O jogo da amarelinha – Julio Cortázar

39_amarelinhaSerá possível ler um livro como O jogo da amarelinha sem se deixar contaminar pelo peso de um clássico que revolucionou o gênero do romance? Depois de mais de 50 anos de sua publicação talvez seja possível, pelo menos, tentar fazer uma leitura mais distante e menos preocupada, mas me pergunto se é possível apreciar profundamente o livro sem ter o mínimo de interesse pelo estudo dos aspectos formais da Literatura. Pois aqui não basta a história que é contada: importa ainda mais como ela é disposta e como o leitor preenche suas lacunas. E essa é a dificuldade do romance – ou do antirromance, como pode ser considerado – pois o leitor é praticamente chamado para ser escritor também. O leitor aqui é “um cúmplice, um companheiro de viagem”. Como em um sonho, onde há histórias embaçadas e símbolos que devem ser interpretados, o livro é um jogo a ser explorado:

“Uma narrativa que atue como coagulante de vivências, como catalisadora de noções confusas e mal-entendidas, e que incida em primeiro lugar sobre aquele que está escrevendo, para o que é preciso escrevê-la como antirromance.”

Um livro que pode ser lido segundo várias direções e que, portanto, quebra com a ideia de enredo, realmente pode ser considerado um antirromance, no entanto, Cortázar propõe dois caminhos e em ambos podemos ver uma trama formada, encerrada nos 56 primeiros capítulos, os únicos lidos na ordem. A história de Horacio Oliveira, um homem em seus quarenta anos, argentino vivendo em Paris, tentando encontrar ou tentando fugir de algum sentido para a vida através de suas reflexões e interações com os amigos e amantes. Ele faz parte do Clube da Serpente, um grupo formado por artistas e intelectuais que se reúnem para as mais variadas discussões ao som de jazz. Entre eles está Maga, sua namorada, uma mulher sábia e misteriosa, mas vista como tola pelo grupo.

Como seu protagonista, o livro não oferece muita ação. Principalmente na primeira parte, “Do lado de lá”, os personagens geralmente estão dormindo, sonhando, estão deitados ou fazendo sexo, ouvindo música, fumando ou bebendo, andando a esmo; são pessoas em seus momentos mais mentais que físicos. Já na segunda parte, “Do lado de cá”, temos um pouco mais de ação através de tudo que envolve os personagens Traveler e Talita, mas no geral a narrativa é mais interna. Os capítulos restantes, do 57 ao 155, que compõem a terceira parte, “De outros lados”, e que segundo o próprio autor são prescindíveis, são completamente diferentes entre si, como se fossem páginas e notas excedentes que poderiam ter ido para a gaveta, mas que foram anexadas ao romance. Isso não quer dizer que estes capítulos sejam realmente uma espécie de apêndice, pois sem eles o livro não seria o que é. Afinal é através destes capítulos que Cortázar faz suas experimentações.

É nessa parte do livro que o leitor vai encontrar os mais variados textos: capítulos extras, que podem explicar ou desenvolver melhor histórias do livro principal, anúncios de jornais, citações de livros, experimentações de linguagem… mas sobretudo reflexões sobre a própria obra, através da figura de Morelli, um escritor admirado pelo Clube e que se propõe a escrever um antirromance. Durante a leitura vamos entrando em contato com suas teorias e como ele defende uma literatura que seja escrita para um leitor superior, aquele que seja capaz de fazer companhia ao autor na construção da obra mesma. Uma obra que seja figurativa e não descritiva, objetiva – não à toa há muitas discussões sobre Pintura versus Literatura –, uma obra que se aproxime mais da imagem e do som (da Música) e se afaste da descrição literária, algo que os beatniks americanos já haviam tentado de outra forma:

“Morelli parece muito mais radical e mais jovem nas suas experiências espirituais que os jovens californianos, embriagados por palavras em sânscrito e cervejas em lata”.

É também nessa parte que se desenvolvem questões metafísicas encontradas ao longo da história de Oliveira e que justificam a maneira particular escolhida pelo autor para escrever seu romance e desenhar seu protagonista. Se não sabemos o que é real e se não sabemos se a nossa percepção do real não é uma ilusão, a imaginação e o surrealismo então têm todo o direito de tomar conta da vida e da arte. Não adianta buscar um mundo perfeito porque o perfeito não dura, pois somos seres históricos. A verdade só pode residir na ficção, na cultura, na arte, na invenção:

“A nossa verdade possível tem de ser invenção, ou seja literatura, pintura, escultura, agricultura, piscicultura, todas as turas deste mundo.”

Toda essa problemática é legítima, válida e por vezes, instigante, contudo a vida que Oliveira leva a torna vazia e improdutiva. Como a própria Maga explicita, ele apenas observa a vida e não a vive, e uma vida apenas observada, não vivida, fala muito pouco ao outro.

Por essa e outras foi uma leitura que me deixou dividida. Por um lado consegui ver a genialidade e a proposta da obra, emocionei-me com belos capítulos e me empolguei em vários momentos, sobretudo na primeira metade da experiência. Porém por outro me revoltei com o elitismo, a arrogância do livro que é escrito para poucos escolhidos, algumas “brincadeiras” literárias que não acrescentam muito, o excesso de recursos aparentemente aleatórios. Talvez uma releitura fosse mais prazerosa, pois é daqueles livros em que seu estudo pode ser mais divertido que a própria leitura, mas ainda assim eu provavelmente continuaria a me incomodar com essa ideia de que para ser profundo um personagem tem que ser tão passivo e esvaziado. Uma grande experiência de leitura, sem dúvida, mas que deixou-me com um certo fastio desse longo e estridente improviso de clarinete tocado por Cortázar.

*Esta leitura participa da discussão do Leituras Compartilhadas, do blog O Espanador, bem como é o livro do mês de agosto do Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

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20 comentários sobre “O jogo da amarelinha – Julio Cortázar

  1. Uau! Ótima resenha, Lu!
    Resumiu bem sem entregar o ouro, o que é difícil visto que o enredo é essa coisa fugidia, como vc bem o disse.
    A pretensão de obra para iniciados me irritou bastante e achei a segunda parte mal feita e modorrenta, rsrs. E, sim, é um ótimo livro para estudo, parece ter sido feito especialmente para estudantes de letras, hehe.
    Há, sim, algumas passagens e capítulos belíssimos, mas, no meu caso, o artifício monumental sobrepujou o prazer da leitura. Uma pena!

    Beijinhos!

  2. Como eu disse lá no blog da Line, o livro pode não ter sido tão bom, mas com certeza rendeu incríveis resenhas!!! Essa pretensão dele que você cita também me irritaria muito com certeza, principalmente quando você percebe que é algo proposital. Entendo o caráter inovador, mas me pergunto se é inovação mesmo quando o livro precisa ficar restrito a alguns meios… Não sei. Na psicanálise eu passo muito por isso: de um lado tem Freud, que fez de tudo para facilitar a vida de quem está lendo, sendo que na época nem consideravam o que ele escrevia científico (apesar de ele querer que fosse) porque era muito acessível para qualquer pessoa. O único prêmio que ele ganhou na vida foi de literatura. Do outro, Lacan, uma pessoa que fez de tudo pra dificultar a vida de quem está lendo… Quer dizer, nem sei se ele queria leitores, porque nunca escreveu nada, os seminários eram gravados e transcritos por outro psicanalista. E Lacan é conhecido pela vaidade excessiva e por isso é muito rechaçado na psicanálise. Eu sinceramente prefiro aqueles que são revolucionários na simplicidade rsrsrs Mas um dia, quando estiver aposentada, pego pra ler esse tal de Rayuela!
    Beijos!

    1. Tati, esse é aquele tipo de livro que a gente tem medo de não gostar porque é tão “sagrado” que se você não gostou é porque não entendeu. Eu também acho que para ser gênio não precisa ir para esse lado. Veja Cem Anos de Solidão, um livro perfeito e genial que tem o poder de abarcar os mais variados tipos de leitor. Beijinho! 😉

      1. Com licença! Me metendo na conversa, rs…
        Tatianne e Lua, creio que alguns escritores escrevam de maneira difícil por vaidade e outros não, mas também sou da opinião de que para criar uma obra incrível não é preciso de um texto pomposo 😉 Bjs!

        1. É verdade, Lulu. Em alguns casos o escritor é tão erudito que sai naturalmente e não há como evitar (nem ele deveria), mas no caso deste livro – e nem falo da obra do Cortázar, mas só deste livro mesmo – ele realmente tinha a intenção de escrever para poucos e não é que o livro seja tão difícil mas ele não é lá muito objetivo, por sua própria proposta de não ser, e isso me desanima, sabe? Em outros tempos talvez eu até me animasse e achasse incrível me perder nesse labirinto dele, mas ando meio cansada dessas coisas, rsrs. =D
          Beijo!

  3. Que agudeza de percepção, lucidez e maturidade em sua análise do livro do Cortázar que, apesar de eventuais tropeços, foi um grande escritor. Se estivesse vivo faria cem anos em 2014.

    Eu ainda sou um leitor que gosta de enredo. Certamente não sou um “leitor superior”. E compartilho sua oposição à literatura “que é escrita para poucos escolhidos”

    A realidade é que, nesta época agitada, de tanta correria e compromissos (muitos dos quais fúteis), em que não tiramos mais os olhos dos smartphones, não conseguimos o tempo tranquilo para aprofundar em leitura que exija reflexão e absorção, da qual saímos mais ricos.

    Porém, há mesmo que fazer como você: ora vegetariana, ora carnívora, num momento leitura leve, noutro, leitura “pesada” que demanda profundidade.

    Parabéns por seu trabalho. Nunca deixo de ler o post e o aguardo com ansiedade.

    Onivaldo Paiva (onivaldopaiva@hotmail.com)

    Date: Fri, 22 Aug 2014 02:38:58 +0000 To: onivaldopaiva@hotmail.com

    1. Puxa, obrigada, Onivaldo! Sem dúvida Cortázar é um grande escritor. Apesar de não parecer, eu gostei do livro, só não me apaixonei por algumas escolhas, como comentei e quero muito conhecer o restante da obra dele, até porque acho que essa não é a melhor obra para começar a lê-lo. Tenho certeza que encontrarei um livro que irá me agradar mais. Abraço! =)

  4. Lua, que resenha incrível! ❤ Como a Aline comentou: resumiu bem sem entregar o ouro.
    Eu gostei muito de O Jogo da Amarelinha mesmo não entendendo partes do “De outros lados”. Como não estudiosa da área de literatura boiei em alguns momentos. Mas me envolvi demais com a narrativa (“Do lado de lá” e “Do lado de cá”). Pela estrutura do romance, acredito que Amarelinha seja direcionado tanto para leigos quanto para estudiosos. Enfim, acabei não comentando nas minhas impressões meu incomodo do Cortázar se referir ao leitor inferior de leitor-fêmea =/
    Beijão, Lua!

    1. Lulu, eu acho que é um livro instigante em relação ao jogo e tudo mais mas acho que a proposta do Cortázar nesse livro ficou um pouco datada. O bom é que o livro tem partes muito bonitas. Quando ele trabalhou mais como escritor foram os momentos que o leitor mais ganhou e acho que isso é que leva a obra pra frente. Mas desconfio que ainda vou gostar mais de outros livros. =D
      Beijos, Lulu!

  5. Lua, sua resenha ficou incrível! *_* Ironicamente, ela também me desestimulou a ler o livro. Se tem uma coisa que eu detesto é gente que vive em torre de marfim. Infelizmente, na minha profissão isso é o que não falta (acho que você consegue imaginar). Até hoje lembro do prefácio de O Anticristo, de Nietzsche, em que ele diz que o livro dele é só para leitores selecionados e especiais. Acho que por trás disso existe um fator de exclusão social muito grande. Do jeito que a coisa é colocada, parece que a compreensão do livro exige uma inteligência excepcional quando na verdade ela exige uma educação formal e elitizada que não é oferecida para todos.
    Torres de marfim à parte, talvez a passividade do Horácio e a falta de ação do livro sejam alegorias para a falta de sentido da vida humana, não? Não li o livro, mas fiquei imaginando que é bastante original um livro sobre uma vida como qualquer outra, sem grandes peripécias e aventuras. Senti um pouco disso com a Carson McCullers.
    Beijo, Lua! Admiro demais seu jeito de escrever descomplicado e para todos!

    1. Obrigada, querida Eduarda!
      Eu entendo que o texto não estimula, mas se um dia você tiver curiosidade, acho que vale a pena ter a experiência. 😉
      Isso mesmo, a intenção do Cortázar era fazer isso com o Horacio, o problema não é a falta de ação em si porque em muitos livros isso se dá de uma forma que dá certo, e eu adoro histórias assim quando bem feitas. Minha implicância é com esse personagem que não deseja nada, não ama nada, não quer nem mesmo que a vida tenha sentido. Talvez como proposta artística, por ser um antirromance e querer quebrar com as regras pode ser interessante, mas no final das contas quem quer ler sobre uma pessoa assim? =D
      Beijinhos!!!

  6. Lua, a metalinguística que você pontuou acerca do fazer literário neste Cortázar me fez lembrar do o narrador d’A hora da estrela. Clarice soube como inserir essa voz criadora com muita força no seu romance sem se que ela se tornasse pesada e pedagógica. Fiquei interessada em saber mais detalhes de como esse aspecto se insere na narrativa, mas o que me desanima um pouco é o componente do enredo assim, tão diluído.

    Parabéns pela bela resenha e pela coragem (que deve ser de todos e todas nós, por direito!) de dizer que não gostou de um clássico em alguma medida.

    Abraços!

    1. Jéssica, sabe que nunca li A hora da estrela? Minhas experiências com a Lispector não foram lá muito boas, mas esse é um dela que quero muito ler. Como falei para outras pessoas, apesar de não ser um livro que amei acho que vale a pena tentar, conheço pessoas que gostaram muito! =)
      Beijos!!!

  7. Eu queria muito ter lido para participar da discussão, mas não estou com energia mental nem física suficiente no momento. Acho válido o esforço de experimentação e inovação, mas a clara exclusão proposital de todos os “não iniciados” faz com que a obra perca parte do encanto. Agora, pelo menos, tenho uma ideia melhor do que me aguarda…rs.
    beijo!

    1. Como eu entendo, Michelle! Acho que se não fosse o fórum eu também não teria tido coragem, mas valeu a pena, mesmo não tendo amado eu gostei muito de algumas partes do livro. Beijão!!!

  8. Já li muitas resenhas desse livro, mas a sua foi a que me conquistou 🙂
    nas outras que li, os autores das mesmas falavam muito mais de uma fórmula para ler e entender o livro do que qualquer outra coisa…
    Enfim. Eu tenho medo desse Jogo! mas quando eu decidir me aventurar, quero ler do jeito que o Cortázar sugere ^^
    excelente post, Lua! beijooo

    1. Henrique, esse livro talvez precise de um momento certo para ser lido. Acho que eu teria gostado mais dele quando eu era mais jovem, não sei te explicar direito o motivo. Mas não tenha medo, não é nada demais. Não é daquele tipo de livro que você tem que estar mais maduro pra ler ou algo do tipo, sabe? Talvez seja mais do tipo que você tenha que reler aqui e ali para que faça mais sentido. 😉 Beijo!

  9. Oi Lua!

    Terminei a primeira parte do livro e fui procurar uma resenha para ter uma ideia se valeria a pena a segunda, sua resenha esta ótima, mas não me ajudou, continuo sem sabe se devo continuar, é meio cansativo , gosto de coisas mais dinâmicas, com profundidade claro, gostei muito de várias passagens, o jeito Jazz em Paris e Tango em Buenos Aires. Acho, que da para escrever em níveis, Hemingway fazia isso, na superfície e na profunda, ao mesmo tempo até, sem ser rebuscado demais.

    1. Olá! Olha, realmente esse é um livro que não dá nem pra indicar nem pra desestimular, mas já que você está achando cansativo poderia deixar para ler em outro momento. Sim, concordo que dá pra trabalhar em vários níveis, infelizmente são poucos os autores/livros que conseguem isso, mas quando conseguem é uma alegria para nós leitores! Abraços! =)

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