Os cavalinhos de Platiplanto – José J. Veiga

interlunio23-cavalinhosA maioria dos autores do chamado realismo mágico costuma comentar que suas histórias nada têm de mágicas, que o que ocorre de estranho nelas ocorre no cotidiano das pessoas, que tudo depende do ponto de vista do que é considerado ou não verdade, e com José J. Veiga não era diferente. Fantástica ou apenas realista, não importa: a literatura mostra apenas o que é possível e esse possível quanto mais amplo, melhor. Quem pode dizer o que é ou não real?

Em Os cavalinhos de Platiplanto, publicado em 1959, o possível vem na forma de dois mundos. As histórias quase sempre têm dois planos, dois lugares distintos por onde os personagens transitam. Algumas vezes um dos planos representam o outro lado, o desconhecido, o sonho ou a imaginação. É o caso dos contos “Os cavalinhos de Platiplanto”, “A Invernada do Sossego”, “A espingarda do rei da Síria” e “Os do outro lado”. No primeiro um menino deseja ganhar um cavalo do seu avô mas depois que este fica doente a promessa fica sem ser cumprida da forma que ele esperava. No segundo também temos um menino e seu irmão, quando têm que lidar com a morte de seu cavalo de estimação. O terceiro mostra a fantasia de um homem que perdeu sua espingarda e consequentemente foi perdendo o respeito de todos à sua volta. E no quarto um rapaz entra em uma casa misteriosa, depois de seguir uma borboleta, e lá entra em contato com o mundo dos que já se foram.

Esse outro lado, portanto, pode ser um refúgio interno, um consolo pela perda. Mas em outras vezes um refúgio externo também, como em “A Ilha dos Gatos Pingados”, em que um grupo de meninos encontra uma ilha para brincar e ela se apresenta como um lugar de paz para um deles, que apanha constantemente do namorado da irmã. Este conto tem uma atmosfera bem semelhante às aventuras de Tom Sawyer e Huckleberry Finn, e Silviano Santiago, no prefácio para essa edição da Companhia das Letras, comenta sobre sua semelhança com o poema “Infância”, de Carlos Drummond de Andrade e o romance Robinson Crusoé, de Daniel Defoe.

A infância, inclusive, toma de conta das histórias, e a criança, especialmente a criança menino, se encontra em situações em que deve se tornar adulta ou responsável por coisas sérias, mesmo quando ainda é muito cedo para isso. É o que ocorre em “Fronteira”, por exemplo, sobre um menino que acompanha pessoas pelos caminhos para que se sintam seguras e em “Tia Zi rezando”, em que os tios de um menino órfão escondem um segredo e farão de tudo para que ele nunca descubra. Da mesma forma em “Roupa no coradouro”, o conto mais emocionante da coletânea, um menino tem que lidar com a falta do pai, que está viajando, e cuidar da mãe, que acaba ficando muito doente.

Narrado sempre em primeira pessoa, os personagens do livro são pessoas frágeis, crianças ou homens sem poder, que se deparam com um outro superior e opressor. Agem segundo o desespero de não saber o que se passa em suas próprias vidas, de não terem controle até mesmo de suas escolhas, de não acharem espaço para a justiça, pois esta é reservada para poucos.

Não à toa essas histórias acontecem no campo, em fazendas ou cidades pequenas, lugares que remetem a uma vida mais primitiva. “A usina atrás do morro” é um dos contos que mais deixa clara essa condição de ignorância, impotência e opressão. Tem uma narrativa muito semelhante ao romance A hora dos ruminantes, em que moradores de uma pequena cidade se vêem cercados por pessoas de fora, que com um suposto progresso vão causando danos à população. Em um nível mais pessoal, o conto “Professor Pulquério” mostra um homem obcecado pela possibilidade de que haja um tesouro na cidade e acaba sendo marcado pela desconfiança e pelo desprezo. Já no conto “Entre irmãos” o estranhamento que vem do outro se revela entre dois irmãos que não se conhecem e que tentam conversar pela primeira vez. Mas é em “Era só brincadeira” que observamos o extremo da injustiça e da violência: em uma situação um tanto kafkiana, um homem se vê enredado por uma acusação que ele desconhece e a coisa é tão absurda que ele acredita que só possa ser uma brincadeira.

Mágica ou não, a literatura de José J. Veiga é antes de mais nada, crítica e reflexiva. Se as situações vividas pelos personagens parecem estranhas é porque a própria vida pode parecer ainda mais bizarra, sobretudo por conta da injustiça, seja em um nível social, seja nas relações pessoais. O autor nos mostra que o absurdo está mais presente no cotidiano do que nas fugas que inventamos para escapar dele.

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Escolhi e recebi este livro como cortesia da editora Companhia das Letras.

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4 comentários sobre “Os cavalinhos de Platiplanto – José J. Veiga

  1. Lua, você está me deixando muito curiosa para ler José J. Veiga. Só não entendi uma coisa. Como esse livro se compara a Robinson Crusoé?
    Beijo!

    1. Duda, até hoje os que achei melhores foram esse e o A hora dos ruminantes. Inclusive eu já tinha lido este há muito tempo mas lembrava pouco. Então se for começar, comece por um deles, acho que você iria gostar. =)
      Na verdade não é o livro, é apenas o conto “A Ilha dos Gatos Pingados”. Eu achei muito parecido com Huckeberry Finn pois esse personagem passa por coisas muito semelhantes a um dos meninos do conto. Mas segundo o Silviano Santiago (que faz um prefácio pro livro) este conto remete também ao Robinson Crusoé no sentido dos meninos fazerem seu próprio mundo numa pequena ilha. =)
      Beijinho!

  2. Pesquisava sobre a corrente literária OuLiPo – que desconhecia até então – e acabei achando seu blog.
    Ainda não compreendi a ligação deste encontro, mas me instigou a ler Veiga o mais rápido possível!
    Excelente artigo. Parabéns!

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