As avós – Doris Lessing

interlunio54-avosAs avós é uma novela de história simples, mas que carrega uma grande problemática moral. Roz e Lil são melhores amigas desde a infância e são tão ligadas uma à outra que todos as tratam como irmãs gêmeas. Tudo na vida fazem juntas, inclusive casar e engravidar. Apesar disso são diferentes, Lil é atleta, de humor mais sério e contida e Roz é leviana, extrovertida e trabalha com teatro. Moram na mesma rua, à beira-mar, e são muito felizes, apesar de indiferentes ao seus maridos. Uma se torna viúva e a outra se separa, o que as deixa ainda mais felizes, cuidando de seus dois lindos filhos, Tom e Ian, que se tornam também melhores amigos, como as mães. Até que cada menino, no início da juventude, torna-se amante da amiga da mãe, de uma forma que não causa desconforto a nenhum deles, pelo contrário, os quatro parecem mais felizes do que nunca, com seus almoços e banhos de mar, cada menino instalado na casa de sua amante correspondente.

Até que a vida lá fora chama e esses meninos, já homens, são questionados por aparentemente não terem vida afetiva. É a partir daí que haverá uma primeira quebra no universo dessa singular família. Interessante perceber como fica clara a atração dos garotos pelas mulheres, mas o contrário não é descrito com tanta ênfase (a adaptação cinematográfica parece ter uma abordagem bem diferente). Comentários sobre a sexualidade são restritos aos pensamentos deles, elas parecem mais preocupadas com a afetividade como um todo.

A novela tem um tom quase de fantasia, no sentido de trazer tantas situações coincidentes, tantos personagens espelhos um do outro: além de Roz e Lil, Tom e Ian, há ainda Mary e Hannah, futuras esposas deles, e as filhas, Alice e Shirley. Que importa a verossimilhança? Doris Lessing quer apenas contar uma história que cause reflexão e discussão, e consegue. As duas mulheres – interessante reparar que a autora escolheu denominá-las de avós, no título, talvez para salientar suas idades – têm uma forte ligação amorosa, mas sem sexo. No entanto passam a resolver isso através do filho uma da outra, que são de certa forma também espelhos de suas mães. Da mesma forma os meninos se relacionam com elas, espelhos uma da outra, o que poderia ser interpretado como uma forma de serem amantes das próprias mães. Tecnicamente são apenas homens e mulheres se relacionando sem nenhum parentesco, mas por que não parece tão simples assim? Talvez porque o conceito de família esteja muito mais ligado ao crescer junto do que aos laços de sangue. Cada leitor terá seu julgamento, mas o que importa é que As avós tem personagens marcantes, com imagens bem construídas e uma estilo narrativo bem singular, mesmo com um texto tão curto.

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3 comentários sobre “As avós – Doris Lessing

  1. Sempre quis ler a Doris Lessing. Lembro que quando ela ganhou no nobel, alguém fez uma apreciação bem pessimista do modo como ela via a vida e foi o que me atraiu para sua literatura.

    Comprei uma ficção científica dela mas ainda não li. Ela é boa, Lua?

    1. Oi, Bruno! Por esse livrinho não dá pra dizer se ela é realmente boa porque ele tem um estilo meio de fábula, sabe? Com muita repetição, então não sei como é realmente a escrita dela, se ela fez algo diferente aqui, mas ainda assim eu gostei da forma como ela construiu os personagens, foi uma história que ficou comigo por alguns dias, o que não é comum. =) Bj!

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