O mensageiro – L. P. Hartley

interlunio26-mensageiroDurante a leitura de O Mensageiro, do inglês L. P. Hartley, três livros que li nos últimos anos me vieram à memória: Reparação, de Ian McEwan; Ciranda de Pedra, de Lygia Fagundes Telles; e O Sentido de um Fim, de Julian Barnes. Este último apenas pela proposta de fazer uma reflexão sobre a veracidade das nossas lembranças. Em ambos os livros os narradores, já com mais de 60 anos, ao rememorarem um momento crucial de seu passado, percebem que, ao longo do tempo, o que ficam são as emoções, as sensações que tivemos, que os fatos pouco importam, se não procurarmos por eles. No entanto, enquanto na obra de Barnes essa é uma questão levada até às últimas consequências, na de Hartley ela é apenas uma promessa inicial, levada de uma maneira bem sutil para quem estiver mais atento.

Leo Colston é um garoto de 12 anos que vai passar o verão na mansão Brandham, a casa de campo de seu rico colega de escola. O ano é 1900, e logo ele fará aniversário. Apesar de se sentir deslocado diante da família Maudsley, por sua condição social superior, Leo está empolgado com o local e as pessoas, que parecem tão perfeitas e mais interessantes que ele. Sobretudo Marian, por quem sente uma verdadeira adoração, uma jovem que está sempre preocupada em agradá-lo, ainda que com segundas intenções. Sua falta de jeito com as convenções da casa, suas roupas impróprias ao clima e ao ambiente, e as indiretas que recebe da família durante as refeições me lembraram de Virgínia, a heroína de Ciranda de Pedra. Assim como ela e tantos outros personagens de romances de formação, Leo quer fazer parte de um mundo que não é seu e as feridas que ficarão dessa desilusão juvenil vão ficar presentes para sempre.

Assim como Virgínia, Leo me lembrou Briony, de Reparação. Com muito mais inocência que ela, Leo também se envolve na vida de um casal e as consequências não são boas. Ele serve de mensageiro entre Marian, que possivelmente irá casar com um lorde, e Ted, um homem rude que trabalha como fazendeiro nos arredores da mansão. Inicialmente ele está feliz por agradar sua venerada Marian e não entende porque eles trocam cartas secretas, mas aos poucos ele vai descobrindo pistas sobre o que significa romance, sexo e falsidade. Leo se vê importante em seu papel de Mercúrio, como é chamado por um personagem, mas aos poucos, à medida que vai entendendo melhor o quanto isso afetará a vida de outras pessoas, se sente encurralado por encantadoras chantagens, às quais não consegue dizer não.

A inocência de Leo é comovente, afinal estamos falando de uma criança do começo do século XX, quando a infância era apenas um momento virtual, uma espécie de purgatório em que se espera chegar a um suposto paraíso, que seria o mundo adulto. Além disso, ele está em uma idade em que já não é mais tão criança, mas a maturidade ainda está muito longe. Quando Leo, já aos 60 e poucos anos, abre seu diário da época e relembra tudo que houve, tudo que por sua vida inteira tentou esquecer, ele se depara com a triste constatação de que algumas manchas não se apagam, e nesse sentido ele se compara ao próprio século XX, um século que já em sua metade se encontrava cheio de marcas, medos e culpas:

“— O século XX — perguntaria eu — fez muito melhor do que eu fiz? Quando você deixa esta sala, que eu admito ser estúpida e desanimada, e toma o último ônibus para sua casa no passado (se você não o perdeu), pergunte a si mesmo se achou tudo tão radiante quanto imaginou. Pergunte a si mesmo se ele cumpriu suas esperanças. Você foi derrotado, Colston, você foi derrotado, assim como o seu século, seu precioso século do qual você esperou tanto.”

Sobre a adaptação cinematográfica:
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O filme O Mensageiro, de 1971, dirigido por Joseph Losey, é uma adaptação extremamente fiel ao livro de Hartley, com ótimas atuações, tendo levado a Palma de Ouro em Cannes. Apesar de Julie Christie, então com 30 anos, ser muito velha para o papel de uma mocinha de no máximo 20 anos, ela consegue passar o espírito de Marian. Obviamente o que se perde aqui são as reflexões do narrador sobre tudo que acontece com ele, as considerações sobre memória, as consequências do trauma que ele sofre e o paralelo de sua vida com o século XX, mas fica clara a questão da perda da inocência e a dolorosa volta ao passado para fechar o que ficou suspenso.

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Esta leitura faz parte do Projeto Para ler como um escritor.

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4 comentários sobre “O mensageiro – L. P. Hartley

  1. Lua, esse livro parece incrível. Cheio de camadas. Adorei essa ideia dele se comparar ao século XX. Será que é difícil de encontrar?

    Um beijo enorme.
    Saudades.

    1. Maira, acho que é fácil de encontrar na estante virtual. O livro é bem legal, mas eu não gostei da tradução, sabe? Acredito que é um daqueles casos que o original deve dar mais prazer, pois a escrita do autor é muito elogiada. Beijinho!!!

  2. Eu preciso ler esse livro!! Você citou três livros que eu amo no começo da resenha e eu simplesmente sou fascinada por livros que falem de memórias! Fiquei um pouco desanimada com o seu comentário sobre a tradução, vou ver se consigo ler em inglês, até mais fácil de encontrar para o kindle.
    Beijos!

    1. Tati, se puder ler em inglês é melhor. Não é que a tradução seja exatamente ruim, mas é que o Hartley é conhecido por uma escrita maravilhosa, então acho que o tradutor não ficou à altura dele, entende? Em alguns momentos o texto é esquisito, dá pra notar que á problema de tradução. =/
      Beijo!

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