A Guerra dos Mundos – H. G. Wells

interlunio31-guerraÉ impressionante ler este livro do britânico H. G. Wells, lançado em 1898, e constatar como ele serve de base, direta ou indiretamente, para histórias de catástrofes, mundos pós-apocalípticos e invasões alienígenas até hoje.

A Guerra dos Mundos é uma grande especulação de como seria se seres vivos de outro planeta, superiores aos terráqueos em inteligência e tecnologia, pudessem nos observar e nos invadir, com o intuito de tomar nosso mundo.

Neste caso o planeta seria Marte, que aqui estaria envelhecendo e obrigando seus habitantes a procurar um novo lar. A Terra seria um bom substituto para os marcianos e eles iniciam uma invasão de início tímida, e em seguida, destruidora.

O narrador constrói uma grande tensão, anunciando as tragédias que se seguirão à chegada dos marcianos ao mesmo tempo que nos relata cada momento por que passa, entre medo, pavor e especulações científicas e filosóficas. A história é contada do ponto de vista dele, no interior da Inglaterra, e do ponto de vista do seu irmão, em Londres.

A grande reflexão da obra é sobre o abuso de poder de seres dominantes: Wells faz o leitor pensar sobre a maneira como tratamos os outros animais e até mesmo nossos semelhantes sobre os quais temos domínio. Que argumento relativo à sobrevivência nós teríamos se houvesse uma espécie mais desenvolvida intelectualmente que a nossa, e com mais recursos tecnológicos? Como nos sentiríamos se passássemos a ser alimento para uma espécie superior? Diante dos marcianos os humanos são, durante todo o livro, sempre comparados a pequenos animais – insetos, coelhos, ratos –, facilmente controlados.

“Naquele momento senti uma emoção incomum à experiência humana, mas que as pobres criaturas que dominamos conhecem muito bem. Senti-me como um coelho que, ao voltar para sua toca, encontra uma dúzia de operários cavando os alicerces de uma casa. Percebi a primeira insinuação de algo que logo se tornou claro em minha mente, e que me oprimiu durante muitos dias – uma sensação de destronamento, a convicção de que já não era o mestre, mas um animal entre outros, sob o tacão dos marcianos. Daí em diante, como os animais, nós espreitaríamos, fugiríamos, buscaríamos esconderijos. O terrível império humano caíra.”

O narrador fica a maior parte do tempo sozinho e interage de verdade apenas com dois personagens-ideias: um padre e um artilheiro. O primeiro é o típico homem contraditório ao seus princípios, cheio de medo e desesperança. O segundo revela-se um homem prático e frio, aquele que se adequaria ao novo mundo, ainda que com uma moral duvidosa. Eles servem de contraponto ao narrador, aquele que tenta encontrar um equilíbrio diante de tanta tragédia, que busca tão somente a sobrevivência e o encontro com os seus.

A narrativa tem um ritmo tenso de ação na maior parte do tempo, o que a deixa um tanto cansativa. O autor traz poucos diálogos e momentos mais reflexivos, deixando-os mais para o final do livro. Comparando com outros livros do autor, como A Máquina do Tempo e A Ilha do Dr. Moreau, as especulações e reflexões não foram tão desenvolvidas, e o ritmo de fuga do narrador, correndo para lá e para cá, bem que justifica a escolha de Tom Cruise – conhecido por estar sempre correndo nos filmes – em seu papel na adaptação cinematográfica mais atual da obra. Ainda assim trata-se de uma boa leitura, que impressiona pela grande imaginação de Wells, sua criação de referências e sua preocupação com os grandes desafios da humanidade moderna.

“Todo nosso trabalho desfeito, todo o trabalho… O que são esses marcianos?
– O que somos nós? – respondi, limpando a garganta.”

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13 comentários sobre “A Guerra dos Mundos – H. G. Wells

  1. Lua, dele só li “Maquina do tempo” e adorei aquela discussão. Achei o texto um pouco duro, mas valeu a pena demais. Agora, tenho muita vontade de ler “A ilha do dr. Moreau” e depois o Bioy.
    Bjo grande!

    1. Maira, o Wells tem um texto mais direto mesmo, mas aqui e ali ele alivia com algumas discussões que me agradam muito. A Ilha do Dr. Moreau é um livro bem diferente, muito intenso e com muito pano pra manga, leia sim! =)
      Beijinho!

  2. Ainda não li nada do Wells, Lua, não sei a causa! Preciso ler. Essa coisa de abuso de poder dos seres dominantes me lembrou O planeta dos macacos 🙂
    Ótima resenha!
    Beijos!

    1. Tati, você tem lido tanta ficção científica, entendo que ainda não deu pra ler o Wells, mas vale a pena conhecer, são livros bem simples mas você fica impressionada por ele parecer tão “moderno” pro século XIX, sabe? =)

  3. Li “A Ilha do Dr. Moreau” este ano e fiquei maravilhada. Quero muito ler outros livros do autor. Essa questão de espécie dominante, especificamente, me interessa muito. Acho que vou gostar desse também! 🙂
    beijo

    1. Mi, A Ilha do Dr. Moreau é um dos livros mais diferentes que já li, inclusive acho um tanto diferente dos demais livros do Wells, talvez seja o mais cheio de questões, ele trata de muita coisa nesse livro. Mas acho que o meu preferido dele é A Máquina do Tempo. =) Beijinho, Mi!!!

  4. Muito oportuna a lembrança do romance escrito em um tempo no qual achávamos que o maior perigo para o nosso mundo viria de outros mundos. Hoje sabemos que a maior ameaça para a continuidade do planeta está aqui mesmo na Terra. Abs Kovacs

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