Dois Irmãos – Milton Hatoum

interlunio-doisirmaos_02Uma famosa parábola bíblica [Lucas 15:11-32] conta que um filho volta à casa arrependido depois de ter desperdiçado sua herança, exigida antes mesmo do pai morrer. O irmão mais velho, que sempre ajudou o pai, fica ressentido por vê-lo perdoar e receber o irmão mais novo com festas. O pai argumenta que o amor vence todas as coisas. Ao iniciar a história de Yaqub e Omar, podemos pensar em um primeiro momento que Dois irmãos quer recontar a parábola do filho pródigo, mas o romance de Hatoum vai muito mais longe que isso, pois leva essa dualidade mérito e justiça versus amor e perdão às últimas consequências.

Zana e Halim são libaneses morando em Manaus na década de 40. Com uma história de amor iniciada por causa de um poema, acabam casando e tendo 3 filhos, os gêmeos Yaqub e Omar, e uma menina chamada Rânia. Com eles mora Domingas, uma órfã índia que lhes serve de empregada e cujo filho, de pai desconhecido, também acaba trabalhando na casa. Este filho é o narrador da história, que conhece os segredos da família através da mãe e dos desabafos de Halim. Algumas vezes o mesmo episódio é contado de maneira diferente pois ele conta as diversas versões que ouviu.

“Muita coisa do que aconteceu eu mesmo vi, porque enxerguei de fora aquele pequeno mundo. Sim, de fora e às vezes distante. Mas fui o observador desse jogo e presenciei muitas cartadas, até o lance final.”

O filho de Domingas deixa bem marcado todo o antagonismo entre os irmãos gêmeos e a sua rivalidade, nascida da preferência de Zana por Omar e da indiferença de Halim, que não desejava ter filhos. Ele mostra o quanto são opostos, um mais tímido, outro mais atirado; um mais sério, outro mais aventureiro, num jogo de espelhos em que cada um é o torto do outro. Um vive para provar ao outro que é superior, que pode fazer o que o outro não pode.

Por Yaqub Zana parece sentir apenas orgulho, por Omar, um amor doentio. Não à toa Yaqub é praticamente criado por Domingas e, depois de uma briga entre os dois irmãos, é Yaqub que é enviado ao Líbano com 13 anos de idade, o que o deixa com uma marca perene de filho enjeitado. Com o tempo, Yaqub já no Brasil torna-se engenheiro e vai morar em São Paulo. E assim ele encontra sua força: ele permanece na família como um retrato na parede da sala, sempre perfeito. A sua ausência o transforma num ídolo. Enquanto Omar segue sua vida de farrista, sem trabalhar, mimado pelas mulheres da casa e ainda assim o mais amado pela mãe, o que causa o distanciamento de Zana e Halim.

“Naquela época, Yaqub e o Brasil inteiro pareciam ter um futuro promissor.”

Passeando pela história dessa família também entramos em contato com um pouco da história do país, a interferência do regime militar no cotidiano e sobretudo com a história e a geografia de Manaus do século passado, com seus rios, portos, praças, bairros como a Cidade Flutuante, e suas ruas repletas de estrangeiros. Mas a sensação que fica é que estes personagens estão em outro plano, que suas vidas pessoais são maiores que o mundo, que a tragédia diária de irmãos que se odeiam, de um casal que se distancia, de uma solidão abafada ou de uma vida escrava que não sabe fugir, gritam mais alto que tudo. A recompensa pelo esforço parece nunca chegar. Assim como na parábola, o que vai vencer é o amor e o perdão, mas quais serão as consequências dessa escolha e quem pagará por isso? Ao contrário da história bíblica, não há lugar para arrependimentos, afinal Omar não é o filho pródigo que volta arrependido, ele é o filho pródigo que volta todas as noites apenas para descansar.

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8 comentários sobre “Dois Irmãos – Milton Hatoum

    1. Mi, apesar de há muito tempo não assistir nada de tv aberta, espero que façam uma boa adaptação, quero ver. Provavelmente será muito tarde da noite e não vou conseguir, mas se tiver outra maneira de assistir… =D

  1. Lua, faz tempo que quero ler algo dele e ando bem sensínvel com esse assunto de irmãos. Chorei litros em Frozen, ahaha. Adorei seu texto e acho que vou colocar o livro no Desafio do Livrada que estou pensando em participar 😉
    vj
    bjos!

    1. Maira, acredita que ainda não vi Frozen? Devo ser a única pessoa no mundo, hahahaha! Mas ultimamente não tenho visto nada mesmo de cinema, o tempinho que tenho dou prioridade às leituras. Também estou pensando em participar do desafio do Livrada, mas ainda não parei pra me organizar. =)
      Beijinhos!

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