Convite: Clubes de Leitura

Esse é um convite para quem não se contenta com a leitura solitária e fica morrendo do vontade de falar sobre o que leu sem ter que se preocupar em espalhar spoilers. Os clubes de leitura são uma maravilhosa oportunidade de trocar ideias sobre os livros e gostaria de convidar vocês para os que eu estou mais envolvida.

Para começar, o Fórum Entre pontos e vírgulas, que é comandado por três amigas: eu, Denise Mercedes e Gláucia Beretta. Apesar de não ser um clube presencial, a vantagem é que pessoas de qualquer lugar podem participar. Basta fazer um login, ler o livro do mês e participar da discussão.

Essas serão nossas próximas leituras: Frankenstein, de Mary Shelley, em outubro; Léxico Familiar, de Natalia Ginzburg, em novembro; e O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, em dezembro.
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Dos clubes presenciais, já tive oportunidade de participar do Leia Mulheres, aqui em Fortaleza, e foi muito divertido. Este mês o livro será Hibisco Roxo, da Chimamanda Ngozi Adichie (mais informações aqui). Infelizmente esse mês não poderei participar, mas quero ir sempre que eu puder. Também pude participar uma vez do clube de leitura dos Espanadores, o Leituras Compartilhadas, que acontece em São Paulo. Foi um clube conjunto com nosso Fórum e tivemos uma ótima discussão sobre Os Detetives Selvagens, do Roberto Bolaño. Esse mês o debate será sobre O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson. O Leia Mulheres de São Paulo também irá debater Frankenstein, de Mary Shelley, então quem estiver lendo para o fórum e morar em São Paulo pode participar dos dois. Vamos ler juntos!
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As avós – Doris Lessing

interlunio54-avosAs avós é uma novela de história simples, mas que carrega uma grande problemática moral. Roz e Lil são melhores amigas desde a infância e são tão ligadas uma à outra que todos as tratam como irmãs gêmeas. Tudo na vida fazem juntas, inclusive casar e engravidar. Apesar disso são diferentes, Lil é atleta, de humor mais sério e contida e Roz é leviana, extrovertida e trabalha com teatro. Moram na mesma rua, à beira-mar, e são muito felizes, apesar de indiferentes ao seus maridos. Uma se torna viúva e a outra se separa, o que as deixa ainda mais felizes, cuidando de seus dois lindos filhos, Tom e Ian, que se tornam também melhores amigos, como as mães. Até que cada menino, no início da juventude, torna-se amante da amiga da mãe, de uma forma que não causa desconforto a nenhum deles, pelo contrário, os quatro parecem mais felizes do que nunca, com seus almoços e banhos de mar, cada menino instalado na casa de sua amante correspondente.

Até que a vida lá fora chama e esses meninos, já homens, são questionados por aparentemente não terem vida afetiva. É a partir daí que haverá uma primeira quebra no universo dessa singular família. Interessante perceber como fica clara a atração dos garotos pelas mulheres, mas o contrário não é descrito com tanta ênfase (a adaptação cinematográfica parece ter uma abordagem bem diferente). Comentários sobre a sexualidade são restritos aos pensamentos deles, elas parecem mais preocupadas com a afetividade como um todo.

A novela tem um tom quase de fantasia, no sentido de trazer tantas situações coincidentes, tantos personagens espelhos um do outro: além de Roz e Lil, Tom e Ian, há ainda Mary e Hannah, futuras esposas deles, e as filhas, Alice e Shirley. Que importa a verossimilhança? Doris Lessing quer apenas contar uma história que cause reflexão e discussão, e consegue. As duas mulheres – interessante reparar que a autora escolheu denominá-las de avós, no título, talvez para salientar suas idades – têm uma forte ligação amorosa, mas sem sexo. No entanto passam a resolver isso através do filho uma da outra, que são de certa forma também espelhos de suas mães. Da mesma forma os meninos se relacionam com elas, espelhos uma da outra, o que poderia ser interpretado como uma forma de serem amantes das próprias mães. Tecnicamente são apenas homens e mulheres se relacionando sem nenhum parentesco, mas por que não parece tão simples assim? Talvez porque o conceito de família esteja muito mais ligado ao crescer junto do que aos laços de sangue. Cada leitor terá seu julgamento, mas o que importa é que As avós tem personagens marcantes, com imagens bem construídas e uma estilo narrativo bem singular, mesmo com um texto tão curto.

O Circo do Dr. Lao – Charles G. Finney

interlunio53-circoEm pleno período da Grande Depressão americana, os habitantes da cidadezinha de Abalone, no Arizona, são despertados do tédio ao lerem, em sua tribuna matutina, o anúncio da chegada de um bizarro circo. O circo promete atrações incríveis, entre elas animais fantásticos, criaturas mitológicas, shows de erotismo, um adivinho e uma grande encenação apoteótica no final.

De início o autor vai apresentando os habitantes da cidade à medida que cada um vai reagindo ao anúncio e à parada de apresentação do circo. Um chinês, seguido de um unicórnio, um fauno, um cachorro verde, um homem muito velho, uma gaiola com um urso (ou seria um russo?), uma cobra gigantesca e outras criaturas fazem seu desfile curioso, mas nada animador: as pessoas estão procurando os truques por trás das atrações. Mesmo assim, a maioria está curiosa com o show e logo mais todos estarão seguindo para o terreno onde o circo está armado.

Em cada tenda o encontro de uma pessoa de Abalone com uma criatura nada aleatória, pois cada um ficará diante de seus piores defeitos. Uns vão engolir a arrogância, outros encontrarão a desilusão; uns vão encarar seu lado mais negro, outros vão se calar diante do inexplicável. No circo do Dr. Lao haverá grandes embates, disputas entre razão e fé, criação e morte, sexo e mortalidade, Ciência e outras formas de conhecimento. Sobretudo haverá o questionamento do império da Ciência, que não permite que haja coisas que não se pode explicar, exterminando o mistério, tão caro ao ser humano.

Um tanto diferente de sua famosa versão cinematográfica (7 Faces do Dr. Lao, de 1964), O Circo do Dr. Lao oferece um tom mais sombrio e menos ingênuo, menos político e mais filosófico, ainda que com uma linguagem muito simples e uma narrativa mais preocupada com as ideias do que com a trama. O filme tem algumas boas vantagens: a ótima atuação de Tony Randall, que faz os papéis de Dr. Lao, Merlin, Homem das Neves, Apolônio, Pã, Serpente e Medusa, isto é, suas sete faces, bem como o desenvolvimento da história e de alguns personagens, fazendo-os perder o caráter generalizado que têm no livro. No entanto, a obra escrita vai mais a fundo nas questões que propõe e tem o papel mais de provocar discussões que trazer esperança. O circo de Finney dificilmente perdoa, com seu caráter de arena do Juízo Final, onde todos os seus personagens estão prestes a acertar alguma grande conta.

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A vida de Isak Dinesen – Judith Thurman

interlunio34-bioblixenEm 1982, a jornalista Judith Thurman, colunista da revista The New Yorker, publicaria a sua biografia de maior repercussão: A vida de Isak Dinesen (no original “Isak Dinesen: a vida de uma contadora de estórias”). Dividida em 4 livros, a biografia cobre desde a vida das duas famílias de onde Blixen se originou – os Dinesen e os Westenholz – até sua morte, em 1962.

Karen Blixen, o nome por que hoje é conhecida a autora de A Fazenda Africana, apesar de ter sido batizada como Karen Christentze, era chamada pela família de “Tanne”. Esse nome dá título ao Livro Um da biografia, o que conta sua infância e juventude na Dinamarca. Interessante o que faz Thurman ao dar bastante voz às pessoas que mais marcaram a vida de Blixen: as irmãs, o irmão, a mãe, a feminista tia Bess e sobretudo o pai, Wilhelm Dinesen, que cometeu suicídio quando ela tinha 10 anos.

A família da mãe tinha origem burguesa, eram pessoas práticas, religiosas, que vinham de cidades grandes e que acreditavam no fruto do próprio trabalho. Suas mulheres geralmente eram feministas. Já a família do pai vinha do campo, tinha vínculos com a aristocracia e eram mais espirituosos. Tanne se identificava mais com a família do pai e a ausência deste foi um dos grandes sofrimentos em sua vida, pois achava que apenas ele a entendia. Já com tia Bess, que morava com sua família, o relacionamento era contraditório. Tanne tinha carinho pela tia, admirava algumas de suas ideias, mas considerava-a uma tirana puritana. Sua mãe e seus irmãos eram amados, mas o que se sobressaía era que Blixen não se encontrava nessa família, sentia-se completamente deslocada.

As primeiras tentativas de distanciamento da família foram seus cursos de Belas Artes e suas primeiras histórias, que eram peças de teatro familiar. A Vingança da Verdade era sua peça mais significativa, que escreveu aos 19 anos. Em muitos momentos de sua vida Blixen iria resgatar e fazer pequenas apresentações dessa peça e ela acabou sendo encenada mais tarde, na década de 60, no Teatro Real de Copenhague e na televisão dinamarquesa. Era uma história que se passava numa estalagem, em que uma feiticeira roga uma praga em todos para que todas as mentiras ditas naquela noite fossem reveladas pela manhã.

Sua vida amorosa na juventude não teve grandes emoções até se apaixonar pelo primo Hans Blixen. No entanto, Hans não sentia o mesmo e por um bom tempo ela ficou alimentando esse amor não-correspondido, recusando os vários pedidos de casamento que recebia. Até que aceita se casar com o irmão gêmeo de Hans, o também barão Bror Blixen. Inicialmente eles cuidariam de uma fazenda de gado na Dinamarca depois do casamento, até que alguém lhes deu a ideia de ter uma fazenda na África, em Nairóbi. Nenhuma das famílias dos jovens era a favor, mas o espírito aventureiro de Bror e a vontade de Karen de viver uma vida diferente, independente da família, deixaram-nos determinados e foram enfim, patrocinados pelos familiares. Poucos anos depois Hans morreria em um acidente de avião.

Inicia-se uma nova fase da futura escritora, aquela em que foi mais feliz: sua vida na África. O Livro Dois chama-se “Tania”, que era como os africanos a chamavam. Para quem leu A Fazenda Africana essa parte da biografia traz o lado mais realista, mais documental da história contada por Karen Blixen. Seu relacionamento com Bror, as caçadas, a infidelidade do marido, a sífilis contraída dele, que será o grande tormento em sua vida, os péssimos resultados financeiros da fazenda, tudo aqui é mostrado de forma mais dura, afinal o grande livro de Blixen não é sobre mostrar os fatos exatamente como aconteceram, mas como ela queria se lembrar deles.

Destaca-se nesse livro ainda seu romance com Denys Finch Hatton, quase abençoado pelo marido Bror, de quem se separa em 1925. Essa parte da história serviu de base para o filme de 1985, Entre Dois Amores, de Sydney Pollack, estrelado por Meryl Streep e Robert Redford. O relacionamento sofria altos e baixos pois Hatton não queria ter uma esposa e Blixen esperava mais presença e compromisso. O que se sobressaía era, contudo, a grande amizade entre os dois, suas caçadas, suas conversas sobre arte e seus jantares ao som de música alta. Infelizmente, logo após a falência da fazenda, Hatton, que era aviador, sofre um desastre em 1931, deixando Blixen completamente desconsolada. Agora ela teria que enfrentar seu maior pesadelo: voltar para a Dinamarca definitivamente.

Karen Blixen

No entanto, é voltando para o seu país que Karen Blixen consegue o distanciamento para se tornar a escritora Isak Dinesen, nome que escolhe para publicar seu trabalho, que também dá título ao terceiro livro da biografia. Nessa fase de saudade da África e de sofrimento com a piora da doença, ela coleta as várias histórias que havia delineado por anos e publica Sete Narrativas Góticas, primeiramente por uma edição americana. Só depois do grande sucesso do livro ele seria publicado na Dinamarca.

Foi apenas depois de algum tempo que Blixen teve coragem de contar sua experiência como fazendeira no Quênia, e o resultado foi sua grande obra, A Fazenda Africana. Em seguida publicaria Histórias de Inverno, sob o peso da ocupação alemã na Dinamarca. Nessa época sua casa virou um ponto de fuga para os judeus dinamarqueses que procuravam refúgio na Suécia e ela então teve seu papel no movimento de resistência que salvou mais de 7000 pessoas.

Chegou ainda a escrever, sob pseudônimo, um fraco livro de suspense, apenas por questões financeiras e nunca admitiu formalmente sua autoria. Já nessa época contava com a ajuda de sua secretária Clara Svendsen, uma espécie de fã da autora que fez de tudo para trabalhar para ela. As duas tinham um relacionamento de amor e ódio e no final da vida de Blixen, quando já não conseguia escrever, Clara tornou-se sua copista. Outro relacionamento estranho, no final da década de 40 e começo dos 50, foi o que teve com o escritor Thorkild Bjørnvig. Ela era uma espécie de mestre místico para ele e para desenvolver o seu dom e ter paz para o trabalho, ele era mantido na enorme casa de Blixen, longe da esposa. Karen queria ter muito controle sobre Bjørnvig e eles acabaram rompendo.

O quarto e último livro é chamado de “Pellegrina”, uma referência a Pellegrina Leoni, a cantora de seu conto “Os Sonhadores”. Judith Thurman a toda hora faz referência a esse conto para comentar como Pellegrina é uma representação de Isak Dinesen, no sentido de que a personagem é alguém que está sempre se reinventando, sempre morrendo e renascendo como alguém novo. Aliás, durante todo o livro a autora analisa os contos de Blixen comparando-os com momentos de sua vida.

Nessa parte destaca-se sua ida aos Estados Unidos, onde foi tratada como uma rainha e conheceu inúmeros escritores e celebridades; a publicação de seus últimos livros – Últimas histórias Anedotas do destino – e sua morte, já com o corpo extremamente frágil por conta da doença.

A biografia revela um trabalho de pesquisa minucioso e Thurman não se limita a descrever os fatos da vida da escritora dinamarquesa. Além de analisar inúmeras de suas obras a fundo, ela também analisa a própria vida de Blixen, seja com categorias filosóficas, seja com categorias da Psicanálise, e traz para o leitor ótimas reflexões, ideais para quem busca uma biografia com um algo a mais.

Karen Blixen era uma contradição ambulante. Ora defendia o feminismo, ora o criticava; ora defendia o socialismo, ora era a favor da aristocracia, ostentando seu título de baronesa. Era generosa e egoísta ao mesmo tempo, tinha muito amor por seus empregados, mas podia ofendê-los gravemente. Era sobretudo uma mulher sofredora, solitária, que acreditava que a vida teria feito um pacto com ela: o amor em troca de boas histórias.

Na praia – Ian McEwan

interlunio52-praiaNa Inglaterra de 1962, Edward e Florence são dois jovens apaixonados que acabaram de casar. Estão tendo uma refeição no hotel, à beira-mar e, ambos virgens, estão nervosos com o que irá se seguir. O que vai acontecer não será nada bom e porá em risco o relacionamento dos dois. À parte, na narrativa, haverá flashbacks de suas infâncias e adolescências e como chegaram a se conhecer. Também será contada a história dos pais: Edward de família pobre, com uma mãe deficiente mental, e Florence de família rica, com uma mãe fria e distante.

Uma das coisas que percebi logo de início nessa leitura foi como o autor parece não ter tido o mesmo cuidado com sua narrativa, comparando com os outros livros dele que já tive oportunidade de ler. A história principal, o momento do casal na praia, daria um um bom conto isolado, mas o contexto sócio-cultural do início dos anos 60 e a vida dos pais de Edward e Florence parecem muito mal costurados e não me convenceram como justificativa ou como um bom pano de fundo para o que ocorre com eles, pelo menos não da forma como ele conduziu.

A ladainha do fim do Imperialismo Britânico, a psicanálise de enciclopédia e a desculpa de que esses jovens eram contidos porque a libertação sexual ainda não havia acontecido é um refrão que repete-se o tempo inteiro enquanto, na praia, temos apenas duas pessoas ingênuas que casaram sem se conhecer direito. Um mérito dou para Ian McEwan: Na praia tem um final muito bonito, e um conto mais lapidado teria um resultado melhor que um romance mal-ajambrado.

Obrigado, Jeeves – P. G. Wodehouse

interlunio51-jeevesObrigado, Jeeves faz parte de uma série de histórias do inglês P. G. Wodehouse com os personagens Bertram Wooster e seu mordomo Jeeves. Apesar dessa não ser a primeira história da dupla – há algumas histórias anteriores publicadas em revistas – é o primeiro romance com eles e foi publicado em 1934. Aqui Wooster se envolve com o possível casamento de seu amigo Chuffy e sua ex-noiva Pauline, atuando como um cupido extremamente atrapalhado.

A história começa com um impasse: Wooster gosta de praticar banjolele em seu apartamento em Londres, mas a vizinhança não está nem um pouco contente com isso e, para a surpresa dele, nem o pobre Jeeves aguenta mais o barulho. O mordomo pede demissão e, para poder tocar em paz o instrumento, Wooster vai morar por uns tempos num chalé da propriedade de seu amigo Chuffy. Essa propriedade será o cenário de todas as situações que se seguem pois Jeeves irá trabalhar para Chuffy, Pauline estará com o pai em um iate na costa do lugar e seu inimigo Glossop estará envolvido na venda da mansão de Chuffy, que precisa desesperadamente de dinheiro para pedir Pauline em casamento.

Mesmo não sendo mais seu criado, Jeeves continua seu amigo e o salva das mais estranhas situações, pois o pai de Pauline pensa que ela ainda gosta de Wooster e acredita que os dois andam se encontrando escondido. Na verdade Pauline e Chuffy é que estão apaixonados, mas uma série de mal-entendidos vão separar o casal e sobra para Bertie e Jeeves resolver o problema de todo mundo.

Trata-se, portanto, de uma típica comédia de costumes, cheia de mal-entendidos, amores impossíveis e disputas por dinheiro. É um retrato da decadência da aristocracia britânica, repleto de situações cômicas, inclusive situações físicas, que mostram que a dignidade cabe apenas ao bondoso e brilhante mordomo Jeeves, que está sempre resolvendo os problemas de seus senhores, esbanjando sabedoria e cultura.

O que é mais impressionante no livro – apesar de possuir uma história um tanto previsível – é como o autor, especialmente ao se aproximar do final, consegue costurar tudo e ligar todos os pontos da história, de forma que todos os elementos apresentados, personagens e situações, tenham um grande valor e sejam muito bem aproveitados. O leitor até sabe o que vai acontecer, mas o como acontece rende boas risadas.

Peanuts Completo: 1950-1952 – Charles M. Schulz

interlunio40-peanuts01Conhecendo a turma de Peanuts através das animações e das tirinhas mais clássicas, eu não imaginava que nos primeiros anos da obra os personagens e algumas situações eram um tanto diferentes. As tirinhas dos anos de 1950 a 1952 mostram momentos da turma do Charlie Brown mais voltados para a infância propriamente dita e o seu caráter universal ainda não estava completamente delineado. Alguns personagens ainda estão por desenvolver-se e outros vão ser descartados mais tarde.

A primeira tirinha
A primeira tirinha

É o caso de Shermy e sua namoradinha Patty Kieffer. Eles estão na primeira tirinha de Peanuts e tinham uma importância de protagonistas, junto com Charlie Brown, Snoopy e Violet, formando assim a primeira turminha.

Patty ou Lucy?
Patty, ou a primeira Lucy.
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Violet foi a primeira a segurar a bola

Aos poucos Shermy vai perdendo espaço e, como qualquer fã da série sabe, ele será eliminado das tirinhas no futuro, fazendo apenas um ou outra aparição. Por outro lado, três personagens importantes surgem como bebês. Primeiro é Schroeder e, logo em seguida, Lucy.

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Schroeder e seu piano
Lucy ainda pequenina
Lucy ainda pequenina

Os dois muito rapidamente ficam grandes o bastante para brincar com os outros mas ainda são crianças menores. Bem depois aparece o Linus, irmão da Lucy, e aqui ele ainda não fala, mal consegue ficar sentado.

Linus bebezinho
Linus bebezinho

Engraçado acompanhar o desenvolvimento da personalidade de cada um. Percebe-se que a Lucy irá se tornar um misto de Patty, que é um tanto violenta com os meninos, e Violet, criativa e vaidosa. Charlie Brown já possui todas suas características mas aqui ele também tem seus momentos de brincadeirinhas ofensivas com outras crianças. Shroeder já nasce fã de Beethoven e Snoopy já é completamente humanizado mas não parece necessariamente ter dono ainda.

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Apesar de Schulz retratar a década de 50 e seus valores, bem como os costumes americanos – esportes, datas comemorativas, brincadeiras – Peanuts é uma obra que já nasce acessível a todos, com seus cenários enxutos e diálogos inteligentes. Agora é continuar a leitura dos próximos anos e ir descobrindo como Charlie Brown e sua turma se tornaram o fenômeno que são.

Cristal – Wilson Bueno

interlunio50-cristalApesar de apresentado como romance, Cristal é um livro difícil de classificar como conto, novela, romance ou mesmo poema. A história curta, escrita de forma singular, com parágrafos grandes e repleta de substantivos, tem a força de um poema, é episódica como uma novela, tem a densidade de um romance e ao mesmo tempo tem um final típico dos contos, com um clímax impactante.

Mas esse caráter único não quer dizer que se trata de um texto árido, difícil de ler. Mesmo que a narrativa deixe algo aqui e ali suspenso, aberto a interpretações, Cristal tem um enredo simples e linear, com pouquíssimos personagens.

Temos, assim, antes de mais nada, a Velha, uma costureira aposentada que observa a vida através da vidraça da janela. A Velha é misteriosa porque é um personagem sem memória ou que não quer lembrar do passado. Há poucas lembranças, e a maioria delas está guardada no Baú, recipiente de fotos e outros souvenires. Nas paredes há retratos com molduras ovais, fotos em sépia, pintadas em estranhos tons de laranja e roxo. Do que se lembra da juventude, apenas de uma filha que não sabe ao certo se existiu, um namoro que talvez não tenha vingado, e uma sessão de cinema inesquecível, das primeiras que houveram no mundo.

Tudo começa então quando ela vê, de sua janela, que um homem morto está sendo levado para a frente da igreja. Tratava-se de um alemão, um homem rico que estava sempre bêbado e morava afastado da cidade, num pequeno sítio. Ao entrarem na casa do sujeito, que havia se enforcado, descobrem que lá havia um recém-nascido e este acaba ficando aos cuidados da Velha, ela que sempre quis ter um filho.

“Isso tudo a Velha começou a ver, rente à persiana da sala, detrás do cristal da vidraça, naquela tarde de agosto de mil novecentos e setenta e seis.”

O pequeno Ananias cresce então com a Velha, que o veste como se fosse uma menina, pinta-o como se fosse um anjo ou um santo, enfeita-o como quem borda sobre um vestido. Isso quando não há ninguém por perto, e quase não há ninguém por perto, apenas o padre Anselmo, com suas vestes de corvo, e a vizinha Sirigaita, objeto de ódio da Velha.

É um texto muito poético, em que cada palavra é pensada, cada frase é lapidada, e cada personagem tem um tom simbólico de morte, de vida, de loucura, de fé. E a presença do cristal está não apenas na janela que turva a visão, mas nas gotas de chuva, nos caminhos com cacos que cortam os pés e sobretudo na dureza, de quem já tomou forma e não sabe mais ser maleável, mostrando que sonhos caducos talvez não devessem se realizar.

Tartarin de Tarascon – Alphonse Daudet

interlunio49-tartarinSe alguém aí está procurando um livro leve, engraçado e com um pouco de aventura, pode ser que o encontre neste pequeno livro do francês Alphonse Daudet. Publicado em 1872, Tartarin de Tarascon tem um dos personagens mais divertidos da literatura, pois ele é uma mistura de Dom Quixote com Sancho Pança e sofre o tempo todo com essa dualidade, essa briga entre o Tartarin que quer explorar o mundo e caçar leões e o Tartarin corpulento que quer ficar em sua poltrona com seu chocolate quente.

A comunidade de Tarascon, no Sul da França, tem costumes bem peculiares, com suas cantigas tradicionais e sua paixão pela caça. O problema é que não há nada para caçar na cidade, então a caça para eles é na verdade um bom almoço no campo, coroado com tiros nas próprias boinas. Aquele que tem a boina mais destruída é o vencedor, e esse sempre é Tartarin. Sua fama de herói é corroborada pela grande quantidade de armas expostas em sua casa e seus livros sobre guerra, mas a verdade é que Tartarin nunca saiu da cidade e seus inimigos são apenas imaginários, por quem ele está sempre esperando a cada esquina. Ele é um contador de histórias, histórias que nunca viveu, mas que leu, histórias de outros que acabaram tornando-se suas à medida que as narra continuamente, de forma tão dramática.

“O homem do Sul não mente; ele se engana. Não diz a verdade todo o tempo, mas acredita que sim… Suas mentiras não são bem mentiras, são uma espécie de miragem…”

Um dia um circo chega à cidade e Tartarin se depara frente a frente com um leão. A partir desse momento ele encontra uma missão de vida: irá para a África caçar leões! Depois de muita relutância de seu lado Sancho e da pressão dos tarasconeses, Tartarin seguirá para a Argélia com toda a sua parafernália de caçador, e vai se deparar com muitas aventuras, mas não exatamente as que esperava viver.

O narrador dessa história – um observador de todos os passos do herói – é a verdadeira fonte do humor do livro, com suas tiradas irônicas e retratos cômicos de cada trapalhada de Tartarin. Além disso, o autor aproveita para alfinetar a França em relação à colonização da Argélia e para destruir as ilusões do estrangeiro que pensa a África em seus estereótipos de lugar ermo, com habitantes selvagens; um erro que ele mesmo cometeu, quando visitou a Argélia ainda jovem. Mas as ilusões e a ingenuidade de Tartarin causam-nos mais riso que pena justamente porque ele precisa aprender, precisa tirar o véu da vaidade extrema e ver além do seu pequeno universo tarasconês, que ele leva para onde vai.