Os detetives selvagens – Roberto Bolaño

interlunio35-detetivesrbJuan García Madero é um adolescente mexicano de 17 anos que acaba de entrar para um grupo de poetas do movimento realismo visceral. Envolvido com a literatura de maneira bastante formal e caricata, decorando termos técnicos da poesia, García Madero agora entra em contato com um mundo mais próximo da vida real, iniciando-se no sexo, na amizade e na escrita de forma a encaixar-se melhor neste grupo. O diário de García Madero sobre suas experiências constitui a primeira parte de Os detetives selvagens, obra publicada em 1998 pelo chileno Roberto Bolaño. Com o título de “Mexicanos perdidos no México”, essa primeira parte se passa no final do ano de 1975, e é através dela que conhecemos os personagens que se denominam real-visceralistas.

Em um primeiro nível temos os protagonistas: Arturo Belano e Ulises Lima. Líderes do movimento, são os típicos poetas vagabundos, marginais e aparentemente indiferentes a tudo. Além deles destacam-se Rafael Barrios, Jacinto Requena, Xóchitl García, Felipe Müller, as irmãs María e Angélica Font, os irmãos Rodriguez, Pele Divina, Laura Jáuregui e César Arriaga. Publicam seus poemas numa revista própria, chamada Lee Harvey Oswald e estão sempre pelas ruas da Cidade do México, em cafés, bares e boates, escrevendo e conversando ao lado de xícaras e mais xícaras de café com leite.

Pintado este retrato, que poderia ser atribuído – com um ou outro detalhe modificado – a muitos movimentos literários ao longo da história, o autor pausa a narrativa de García Madero para construir a segunda parte do livro (“Os detetives selvagens”), que abarca os anos de 1976 a 1996, e onde encontramos, como uma espécie de narrativa policial ou um documentário cinematográfico, duas situações investigativas: a procura de Belano e Lima pela poeta Cesárea Tinajero, que pertencia ao primeiro realismo visceral, nos anos 1920, e a procura de alguém desconhecido pelo perfil dos próprios Belano e Lima, através de relatos de pessoas próximas aos dois, num movimento que ilustra bem a tendência de uma geração sempre procurar pela geração anterior. O leitor é ele mesmo um detetive, tentando descobrir o que é e o que não é confiável diante de tantas pistas embaralhadas.

Os relatos formam um grande tecido sobre quem eram Belano e Lima, mas sobretudo eles contam histórias de vida mais ricas e encantadoras que as desses poetas. O romance entre dois homens, uma moça que tira fotos nua, a loucura lúcida de um homem que perdeu suas referências, uma mulher que se esconde por vários dias em um banheiro para não ser presa… Muitos relatos que transportam o leitor para longe da narrativa principal mas que ao mesmo tempo contestam a validade do próprio relato, já que cada personagem tem visões muito distintas de quem são Arturo Belano e Ulises Lima. Isso é mais evidente ainda diante da voz única que Roberto Bolaño dá a maioria destes personagens, através de um discurso indireto livre, com marcas de oralidade na medida para que o leitor acredite nessas histórias. A terceira parte do livro, “Os desertos de Sonora”, volta ao começo e retoma o diário de García Madero, o qual acompanha Belano e Lima em sua busca por Cesárea Tinajero por vários povoados mexicanos.

Ao contrário de O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar, que propõe um quebra-cabeça hermético, Bolaño oferece um jogo mais simples de encaixar, abarcando leitores de vários tipos, desde o que está interessado em boas histórias até aquele que se empolga com referências obscuras ou com a diferente construção da narrativa. Através de alguns contrastes, o autor questiona o que é poesia, o que é ser poeta, o que é real e principalmente o que é real segundo o olhar de cada um. A poesia é algo que inicia com o ato de escrever ou é uma atitude perante a vida? Será que ser poeta tem mais a ver com roubar livros de sebos que propriamente publicar poemas? Bolaño sugere que a poesia é algo maior que a literatura e a juventude encontra nela um norte para a vida, afinal “não resta aos rapazes pobres outro remédio senão a vanguarda literária.”

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