Um episódio distante – Paul Bowles [Projeto Para ler como um escritor #3]

10_distanteEste livro reúne doze contos e uma novela do escritor e músico americano Paul Bowles. Por ter passado a maior parte de sua vida no Marrocos e no Sri Lanka, sua literatura contempla uma realidade que soaria “exótica” ao olhar ocidental do século XX. Muitas de suas histórias se passam no Norte da África, geralmente em cidades pequenas ou lugares isolados, em que o europeu ou o americano entra em contato com os nativos, numa relação que dificilmente escapa do sentimento de superioridade daqueles.

Das narrativas que evidenciam esse contraste, destaca-se o conto que dá nome à coletânea e a novela “Muito longe de casa”, que narra a temporada de uma americana numa localidade próxima a Timbuktu, na qual ela viverá uma experiência singular com um dos criados da casa. Mas também estão dentro do tema “Em Paso Rojo”, “Chá na montanha” e “O pastor Dowe em Tacaté”.

Alguns contos levam o leitor a situações absurdas: são histórias nubladas, com um tom de pesadelo, geralmente com elementos fantásticos, como “À beira da água”, em que um jovem chega a uma certa cidade e ao entrar numa casa de banhos se depara com um estranho personagem em forma de caranguejo; ou como “Ele da Assembleia”, que nos remete a um conto de fada, quando em determinado ponto um personagem procura se esconder num caldeirão de uma velha.

Algo que acontece com muitos personagens ao longo das narrativas é a sensação de estarem fazendo uma escolha estúpida, irracional e ainda assim não conseguir dizer não a ela, seja por educação, seja por curiosidade, tédio ou ignorância. É possível perceber isso em “A presa delicada”, por exemplo, em que 3 mercadores precisam atravessar o deserto e se deparam com um estranho viajante no meio do caminho, e em “No quarto vermelho”, em que uma família é conduzida a uma casa que guarda um mistério do passado do proprietário.

Os demais contos destacam problemas familiares, situações em que os relacionamentos não funcionam: “Parada em Corazón” segue a lua-de-mel de um casal cujo marido resolve comprar um macaco; “Páginas de Cold Point” é narrado como um diário de um pai que não sabe lidar com o comportamento de seu filho; “Allal” é um jovem órfão que procura amor e liberdade sob uma forma muito inusitada; e “O escorpião” relata a vida de uma velha senhora que foi abandonada pelos filhos numa caverna.

Como uma daquelas canções em que cada vez que você ouve percebe um elemento novo no arranjo, seus contos são desses que merecem ser lidos e relidos com muita atenção pois são os detalhes que contam uma história quase escondida nas sutilezas e em várias camadas: não à toa sua obra é citada por Francine Prose, comparando-a à pintura de um grande pintor, que devemos observar não só de longe, “mas também de muito perto, para ver as pinceladas”. É uma literatura para quem aprecia aspectos formais, para quem gosta de ir a fundo nas entrelinhas.

Esta leitura faz parte do Projeto Para ler como um escritor. Prose indica uma coletânea mais completa de Bowles, que provavelmente não foi publicada no Brasil, mas através desta da Alfaguara é possível ter um bom primeiro contato com a obra do autor, de quem pretendo ler também O Céu que nos protege.  Segue um breve comentário (com spoilers) sobre o conto citado por Prose. 

11_bowlesO conto “Um episódio distante”
“Um episódio distante” conta a história de um linguista europeu que chega a uma cidade de cultura árabe com o propósito de catalogar dialetos locais e rever um amigo, o proprietário de um café que ele acaba descobrindo que já morreu. O homem que o atende nesse mesmo café, uma espécie de garçom, sente-se constantemente ofendido por algumas atitudes do linguista, mas se prontifica a ajudá-lo a encontrar suas desejadas caixas de úbere de camela. Nesse primeiro momento, Bowles nos mostra praticamente tudo que precisamos saber sobre esse personagem, denominado o Professor: um homem um tanto presunçoso, que não quer parecer turista, mas leva inúmeros mapas na mala; embora fale o idioma do lugar, ele pouco lhe serve, pois mais lhe serviria conhecer ou respeitar os costumes locais; e além disso, um homem carente de atenção, em busca de reviver alguma coisa de um passado que se perdeu. Já no primeiro parágrafo do conto – com suas belas descrições de clima, cores e cheiros – percebemos muita coisa sobre o personagem e sobre a história, como, por exemplo, a repetição do nome de Hassan Ramani, que soa quase como uma prece.

Em um segundo momento, o garçom o leva por um longo caminho escuro, até chegar a uma espécie de precipício, onde ele supostamente irá encontrar o que deseja. Durante esse trajeto, o leitor sente que ele está sendo conduzido a uma situação ruim e sente também que ele sabe que pode ser uma armadilha, mas sua arrogância não o deixa dar um passo para trás:

“Ocorreu-lhe que devia se perguntar por que estava fazendo aquela coisa irracional, mas era inteligente o bastante para saber que, uma vez que estava fazendo aquilo, naquele momento não era tão importante buscar explicações.”

Finalmente, depois de descer o precipício, ele é capturado pelos reguibat, uma tribo árabe de criminosos. Interessante perceber que até aqui ele ainda encara a situação com um ar de superioridade, mas depois que, ironicamente, cortam sua língua, e mais tarde o adornam de uma forma bizarra, o Professor passa a ser algo sem consciência, uma mistura de animal treinado com bobo da corte, de tal forma que o autor não nos relata mais seus pensamentos, acompanhamos apenas o que a tribo vai fazendo com ele. Até que no final, quando ele é vendido para um homem, ele de certa forma desperta: é “quando a dor começou a pulsar de novo em seu ser”, provavelmente provocada pelas palavras de um convidado de seu dono, que falava em árabe clássico e, mais tarde pela observação de palavras escritas em francês. O acesso à linguagem traz sua consciência de volta em algum grau, mas ao mesmo tempo o leva à loucura e ao desespero, que ele antes não tinha tido direito de sentir.

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22 comentários sobre “Um episódio distante – Paul Bowles [Projeto Para ler como um escritor #3]

  1. Olha que interessante, enquanto eu lia o começo do post eu lembrei do “céu que nos protege”, por causa da capa desse livros e das influencias! Não conhecia outras obras do autor. Na verdade só vi a adaptação para o cinema, mas o livro já está na minha meta 🙂

    “a sensação de estarem fazendo uma escolha estúpida” não me lembro de ter autorizado uma biografia minha! hahahaha Esse é um tema que abre muito espaço para escrever. Ate por pensar em que ponto de vista uma escolha é realmente errada. Ter vários contos permeando um assunto como esse deve trazer ao menos um visão ou compreensão sobre “fazer coisas estupidas” não ?

    Família me parece um segunda passo lógico então, é nesse meio que conseguimos realizar nossas mais estupidas proezas, mas é também onde podemos ( assim se espera ) nos refugiar delas 🙂

    Quando pretende ler o “Céu que nos protege” ?

    Abraços 😉

    1. Filipe, quem nunca se viu conduzido a uma escolha estúpida, sabendo que era uma fria? rs
      Mas essas escolhas nem sempre são erradas, é verdade, às vezes elas podem até dar um certo tempero à vida.
      Ainda não sei quando irei ler O Céu que nos protege, geralmente eu gosto de dar um tempinho no autor, mas quando você for ler me avisa, se eu estiver no clima na época a gente lê junto e comenta no fórum. E se você for ler por agora quero ver o vídeo! =)
      Bj!

  2. Nos últimos tempos, venho tentando me aproximar de uma literatura cada vez mais distante. Isto é, cada vez mais gora da minha zona de conforto, como a literatura oriental, especialmente os contos, que são mais fáceis de lidar. Adorei a sua dica, porque o autor explora território até então desconhecido do leitor. Obrigada.
    Abraços.

    1. Nina, o estranho nos contos dele não é só do ambiente e dos personagens, as situações também são bem diferentes do comum, em algumas histórias você se pergunta: é isso mesmo que está acontecendo?
      Beijo! =)

  3. Excelente resenha, conseguiu fazer um resumo dos contos despertando imensamente a curiosidade sem entregar nada. Adoro histórias de lugares exóticos. Você conhece O Afinador de Pianos de Daniel Mason?

    1. Não conheço não, Gláucia, vou procurar saber mais! Como eu falei para a Nina, não só os lugares são “exóticos”, o que acontece com os personagens também são coisas bem estranhas. =)

  4. Lua, adoro como você consegue fazer resenha de livros de contos de forma tão concisa e que nos deixa com vontade de ler qualquer livro. Sempre vejo os livros do Bowles em promoção mas nunca tinha me interessado, agora terei sua resenha em mente quando acontecer de novo.
    Beijinho!

    1. Tati, é um autor que não agradaria a maioria dos leitores porque numa leitura rápida alguns contos nem parecem ter trama, sabe? Mas acho que você o consideraria bem interessante. 😉

  5. Lua, adorei essa ideia da leitura de longe e de muito perto, para ver bem as pinceladas. Sei que não é bem esse o assunto, mas tenho pensado nisso ultimamente. As vezes me pego querendo ler rápido para passar para outro livro, mas sei que essa leitura calma e observadora é tão mais rica em experiência.

    Lua, você já viu o filme “Sob o céu que nos protege”? Embora o filme só tenha feito sentido meses depois de ter visto, eu consegui sentir o peso da solidão e da incomunicabilidade daqueles personagens. Gostei muito e me prometi rever. O livro deve ser incrível, duro e pesado, mas incrível. Você pretende ler?

    Beijo grande,

    1. É verdade, Maira, é bem essa a proposta da Francine Prose, a leitura atenta. Tenho tentado fazer isso ultimamente, a gente que lê muito tende a não querer respirar um pouco, mas é preciso. =)
      Ainda não vi, é um filme que meu marido gosta muito e já combinei que quando eu ler o livro, vamos ver o filme. Quero ler, mas não por agora, quero só dar um tempinho pro autor “respirar”, rs, mas já estou com ele aqui, comprei os dois juntos na última promoção do Submarino. =)
      Beijo!

  6. Que legal esse projeto, Lua!
    Não conhecia esse autor, que beleza você partilhar com a gente essa leitura que parece que foi tão gostosa e nos deixar com tanta vontade de conhecer mais um livro!
    (Adoro essas edições da Alfaguara *.*)
    Beijão

    1. Cah, como eu disse pra Tati, não é um livro que agradaria a muitos leitores, inclusive de início senti um certo estranhamento, mas depois passei a gostar e apreciar mesmo a escrita do autor. Alfaguara é amor, rs. Beijo!

  7. Leituras instigantes, Lua!

    Quanta originalidade e exotismo nos plots! Tenho certeza que a forma não ficou em segundo plano nessas obras, também! Parabéns por essas experiências literárias tão significativas.

    ;*

  8. Comecei a ler sua resenha e fui ficando cada vez mais curiosa. Não resisti e li até o final, mesmo sabendo do spoiler. Resultado: mais um autor que quero conhecer. 🙂
    bjo

  9. Oi! Eu também estou lendo “Para Ler Como um Escritor”, de Francine Prose. E também estou com muita vontade de ler esse livro!! É claro que ela já contou o que acontece no final e os motivos que levam a isso, mas acho que, justamente por isso fiquei com vontade de ler. Os outros livros dos quais ela já citou trechos até agora eu fiquei com vontade de ler para empregar as técnicas mencionadas por ela, ahahaha. Tipo: “hum… vamos ver se eu vou achar a mesma coisa por conta própria”. Ainda não encontrei o conto, mas o estou procurando. E gostaria de encontrar em português… Embora eu leia em inglês, acabei de terminar Jane Eyre e foi um pouco difícil entender alguns diálogos com expressões abolidas da atualidade… Tenho a impressão de que terei uma sensação parecida com Bowles…

    http://coresdefranca.blogspot.com.br/

    1. Oi, Rafa! Olha só, mesmo sabendo o final isso não atrapalha em nada a leitura, inclusive eu gostei mais do conto quando reli e pude perceber os recursos que o autor usou para atingir os efeitos que ele queria. Se você não encontrar o conto (se não quiser comprar o livro, caso só te interesse o conto), me fala que posso escanear pra vc ler. =)

      1. Puxa vida! Mas eu estou MESMO interessada. E é só no conto, pelo menos por enquanto. Porque foi ele que suscitou aquela curiosidade, sabe? Eu realmente ficaria muito agradecida se você pudesse me mandar. Estava até procurando o livro hoje a tarde na Amazon, mas não encontrei. Só encontrei numa livraria chamada Livraria Cultura, uma loja online que vende livros em inglês (cujas traduções não foram lançadas no Brasil, inclusive) mas estava muito caro: quase 100 reais.

        1. Você está com sorte, Rafa, estou aqui escaneando algumas coisas, logo mais te envio por email. Mas caso vc tenha interesse no livro futuramente, ele está por uns 30 reais no Submarino (quando tem promoção vc consegue mais barato, é só ficar atenta).

Deixe um comentário e eu responderei aqui mesmo. Obrigada pela visita!

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