Middlesex – Jeffrey Eugenides

51_middleMiddlesex é um romance que abarca tantas categorias e discussões que fica difícil começar a apontar todas. Mistura de romance de formação com saga familiar, é um livro que retrata a descoberta da identidade de Cal ou Calíope – primeiro como menina, depois como homem, mas sendo biologicamente os dois ao mesmo tempo – não sem antes contar em detalhes a história da sua família, os Stephanides, começando por seus avós gregos, nascidos na Turquia, que fogem para os Estados Unidos após o grande incêndio de Esmirna, em 1922. A partir daí acompanhamos vários fatos do século XX do ponto de vista destes avós, e depois de seus pais, que vão encontrar em Detroit um novo lar, ainda que não consigam se distanciar muito de suas raízes. Somente na segunda parte do livro o protagonista vira realmente protagonista e toma a atenção para a questão da sua intersexualidade:

“Sou a oração subordinada final de uma longa sentença que começa há muito tempo, em outra língua, e vocês precisarão lê-la desde o início para chegar ao fim, que é quando entro na história.”

Metade da narrativa, portanto, contempla as origens de Cal: vemos como seus avós, Desdêmona e Esquerdinha, tiveram que lidar com um segredo que vai afetar a vida de todos mais tarde; vemos seus pais, Milton e Tessie, se apaixonarem e repetirem uma tendência familiar de casar entre parentes; vemos todos os dramas, cômicos ou trágicos, de uma família estrangeira tentando se adaptar a uma nova realidade e vemos a infância e o início da adolescência de Cal como menina, de certa forma não muito diferente da de qualquer uma outra.

Assim como Desdêmona e Esquerdinha, que ao chegarem na América interpretavam as novidades com correspondentes na mitologia e na cultura grega, o autor trespassa a narrativa com essas referências, a começar por uma Invocação da Musa, típica do início das obras épicas gregas, em que o escritor pedia por inspiração. Passa também por mitos como Terésias e o Minotauro, criaturas duplas que representam a figura de Calíope (ela própria a musa da poesia épica). A duplicidade, aliás, está por todo o livro: masculino/feminino, tradição/ciência, natureza/criação, Velho Mundo/Novo Mundo, enfim, é uma história repleta de quimeras.

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★★★★★ | Companhia das Letras, 2014

Cal é então esse personagem com aura mítica, essa quimera capaz de assustar mas com o poder de ter a experiência dos dois gêneros. Ele tem a consciência real de ser uma mulher para depois descobrir-se homem e se ver praticamente liberto das amarras femininas. E sua experiência nos traz velhas e grandes perguntas: o que exatamente significa ser homem ou mulher? Qual o papel cultural e qual o papel dos órgãos genitais na formação de nossa atitude perante o mundo? O que é destino e o que é livre-arbítrio na sexualidade? Para Cal, inevitavelmente seu gene recessivo do quinto cromossomo definiu o que sua vida ia ser, dentro do mundo em que ele nasceu, mas não só isso, afinal essa é uma história de herança não apenas genética, mas também de como levamos para frente os costumes de nossos ascendentes.

“Viver conduz a gente não ao futuro, mas ao passado, à infância e a antes do nascimento, até, enfim, a comunhão com os mortos. A gente envelhece, sobe as escadas ofegante, entra no corpo do pai. Dali, é só um pulinho até os avós, e então, antes que se dê conta, está viajando no tempo. Avançamos para trás nesta vida.”

Acima de todas as discussões que traz, e não à toa vencedor do Pulitzer de 2003, Middlesex é um livro envolvente e divertido, com algumas situações quase inverossímeis, que beiram o realismo mágico, e que dão à narrativa um tom cômico e leve. Jeffrey Eugenides tem uma escrita clara, mas ao mesmo tempo rica e bonita, e consegue grandes efeitos com suas mudanças de ponto de vista entre primeira e terceira pessoa, especialmente quando coloca o narrador Cal quase como onisciente, na mente de seus pais e avós antes mesmo de ter nascido. Com suas descrições perfeitas e seu enredo genialmente entrelaçado, é possível ouvir os sons, as vozes dos personagens, visualizar o tempo indo e voltando em flashbacks e flashforwards, sentir os cheiros das espeluncas frequentadas por Esquerdinha e sentir o sabor da fina massa de galactobourekos de Desdêmona estalando no céu da boca.

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*Escolhi e recebi este livro como cortesia da editora Companhia das Letras.

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10 comentários sobre “Middlesex – Jeffrey Eugenides

  1. Lua, feliz natal!
    Nesse final de ano fiquei na dúvida se comprava “graça infinita”, “middlesex” ou “davis copperfield” e não comprei nenhum. Mas se pudesse leria tooodos! 😀
    beijo grande!

  2. Lua,
    suas resenhas são sempre ótimas, mas queria dizer que essa me arrepiou! AMEI!!!!
    “Para Cal, inevitavelmente seu gene recessivo do quinto cromossomo definiu o que sua vida ia ser, dentro do mundo em que ele nasceu, mas não só isso, afinal essa é uma história de herança não apenas genética, mas também de como levamos para frente os costumes de nossos ascendentes.” Penso igual, minha linda!!!!! (como amo ver suas impressões de leitura e me identificar tanto!!!! ;))))
    Eu gostei muito da leitura; do quase realismo mágico dele (Desdêmona é demais! E os rolos todos/cenas mais que cômicas em família que são característicos de obras como do Gabo! E as coisas estapafúrdias como o incêndio do Restaurante: aquela cena TODA é incrível demais!); da construção dos personagens. Outra coisa que gostei demais foram as referências dele: históricas, literárias e cinematográficas (amei especialmente Obscuro Objeto, mas tb as literárias como James, Tolstói e outros que não lembro agora!!!).
    Só o que não gostei muito foi o tanto que ele demora para começar sua própria história….
    Beijos!

    1. Dê, que bom que gostou! A gente se identifica na grande maioria das vezes em nossas leituras, não? Muito legal isso!
      Também amei todas as referências que ele faz, são tantas que provavelmente perdi algumas.
      Estava comentando com a Mi Gimenes que a Desdêmona me lembra muito a Úrsula (e não vou dar spoiler aqui nos comentários mas você reparou que elas duram mais ou menos o mesmo tempo? rs)
      Essa coisa dele demorar a contar a história eu gostei, apesar de causar um certo estranhamento de início, mas acho que tem tudo a ver com a proposta do livro pois o argumento é de que a história dele é também a história dos avós e dos pais. A única parte que não gostei tanto foi justamente SPOILER quando ele fica sozinho, longe da família, mais pro final do livro. Achei que ficou muito diferente a narrativa sem os malucos todos da família por perto. FIM DO SPOILER
      Beijinho, querida Mercedes! =)

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