Estação Atocha – Ben Lerner

interlunio24-atochaAdam Gordon é um jovem americano que está em Madri por conta de uma bolsa de estudos e que no seu cotidiano de estudante estrangeiro se divide entre leituras, uso de haxixe e passeios pela cidade. Apesar de ser poeta, ele questiona-se enquanto tal e refere-se à poesia como uma forma de arte arcaica, sem valor para o mundo atual, e age como se não acreditasse no que faz, mas segue fazendo, sem saber ao certo o motivo. Aliás, Adam questiona cada ato seu, cada mínimo movimento de sua vida é pensado, analisado e muitas vezes criticado, para logo em seguida ser justificado, numa série circular de ponderações que faz o leitor ora incomodar-se ora identificar-se com ele.

“Eu nunca tinha viajado de trem, um meio de transporte tão arcaico quanto a poesia, pensei.”

Ben Lerner, e talvez aqui haja elementos autobiográficos, já que o autor também é poeta e foi bolsista na Espanha, nos coloca na cabeça de Gordon, através de sua narração em primeira pessoa e de fluxos de consciência bastante claros, e podemos nos sentir como alguém percorrendo as ruas de Madri no início do século XXI e ao mesmo tempo, como o próprio personagem faz consigo mesmo, nos vemos de fora, como alguém que estivesse observando a história de longe, analisando esses passos. Especialmente no início do livro, Gordon se vê sempre como um outro que tem a capacidade de se ver de fora. Ao longo da narrativa, no entanto, o personagem vai se tornando cada vez melhor no espanhol e vai se tornando cada vez mais ele mesmo, à medida que diminui essa autorreflexão, própria de quem se sente sozinho em um lugar que não é seu. Nesse sentido, podemos ver Estação Atocha como um romance de formação, já que Adam caminha para um novo estágio.

Os grandes questionamentos de Adam são em relação ao próprio fazer artístico, mais especificamente o fazer poético, já que é difícil justificar para o mundo qual o papel da poesia nos dias de hoje. E enquanto poeta ele procura fugir da hipocrisia, da atitude arrogante dos que se julgam artistas. Apesar disso, o personagem cai em uma série de pequenas mentiras para conseguir se sair bem nas situações sociais e profissionais a que é obrigado a passar, justamente por ser considerado um artista. Para isso ele inventa fatos sobre sua família, se apropria de histórias alheias, finge se emocionar com suas próprias invenções, tudo para criar uma fachada interessante que ele acha que não tem naturalmente.

“Esforcei-me para pensar nos meus poemas, ou em qualquer poema, como máquinas capazes de fazer eventos acontecerem, de mudar os governos, a economia, ou apenas a sua linguagem, e o conjunto das suas funções sensoriais, mas não consegui imaginar isso nem me imaginar imaginando isso.”

O autor consegue dar ao personagem a exata medida de um adulto jovem, alguém que embora já esteja pronto para pensar o mundo no que ele tem de mais abstrato ou profundo, ainda está conectado às aventuras da juventude. Isso fica mais claro com as relações que ele estabelece com os amigos que faz na cidade: Isabel, uma estudante que acaba se tornando sua namorada provisória, e Teresa e Arturo, jovens ricos que vão ajudá-lo na tradução e publicação de seus poemas. Em contato com eles, Adam se sente sempre inseguro, a despeito de suas intensas reflexões sobre arte, que reverberam apenas em sua própria cabeça. O que é mais narrado em Estação Atocha não são as ações, mas as reações de Adam, os acontecimentos internos do personagem, tentando compreender uma língua que não domina, o que lhe dá uma profunda sensação de solidão. Não solidão em um sentido melancólico, mas apenas a sensação de não poder transmitir os próprios pensamentos.

Historicamente o personagem é localizado no livro, em determinado momento, pelos Atentados de 11 de março em Madri, em 2004. Mas mesmo com a história acontecendo lá fora, são ainda os pequenos problemas pessoais que parecem falar mais alto. Adam é alguém que está sempre passando pela tangente, ilustrado pelo momento em que ele se esvai das manifestações que ocorrem na cidade, com a desculpa de que ali não é seu país. Para além de qualquer conclusão que o leitor possa chegar sobre ele, não há dúvida de que Adam é incrivelmente humano e seu autor não teme vendê-lo dessa forma.

“Quem não desempenhava de maneira ilegítima um dos poucos papéis pré-fabricados postos à disposição pelo Capital, ou como quisermos chamá-lo, mentindo descaradamente cada vez que dizia ‘Eu’, quem não atuava, pelo menos como figurante, no comercial informativo, reprisado obsessivamente, sobre as injustiças da vida?”

Estação Atocha traz uma bem-humorada reflexão sobre literatura e leitura, sobre como os acontecimentos históricos realmente refletem em nossas vidas, sobre a relação entre o tempo na arte e o tempo real, tudo isso uma maneira despretensiosa, que brinca com o pensar intelectual, sem negá-lo. Mas também se detém nas relações pessoais, na forma como divagamos sobre o que os outros sentem por nós, e como procuramos, nos olhares e atitudes do outro, pequenas pistas para encontrarmos algum espelho que nos reflita.

“Felizes eram as épocas em que o céu estrelado representava o mapa de todos os caminhos possíveis, épocas caracterizadas por uma integração social tão perfeita que, para conectar o herói à totalidade, não eram necessárias as drogas.”

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Escolhi e recebi este livro como cortesia da editora parceira Rádio Londres.

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2 comentários sobre “Estação Atocha – Ben Lerner

  1. Lua, cá entre nós, acho que esse livro tem um pé na biografia, não acha?
    Uma das coisas que mais gostei no livro foi a dificuldade que ele tinha com o espanhol. As pessoas gostavam mais do Adam quando ele não sabia falar bem a língua porque aí elas viam nele as reações que queriam. Achei isso genial! Acontece a mesma coisa com pessoas que falam pouco. Normalmente as pessoas gostam delas porque acham que estar calado equivale a concordar. Risos.
    E as frases de impacto que ele decorou para a mesa redonda? Me acabei de rir.
    Mas confesso que algo do livro não chegou em mim. Eu não compreendia algumas das reflexões mais profundas que ele fazia, principalmente as que envolviam o propósito da poesia.
    E também não sei bem se entendi aquele final. Conclui que o Adam só era uma fraude dentro da cabeça dele, mas não sei… Continuo achando que ele ganhou o dinheiro da bolsa na mamata.
    Beijo! ^_^

    1. Também acho, Duda, o autor deve ter aproveitado muito de sua própria experiência! Confesso que em alguns momentos me identifiquei com o Adam, especificamente com essa coisa de não acreditar muito em si, ou melhor, de não saber medir o próprio valor. Eu gosto de acreditar, e interpretei o final dessa forma, que o Adam não reconhecia sua qualidade como artista, que ele precisava do outro para construir sua própria imagem, enfim, ele é um perdido e acho muito corajoso fazer um protagonista assim, rs. Beijo!

Deixe um comentário e eu responderei aqui mesmo. Obrigada pela visita!

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