O Oceano no Fim do Caminho – Neil Gaiman

30_oceanoEu não costumo ter muita pressa para ler lançamentos, mas fiquei muito intrigada com esse mais recente livro do Gaiman. Embora eu seja leitora do autor há mais de 12 anos, ainda tenho alguns de seus livros mais antigos guardados para ler, esperando sei lá eu o quê, a tal hora certa. Mas esse não podia esperar, e mesmo com uma certa expectativa, não me decepcionei porque primeiro: eu já sei o que esperar dele, inclusive o fato de que seus livros não costumam surpreender muito (o que é bom, porque parece que tudo que se lê hoje em dia tem que ter uma reviravolta), e segundo: a escrita dele é confortável como um pijama velho.

Talvez eu tenha ficado um pouco desapontada por ser uma história curta. Eu esperava algo no estilo Deuses Americanos. Mas o livro é o que é: a lembrança de um breve, porém importante momento da infância. Lembrei-me então do mito do Rei Pescador, aquele que fala do instante em que o menino se queima ao tentar pegar um peixe na fogueira. É nesse comecinho da vida que ele perde a ilusão de que a vida é apenas felicidade, que ele percebe que o mundo pode ser injusto e duro.

E como pode ser injusto! E no caso do personagem de Gaiman, que tem apenas 7 anos, assustador, pois até mesmo sua casa e sua família deixam de ser terreno seguro. Segurança mesmo só na casa das Hempstock, um mundo materno e acolhedor, com comida que acalenta a alma e costuras que moldam o tempo. Mais uma vez Gaiman usa uma versão da figura das 3 mulheres – uma velha, uma adulta e uma jovem, conhecidas como Moiras na mitologia grega – como condutoras dos mistérios da vida, e são elas que fazem essa história ser tão envolvente. Talvez elas, mais que a criança narradora, sejam as responsáveis por nos levar de volta à infância ao longo da leitura.

Ainda que essa história tenha um fim, fica a sensação de que esse momento em que nos queimamos fica voltando o tempo todo durante a vida, não importa a idade que temos, e que tudo que precisamos para amenizar essa dor é ter alguém pra segurar forte nossa mão e dizer que tudo ficará bem.

“Uma história só é relevante, suponho, na medida em que as pessoas na história mudam. Mas eu tinha sete anos quando todas essas coisas aconteceram, e no fim de tudo era a mesma pessoa que era no início, não era? Todos os outros também. Deviam ser. As pessoas não mudam.”

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21 comentários sobre “O Oceano no Fim do Caminho – Neil Gaiman

  1. Lua, sempre gostei muito da forma como vc escreve, de como coloca suas impressões, mas desde que a Olívia nasceu você têm escrito tão melhor!! Não sei dizer ao certo, mas a sensação que tenho é de que tão mais sentimento e poesia… rs
    Desculpe se pareço falar “abobrinhas”, rs, mas senti mergulhada em sua emoção agora, bem como a que senti ao ler esse oceano de emoções que o Gaiman tão belamente “desenhou”!! 🙂

    Xerinhos, lindeza!
    Paty

    1. Puxa, Paty, que legal! Desde a gravidez que eu não venho confiando muito no meu cérebro, mas se você está dizendo que a escrita melhorou, fico super feliz! Talvez a emoção esteja mais à flor da pele mesmo, são tantas coisas novas ultimamente! Obrigada pelo seu carinho, queridona! Beijos!!!

  2. Quero muito ler esse livro! Sua resenha é muito agradável e me despertou também a vontade de ler o livro logo. Eu tinha colocado na lista para setembro, mas agora vou antecipar. Também gosto muito do Gaiman.

    Bjo Mel!!

    1. Oi, Rosangela! Que bom que gostou. Eu não consegui deixar esse livro pra depois, não sei por quê. O único problema é que estão falando tanto desse livro que corre o risco das pessoas irem com muita expectativa. Boa leitura! =)

  3. Esse livro assim que saiu eu arregalei o olho! Sou muito fã do Gaiman e mesmo sabendo que colocar expectativa pode estragar as coisas, eu creio que esse livro não vai me decepcionar. Gostei da tua resenha e fiquei feliz de não ter sido pega por nenhum spoiler e acho que você não poderia ter descrito melhor a escrita do autor “confortável como um pijama velho” poxa…é exatamente isso! hahhahahaha

  4. Que texto lindo, traduziu muito bem o que eu senti ao ler o livro. Fiquei absurdamente encantada e já peguei outros livros do Gaiman pra ler. Como eu pude adiar por tanto tempo conhecer esse autor? Para mim foi uma grata surpresa!
    Bjs

    1. Oi, Renata! Pois é, quando um Gaiman ganha um fã, é pra sempre! Tem um livro dele que não gostei muito, mas geralmente o que ele publica é muito bom. Obrigada pelo elogio! =D
      Beijo!!!

  5. Ainda não li nada dele e tenho vontade de conhecer mas tenho medo de começar pelo livro errado e pegar birra do autor. Vc escreveu de um jeito que fez aumentar esse desejo. Tenho aquelas duas coletâneas decontos dele mas o que vc sugeriria par começar?

    1. Gláucia, eu não gosto de começar autores pelos contos e ainda não li o Coisas Frágeis (que deve ser o que você tem dele). Acho que eu te sugeriria começar ou por esse novo mesmo ou obras como Stardust, Coraline e Caçadores de Sonhos, que são mais de fantasia, meio juvenis, bem a cara dele. 😉
      Beijinho!

  6. Depois desse livro quero ler tudo do Gaiman, acho que o próximo será Deuses Americanos. Achei linda a sua resenha porque transmitiu realmente o que eu intuí que sentiria um fã do Gaiman lendo o livro 🙂 E amei a metáfora do pijama velho, acho que é um dos maiores elogios que se pode fazer a um escritor.
    Beijo!

    1. Tati, eu lembro de ter gostado de Deuses Americanos, mas li há muito tempo, na época em que foi lançado, não sei como seria hoje, mas espero que você goste. =D
      Beijinho, linda!

  7. Uau… eu nao conseguiria encontrar definição melhor para esse livro do que a usada por você: a escrita do livro é realmente confortavel como vestir um pijama velho. Foi meu primeiro livro do autor.
    Maravilhosa resenha…

  8. Ôoh de Casa! Voltei! Posso entrar?! ;D

    Que texto suave e acolhedor! Lua, parabéns pela beleza das palavras ^_^

    “[…] a escrita dele é confortável como um pijama velho.” Melhor comparação não existe! Sinto esse mesmo conforto com Gaiman, pois ele está também há bastante tempo em minha vida.

    Oceano começou muito bem, estava achando tudo adorável, mas quando vi que o protagonista seria o garotinho, isso me decepcionou um pouco. Esperava um personagem central adulto, intercalando com memórias da infância. Creio que tais elementos teriam tornando a proposta do romance melhor e menos cansativo. Bem, ter ido com muita sede ao pote pode ter atrapalhado. No geral, eu gostei do livro e é sim como um confortável pijama velho ;].

    Beijinho, Lua!

    1. Vá entrando, Lulu, você é de casa!!! =)
      Olha só, também fiquei um pouco desapontada, mas mais com a questão de ser um livro curto pois eu esperava um “romanção”, sabe? Depois que eu entendi o que era, relaxei e acabei gostando, mas gostaria de ver algo do Gaiman semelhante a Deuses Americanos. Beijo!

  9. Nossa, Lua, quando li “a escrita dele é confortável como um pijama velho” pensei que não podia haver uma opinião mais oposta a essa sua quanto a ele do que a minha, Gaiman é sempre um soco no estômago pra mim! rs

    Não sei se você está falando do estilo ou dos fatos da narrativa, mas esses últimos sempre me assombram. De qualquer forma, com certeza é um romance digno de se ler, como tudo mais do Gaiman.

    Beijo! ;*

    1. Jéssica, estou falando do estilo mesmo. Como eu leio Gaiman há muito tempo, sempre que pego um livro dele já sei como ele vai me conduzir, sabe? Por mais que ele tenha temáticas mais sombrias, pra mim sempre tem um quê familiar, aconchegante, não sei explicar, rs.
      Beijinho! =)

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