Cristal – Wilson Bueno

interlunio50-cristalApesar de apresentado como romance, Cristal é um livro difícil de classificar como conto, novela, romance ou mesmo poema. A história curta, escrita de forma singular, com parágrafos grandes e repleta de substantivos, tem a força de um poema, é episódica como uma novela, tem a densidade de um romance e ao mesmo tempo tem um final típico dos contos, com um clímax impactante.

Mas esse caráter único não quer dizer que se trata de um texto árido, difícil de ler. Mesmo que a narrativa deixe algo aqui e ali suspenso, aberto a interpretações, Cristal tem um enredo simples e linear, com pouquíssimos personagens.

Temos, assim, antes de mais nada, a Velha, uma costureira aposentada que observa a vida através da vidraça da janela. A Velha é misteriosa porque é um personagem sem memória ou que não quer lembrar do passado. Há poucas lembranças, e a maioria delas está guardada no Baú, recipiente de fotos e outros souvenires. Nas paredes há retratos com molduras ovais, fotos em sépia, pintadas em estranhos tons de laranja e roxo. Do que se lembra da juventude, apenas de uma filha que não sabe ao certo se existiu, um namoro que talvez não tenha vingado, e uma sessão de cinema inesquecível, das primeiras que houveram no mundo.

Tudo começa então quando ela vê, de sua janela, que um homem morto está sendo levado para a frente da igreja. Tratava-se de um alemão, um homem rico que estava sempre bêbado e morava afastado da cidade, num pequeno sítio. Ao entrarem na casa do sujeito, que havia se enforcado, descobrem que lá havia um recém-nascido e este acaba ficando aos cuidados da Velha, ela que sempre quis ter um filho.

“Isso tudo a Velha começou a ver, rente à persiana da sala, detrás do cristal da vidraça, naquela tarde de agosto de mil novecentos e setenta e seis.”

O pequeno Ananias cresce então com a Velha, que o veste como se fosse uma menina, pinta-o como se fosse um anjo ou um santo, enfeita-o como quem borda sobre um vestido. Isso quando não há ninguém por perto, e quase não há ninguém por perto, apenas o padre Anselmo, com suas vestes de corvo, e a vizinha Sirigaita, objeto de ódio da Velha.

É um texto muito poético, em que cada palavra é pensada, cada frase é lapidada, e cada personagem tem um tom simbólico de morte, de vida, de loucura, de fé. E a presença do cristal está não apenas na janela que turva a visão, mas nas gotas de chuva, nos caminhos com cacos que cortam os pés e sobretudo na dureza, de quem já tomou forma e não sabe mais ser maleável, mostrando que sonhos caducos talvez não devessem se realizar.

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