Um punhado de pó – Evelyn Waugh

interlunio12-handfulEm Um punhado de pó entramos em contato com o cotidiano de uma família inglesa nos anos 30, cuja casa, reformada de uma abadia gótica, representa tudo de mais precioso ao seu dono, Tony Last: tradição e valores da aristocracia britânica. Apesar das infinitas reformas e dos inúmeros criados tomarem todo o seu dinheiro, Tony não abre mão de suas lembranças e herança familiares. Quem não concorda com a situação é sua esposa Brenda, que depois de 8 anos vivendo no campo, numa casa que julga inútil, resolve se lançar a uma vida mais agitada em Londres, com direito a um amante e novos amigos.

Quando Tony finalmente descobre a traição e uma tragédia ocorre na família, um processo de divórcio é iniciado e aqui fica ainda mais claro o quão irônico é o autor, especialmente na fala de Brenda, que a todo instante disfarça seus erros colocando a culpa em Tony por tudo que lhe acontece. O egocentrismo de Brenda e de seu amante Beaver é tão absurdo que pode render boas risadas ao leitor.

É então que começa uma segunda parte do livro totalmente diferente da primeira. Tony faz uma viagem ao norte do Brasil acompanhando um explorador em busca de uma cidade perdida. O tom da história agora é outro, pois entre índios e uma selva desconhecida, o personagem precisa se preocupar apenas com a própria sobrevivência. Mas será que a distância fará com que esqueça Brenda? A situação-limite fará com que Tony demonstre alguma emoção, depois de tantos infortúnios aos quais sempre parece indiferente?

Esta parte do livro causa um certo desconforto, pois é uma grande quebra na coerência interna da narrativa. Apesar de estar passando por uma situação dolorosa, é difícil acreditar que Tony, um cavalheiro inglês acostumado a uma rotina em que o chá não pode deixar de ser servido na hora certa, tenha a disposição de adentrar a floresta amazônica em busca de uma ilusão. No entanto não há dúvida de que este momento é o mais envolvente da história e que dá aspectos originais a obra.

Com um final impactante, a despeito do resto da narrativa, que é geralmente arrastada e lenta, Um punhado de pó deixa uma impressão marcante no leitor, ainda que seus personagens não sejam nem de longe apaixonantes. Estão todos representando um papel voltado às convenções sociais, e a hipocrisia é a lei que rege esse mundo. Como se fosse um Fitzgerald inglês, Waugh faz uma crítica constante ao exagero dos prazeres, do dinheiro e das aparências: a mentira é valiosa, pois ela evita o grande monstro do constrangimento social.

________

Esta leitura faz parte do Projeto 100 melhores romances segundo a revista Time.

Anúncios

4 comentários sobre “Um punhado de pó – Evelyn Waugh

  1. Sua resenha ficou ótima, Lua, como sempre! Essa divisão do livro em duas partes me pareceu tão estranha… Pelo que você escreveu, parecem dois livros diferentes… Se fosse hoje em dia seria uma trilogia, não?
    Você acha que o livro entrou para a lista da revista Time por sua importância história? Pelo fato de expor hipocrisia da sociedade inglesa?
    Beijo!

    1. Sim, Eduarda, é estranho mesmo, mas não chega a ser uma continuação, sabe? É o mesmo livro, mas causa estranheza, embora o autor se esforce para ligar os dois mundos – Londres e a Floresta Amazônica. Essa sua pergunta foi ótima, também me perguntei isso e confesso que achei que o livro não merecia entrar para os 100 melhores (existe um outro livro do autor, que também está na lista e é considerado melhor), mas considerando que se trata de uma lista de livros escritos em inglês e do século XX, já limita muito. Além disso, imagino que posso ter perdido muita coisa pois todo mundo fala do quanto esse livro é engraçado e eu não achei tanto assim, talvez por minhas limitações ou talvez porque o tradutor não tenha trabalhado tanto isso. Mas acho que o final marcante também contribuiu para o livro ser lembrado. =)
      Beijo!

      1. Talvez o livro faça mais sentido para os ingleses, Lua. Normalmente essas listas escolhem livros historicamente ou politicamente marcantes. Às vezes o livro foi publicado “na hora certa” e tornou-se um marco, mas perdeu o sentido para o leitor moderno. O livro só faria sentido em um determinado contexto ou em uma determina região. Eu sempre penso nisso quando assisto O Auto da Compadecida. É um filme/peça que fala muito para mim e para os nordestinos em geral, mas que eu duvido que signifique tanto para as outras regiões do Brasil e muito menos para um estrangeiro. A mesma coisa acontece com Jane Austen. As pessoas dizem “parece novela da Globo”, mas esquecem que o livro é do Século XIX.
        Quanto ao livro ser engraçado, às vezes na tradução as brincadeiras com as palavras e as ironias se perdem. Já me disseram que os livros do Terry Patchett são super sem graça em português. E em menor escala acontece também com O Guia do Mochileiro das Galáxias. Algumas piadas se perdem na tradução…

        1. Exatamente, Duda! Eu pensei nisso, por isso comentei que poderia ser por minha limitação de conhecimento de coisas muito específicas da cultura inglesa. Mesmo assim, fico pensando em clássicos como Cem Anos de Solidão, que falam a tanta gente, sabe? Esse do Waugh é mais específico mesmo, até a parte do Brasil me pareceu distante, rs. Beijos!

Deixe um comentário e eu responderei aqui mesmo. Obrigada pela visita!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s