A balada do café triste e outras histórias – Carson McCullers

07_baladaA noveleta que dá título ao livro – de longe, a melhor história da coletânea, que inclui ainda mais seis contos –, relata a ciranda amorosa de três personagens numa pequena cidade do sul dos Estados Unidos; conta como um amistoso café surgiu no lugar mais improvável: no armazém de Amélia Evans, uma mulher de modos grosseiros e masculinos, ensimesmada com uma vida voltada ao trabalho e sem nenhum interesse em fazer amigos.

O responsável pelo surgimento do estabelecimento na verdade é um estranho forasteiro que aparece de repente na residência de Amélia, um anão corcunda que diz ser seu primo, e que ganha seu coração, para surpresa de todos. Esse amor faz nascer o café, uma cozinha que servia de cômodo para a cidade inteira, aquecendo seus habitantes com uísque e boa companhia:

“Tomavam banho antes de ir para o estabelecimento da srta. Amélia, limpavam os sapatos e pareciam muito dignos quando entravam no café. E lá, por algumas horas, era possível esquecer esse profundo e amargo sentimento de não valer grande coisa no mundo.”

No entanto, em determinado momento, alguém do passado vai retornar para assombrar Amélia e é aí que assistiremos a uma possibilidade de que tudo desmorone.

A autora tem uma narrativa bem pausada, com frases curtas, o que faz o leitor prestar mais atenção aos detalhes descritos e que o obriga a ler mais devagar. McCullers também usa um recurso interessante de mudar a perspectiva em que se olha o ambiente, como se estivéssemos assistindo a um filme, em que o diretor nos conduz o olhar, muitas vezes através dos olhos de um personagem específico, em vez de uma visão geral da cena.

As qualidades da novela, no entanto, não podem ser atribuídas também aos contos que a seguem. São histórias fracas, um tanto despropositadas, algumas um pouco melhores, como “Uma árvore, uma rocha, uma nuvem”, mas no geral um desfile de promessas não-cumpridas, e nem chegam perto de realizar o que o tradutor Caio Fernando Abreu anuncia em sua nota. A tradução, aliás, me incomodou em alguns momentos, com a escolha de palavras que não soam naturais em português.

Ainda assim, A balada do café triste vale pelo livro todo e mesmo que as demais histórias não sejam boas, elas têm bons personagens, geralmente pessoas que lidam com grandes perdas. Foi o suficiente para querer ler algo mais da escritora, mas claro que não com a mesma empolgação sentida por Flannery O’Connor, sua conterrânea. Talvez Carson McCullers seja melhor em narrativas longas, e espero encarar um romance seu algum dia e me surpreender.

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12 comentários sobre “A balada do café triste e outras histórias – Carson McCullers

  1. O que eu tenho aqui é A convidada do casamento dessa autora, Lua, mas sempre tive curiosidade com esses contos que você resenhou.
    Tô adorando seu desafio, tá te fazendo postar mais 😉
    Beijo!

    1. Tati, eu geralmente ouço falar bem da autora e gostei muito da novela que abre o livro, como comentei. Infelizmente, dos contos não gostei.
      Esse livro não faz parte do projeto, mas realmente eu dei uma acelerada nas postagens, hehehe. Beijinho!

  2. Lua, que lindo! Me apaixonei pela história e pelo título desse livro.
    E abri um sorriso quando vi o nome do Caio – pena que você não gostou tanto da tradução 😦
    Quero ler essa novela!
    beijo grande,

    1. A história é muito boa, Maira! Pena que os contos não têm a mesma qualidade.
      Eu não achei a tradução ruim, só achei estranhas algumas escolhas dele, sabe? Mas dizem que grandes escritores não são sempre bons tradutores, pode ser isso, rs. Beijo!!!

  3. Oi Lua !!
    Poxa, tenho muita curiosidade de ler Carson McCullers, porém, pouco conheço a obra dela, tenho a Convidada do casamento, que ainda não li mas, está na minha lista de 12 livros para 2014, confesso que fiquei um pouquinho com pé atrás agora, mas ainda darei chance a ela esse ano.
    bjoss

    1. Mel, não fique com pé atrás não, eu só não gostei mesmo dos contos, mas a novela eu gostei muito e tenho quase certeza que gostarei dos romances. Talvez o forte dela seja as narrativas longas. Talvez eu não venha a ler outra obra dele esse ano porque a lista está grande, mas quero muito conhecer melhor essa autora porque muita gente adora os romances dela. =)
      Beijinho!!!

  4. Lua, estou lendo “A Convidada do Casamento” com algumas outras meninas (acho que não tem nenhum menino, hahahaha), mas estou tendo sentimentos conflitantes com relação à autora. Estou quase no final do livro, gostei muito da temática e da personagem principal, mas a leitura não está fluindo. Eu acho a escrita dela bem arrastada… Eu estou lendo o livro em inglês e acho que entendo porque você teve dificuldade com a tradução. Muitos termos que ela usa nem existem no dicionário. São termos locais, do sul dos EUA: nomes de pratos típicos, gírias locais, erros gramaticais cometidos pelos negros. Enfim… Vou pensar se dou uma chance para essa balada.
    Beijo!

    1. Eduarda, eu estava a fim de entrar nessa leitura de vocês, espero que dê tempo, estou bem enrolada com minhas leituras por falta de tempo mesmo. Eu achei a tradução legal, só de vez em quando o tradutor usou uns termos meio esquisitos, sabe? =)
      Beijinho!!!

  5. eu acho “A convidada do Casamento” maravilhoso, e dificilmente me agrada protagonista criança ou adolescente. Aliás, cogitando todos os atrasos dos Correios, provavelmente ano que vem vou ler “We Have Always Lived in the Castle”, da Shirley Jackson (que tem uns contos maravilhosos), e dizem que esse livro tem uma atmosfera única, imprevisível. Quero provar…

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