Minotauro – Benjamin Tammuz

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Um homem de 41 anos vê uma moça num ônibus e a reconhece como alguém por quem esperou a vida inteira. Ela passa a receber cartas anônimas dele e algum tempo depois tem oportunidades de respondê-lo. A correspondência dura vários anos, e ele não tem intenção de se identificar, ainda que esteja claro que os dois se amem. Que mistérios esse homem guarda que não podem ser revelados à mulher amada para que possam, enfim, se encontrar? Como um amor idealizado se sustenta diante da vida real que perpassa esses dois personagens?

A resposta é guardada por Alexander Abramov, o grande personagem do livro, filho de dois amantes da música que acabam escolhendo morar na Palestina. Nascido no início do século XX, ele atravessa seus anos sempre em volta de alguma guerra e é através da participação direta nestas guerras que foge do seu mundo pessoal, já que por inúmeros motivos não pode viver o que deseja, pois em um primeiro momento não encontra seu sentido para a vida. É uma figura grandiosa, mesmo quando ainda menino, e romantiza cada momento da existência. Por esperar apenas a perfeição daquilo com que se importa, prefere não viver de qualquer jeito. Para ele a felicidade não é possível porque a vida não permitiu que as coisas fossem perfeitas. A vida só tem sentido enquanto experiência estética absoluta, e portanto é necessário fugir do mundano, do perecível. Então, mesmo um dia encontrando Téa, o motivo pelo qual estava procurando, as circunstâncias que dificultam uma convivência com ela têm o enorme poder de distanciá-los.

Téa é uma jovem inglesa de cabelos acobreados e olhos castanhos e representa, como seu próprio nome revela, uma divindade para os homens de sua vida, a mulher idealizada e idolatrada, capaz de conferir sentido e conforto. Talvez o amor de Téa por um estranho que nunca viu soe inverossímil para alguns leitores, mas há que se considerar que aqui nesta história o mais importante são os símbolos que ela evoca, o amor pelo impossível, pela beleza, pelo ideal acima de qualquer coisa. Eles se conectam através desse mundo sonhado, perfeito, estabelecido pelas cartas. E embora ela se envolva com outros homens, e todos eles a vejam como uma deusa inatingível e sejam igualmente vítimas desse amor idealizado, Téa está presa a Alexander, a essa história cheia de possibilidades que não se concretizam, esse abismo da qual ela não consegue cair nem sair de sua beirada.

O escritor israelense Benjamin Tammuz constrói em Minotauro uma estrutura inusitada e bem montada, com uma escrita simples mas muito apurada nas passagens de reflexão do protagonista, sobretudo na última parte do livro, em que as descrições são mais cuidadosas e há um esmero maior com as imagens que vão sendo criadas. O livro passa por diversos gêneros, iniciando como romance epistolar e terminando como romance de espionagem. Tendo lido recentemente O espião que saiu do frio, de John Le Carré, não pude deixar de identificar a figura clássica do agente secreto amargurado, o tipo psicológico atormentado que escolhe essa profissão para fugir das dores da realidade insuportável.

É daqueles livros que quando termina você deseja voltar ao começo e retomar o fio. Uma leitura envolvente, que ata o leitor a um labirinto em que cada passagem pelo caminho faz com que ele descubra mais sobre a história e veja os mesmos muros diversas vezes até encontrar a saída.

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Escolhi e recebi este livro como cortesia da editora parceira Rádio Londres.

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6 comentários sobre “Minotauro – Benjamin Tammuz

  1. Lua, estou muito ansiosa para ler esse livro, mas estou tendo dificuldades para achar. 😦
    Estou lendo Stoner e gostando muito. É uma narrativa tão delicada que é como se tocasse uma música ao fundo. Lindo ♥

    1. É mesmo, Maira? Faz um tempinho que não vou em livraria física, não vi se os livros da Rádio Londres são fáceis de encontrar por aqui, mas você deve achar online. Estou louca pra ler Stoner, será o meu próximo com a editora. =) Beijo!

  2. A Rádio Londes está publicando uns livros bem diferentes, né Lua? Esse Minotauro parece ser incrível e de Stoner só escuto elogios.
    Beijo!

  3. Lua que resenha incrível, é impossível não querer ler o livro depois dela.

    Rádio Londres mandando muito bem nos títulos escolhidos em suas publicações.

    Sobre Stoner é um livro excelente, podem ler sem medo.

    Hug

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