comprado certo – nunca li Llosa e queria começar pelo “grande livro” dele ( 😛 ). Mas não pude resistir a essa título lindo, a essa capa linda e a sinopse do livro. Ao que parece ele – o livro – é bem querido por todos, e agora, depois de ler seu texto fiquei com vontade de correr na minha estante e começar a ler agora 😉
    beijo grande,

    1. Maira, você sabe que eu sempre escuto as pessoas falarem com muito carinho desse livro, acho que muita gente tem pena do coitado do Ricardito, rs. Espero que você goste, o meu primeiro dele foi Tia Júlia e o escrevinhador, bem legal também. =)
      Beijinho!!!

  3. Lua, também gosto muito da forma de narrar do Llosa… e estou com saudades desse livro (acontece muito comigo quando vejo várias pessoas que eu gosto lendo um livro que já li e gostei! rs). Mas esse ano quero reler Pantaleão que é um dos que eu li na juventude e não lembro quase nada, haha.
    Beijos!

    1. Dê, eu também tenho adorado a forma de narrar dele, tanto que comprei vários livros dele numa promoção confiando que mesmo que eu não goste da história vou gostar do jeito dele contá-la, rs. Beijinho!

  4. Quando vi umas duas resenhas desse livro fiquei bastante obcecado com a história, tinha receio ao mesmo tempo de ler… e uma certa relação masoquista que eu passo com os personagens que suspeito serem muito parecidos comigo. Eu não conheci essa maneira diferente do Llosa narrar, vai ser interessante encarrar esse livro em 2014.

    Beijos 😉

  5. Esse foi um dos meus queridinhos do ano passado, justamente pelo que você falou no começo Lua: tenho simpatia por personagens observadores e solitários e mais ainda quando eles são narradores. Eu me via muito em algumas falas e pensamentos do Ricardo e principalmente na maneira dele de enxergar o mundo.
    Adorei sua resenha!
    Beijo enorme!

  6. “Travessuras…” foi meu segundo livro do Llosa e aquele que me conquistou de vez. Acho deliciosa a forma como o autor mesclou história, política e cultura pop. E Ricardito é tradutor! Como não se identificar? A profissão de Ricardo explica bem sua condição de fantasma, né? Estou louca para ler “Tia Júlia” agora!
    beijo

    1. Mi, ainda não sei qual o próximo que vou ler dele, mas estou pensando em pegar pelo menos um por ano, já comprei vários por causa de uma promoção que houve ano passado. Alguma sugestão para o próximo? =)

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