O paciente inglês – Michael Ondaatje

43_paciente2Mais conhecida por sua adaptação para o cinema, que foi Oscar de melhor filme em 1996, a história de O paciente inglês inicia com o encontro de quatro personagens em uma villa na Itália depois que a Segunda Guerra acaba na Europa. Após servir como hospital, o local fora abandonado, exceto pela jovem Hana, uma enfermeira canadense que perdeu o pai e o namorado recentemente. Ela insiste em ficar com seu misterioso paciente, um homem com o corpo inteiramente queimado, que não teria condições de ser deslocado. Chega em seguida Caravaggio, um amigo do pai de Hana, que tem intenção de convencê-la a partir, ao mesmo tempo que tenta descobrir a identidade do paciente. Em determinado momento une-se ao grupo o indiano Kip, um sapador que está desmontando bombas na região.

Os personagens acabaram de sofrer muitas perdas devido a guerra e nesta villa isolada do mundo lá fora eles vão sobrevivendo e convivendo, cada um ajudando a limpar as feridas do outro. Kip tem um especial papel de cura para eles, especialmente para Hana, de quem se torna amante. Para o Paciente Inglês ele se torna um amigo e, apesar de seu caráter de isolamento, necessário para sua profissão, é Kip quem dá um caráter de família a esse quarteto. Uma história de amor é vivida e outra contada. Aos poucos sabemos o que ocorreu com esse paciente, como ele sofreu o acidente que o queimou no deserto e como ele viveu um romance que acabaria destruindo muitas vidas.

O enredo é construído, de certa forma, de trás para frente: você conhece a situação presente dos personagens, o autor volta um pouco no tempo, conta o passado recente e aos poucos vai entrando mais e mais no passado de cada um. Como usou fatos reais e se baseou em alguns personagens históricos para montar sua ficção, Ondaatje costura no texto algumas citações, refere-se a canções, poemas, textos técnicos sobre bombas e sobre exploração no deserto, e cria uma colcha de retalhos que pode ser confusa em alguns momentos, mas que pode funcionar para quem estiver mais atento. Em alguns momentos sua escrita é agradável, traz imagens bonitas, em outros parece um pouco artificial, pesada. A adaptação para o cinema foi muito bem realizada e em vários aspectos é até mais verossímil que o livro, mas infelizmente deu muita importância ao personagem Caravaggio, que a meu ver é quase dispensável, e acabou tirando muito a força de Kip. O foco do filme é na verdade no romance vivido pelo Paciente Inglês antes do seu acidente, ainda que Juliette Binoche com sua Hana roube a cena.

O que me agradou mais nesse livro foi a relação dos personagens enquanto estão vivendo na villa. Agradam-me histórias em que os personagens estão em situações “fora do sistema”, fora da sociedade. Vivem um dia de cada vez, numa rotina que interessa apenas à sobrevivência e ao encontro com o outro. Os relatos do passado, mesmo os relacionados ao Paciente Inglês, que são maioria na obra, com uma ou outra exceção não me emocionaram tanto. Gostei também de o autor ter estabelecido que vários personagens tivessem uma espécie de livro sagrado, um livro preferido que poderia servir também como caderno de anotações, usando as páginas brancas. Histórias de Heródoto, Anna Karenina, Rebecca, O último dos moicanos são alguns exemplos de livros pessoais dos personagens.

De uma maneira mais ampla, é um livro sobre pessoas que estão fugindo de sua identidade, que em um mundo de guerra não querem dar importância a nacionalidade, ao passado, às origens, ainda que estas características estejam sempre as perseguindo. São vidas ainda um tanto perdidas, com muitas ruínas por limpar. Querem construir uma vida qualquer longe do sofrimento, embora chegue uma hora em que o mundo acaba gritando muito alto e eles finalmente terão que ouvir.

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4 comentários sobre “O paciente inglês – Michael Ondaatje

  1. Que belíssima resenha, Lua!

    Tenho muito interesse em obras que de alguma forma focalizam a Segunda Guerra. Acho que a humanidade dos personagem que fazem resistência a algo tão indiscutivelmente desumano fica bastante evidenciada.

    Aliás, fiquei com vontade de ver o filme também…

    Um grande abraço.

  2. Li esse livro e assisti o filme há alguns anos para um trabalho de faculdade, onde essa obra seria uma “releitura” de Prometeu Acorrentado. As semelhanças são incríveis! Depois do seu post, me deu vontade de reler as duas obras e rever o filme!

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