Um, dois e já – Inés Bortagaray

37_umdoisQuando eu era criança, sempre que voltávamos às aulas, as professoras solicitavam a famigerada redação contando as nossas férias. Geralmente eu nunca sabia o que contar e quando tentava tudo parecia muito sem graça, mesmo quando as férias tinham sido boas. Um, dois e já, da uruguaia Inés Bortagaray, poderia parecer uma redação sobre férias em família, já que a narradora é uma menina por volta de seus 10 anos, com suas frases curtas e ritmo particular, mas o livro tem o grande mérito de contar o momento que antecede as férias, uma longa viagem familiar de carro, tão típica das décadas de 70 e 80, que muitas vezes parecia que a autora estava contando um pouco da minha própria história.

Talvez seja por esse motivo que os personagens da família não têm nomes: eles poderiam ser qualquer pai ou mãe, qualquer irmão ou irmã. O relato parece ser feito para que toda uma geração se identifique: quatro irmãos dividindo o banco de trás, com direito a brigas e brincadeiras e a disputa pelos assentos com janela.

A narrativa se divide em vários pontos no tempo e no espaço, segundo o olhar da menina. Primeiro o seu olhar através da janela do carro, com a paisagem dando a impressão de se movimentar e a sensação de o carro estar parado. Depois o seu olhar para dentro do carro, com as lembranças e expectativas da família, os jogos de viagem, a música que toca, as distrações, as piadas contadas, as adivinhas, os enigmas. Sem esquecer as repetições compulsivas e supersticiosas para que nenhum acidente aconteça, bem como as fantasias e os sonhos que toda criança tem para que saiba lidar com o medo da morte. Aqui não temos, portanto, uma história propriamente dita, temos apenas a visão de mundo de uma menina, à medida que a vida passa diante de seus olhos, com idade suficiente para perceber-se e perceber os outros.

Acredito que é exatamente essa percepção tão apurada da narradora, que conta o pouco que acontece com tantos detalhes, que leva o leitor junto nesta viagem e o faz sentir o cheiro de vômito e de pijama dentro do carro. No momento em que a família vai tirar uma foto na beira da estrada, por exemplo, é possível visualizar muito bem cada movimento de cada membro da família e ficar imaginando a curiosidade de como saiu aquela foto até ela ser revelada. Talvez seja um livro específico para quem é nostálgico, para lembrar dos amigos de infância que foram embora e de que não tivemos mais notícias, ou dos bichinhos de estimação dos quais não soubemos tomar conta, mas pode ser que seja também para os filhos do meio, aqueles que sempre têm que lutar mais para conseguir seu lugar no mundo.

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18 comentários sobre “Um, dois e já – Inés Bortagaray

  1. Ah, eu comentei hoje mesmo no blog da MiG que acho que vou gostar muito desse livro e agora com a sua resenha tenho certeza! Eu escrevia essas redações quando voltava das férias mesmo quando a professora não pedia e quando eu me mudei minha mãe me entregou uma pastinha com todas elas. E também sou muito nostálgica e parece que o tempo passa e vou ficando mais (meio óbvio mas é verdade!).
    Beijo Lua, adorei a resenha!

    1. Nossa, Tati, você ainda tem essas redações, deve ser muito divertido reler tudo isso, eu não tenho praticamente mais nada da minha infância, guardei por um tempo, depois ficou impossível. Acho que as únicas coisas que sobraram foram alguns quadrinhos e um diário de quando eu tinha 10 anos, rs. Beijinho!

  2. Eu sofria com isso no cursinho de inglês. Pior do que escrever uma redação sobre suas férias meio paradas é escrever uma redação em inglês sobre elas… Rsrsrs.
    A Gisele já tinha falado desse livro em um vídeo do canal dela e a história me pareceu bem interessante.
    Beijo, Lua!
    P.S. Cadê sua resenha de A História Secreta? A discussão lá no fórum te esgotou? Rsrs

    1. Eduarda, acho que a Gisele não gostou muito desse livro e acho que você também não gostaria tanto, é um livro pra quem é mais velho, rs. Ah, esqueci de comentar contigo que eu li sua resenha de A História Secreta e acabei achando que eu não ia ter mais nada pra comentar, eu não posso ler resenhas antes de escrever a minha, tanto que a Michelle do Resumo da Ópera também publicou sobre esse mesmo livro (Um, dois e Já) esses dias e só li depois de postar a minha. Também prefiro escrever antes da discussão do fórum, então como eu tava muito atrasada só deu pra comentar por lá mesmo. =D
      Beijão!!

  3. Nem me lembre dessas redações! Era muito complicado transpor para o papel algo que mostrasse vagamente o quão legal tinham sido as férias. Eu até inventava coisas que não haviam acontecido, só para dar mais emoção…hahaha. Mas nostalgia é a palavra-chave desse livro adorável, né?
    beijo, Lua!

    1. Nostalgia total, Mi! E vc comentou lá no facebook sobre as fitas cassetes, nossa, lembrei de uma viagem bem longa que fizemos e meus pais só levaram 3 fitas! Foi uma tortura, hahaha, pra gente e pra eles também porque uma das fitas era do Balão Mágico! =D
      Beijos!!!

  4. Que bacana!
    Estou lendo esse livro e concordo com a sua descrição… Senti realmente essa nostalgia e relatos dessa época entre 70 e 80..
    O engraçado é que fui uma irmã do meio e sempre tive que lutar pelo meu espaço, que seja ficar na janela ou receber o reconhecimento de meu pai.
    Adorei!

    Abraço,
    Ana

    1. Oi, Ana! Eu sou a irmã mais velha, mas sempre observei minha irmã do meio e percebia como algumas coisas pra ela eram mais difíceis (os irmãos mais velhos têm outros tipos de problemas, rs). Boa leitura! 😉

  5. Que resenha mais gostosa, Lua!
    Fiquei pensando que deve ser bem interessante acompanhar a visão de uma menina sobre uma viagem sem a noção desse mundão afora e ao mesmo tempo o seu mundinho de dentro do carro com os irmãos.
    E eu sou caçula, então não posso opinar sobre essa questão filho do meio =~

    Beijo grande, queridíssima 😉

  6. Lua, do pouquinho que li da sua resenha, pois pretendo ler um dia “Um, dois e já”, me veio à mente lembranças da minha infância. Bem, só o título já trás essas lembranças ^_^ Já o inclui na minha lista de desejando. Acho que vou gostar muito desse livro! Beijos!

  7. Lua, adoro essa ideia de narrativas escritas para gerações especificas…além do tom nostálgico, é como se o autor abrisse uma bolha e te colocasse lá dentro com ele, gera uma comunhão única. Isso já aconteceu comigo (estou tentando me lembrar de qual livroooooo)

    beijo grande,

    1. Maira, fiquei curiosa!!! É isso mesmo, penso que esse livro foi feito para a geração da própria autora, em que me encaixo e é bem legal essa sensação que você descreveu tão bem. 😉
      Beijo!

  8. Oi Lua, obrigada pela resenha! vc acha que este seria um livro adequado para criança de 10 a 12 anos? agradeço sua resposta. abraço

    1. Oi, Maria! Esse livro não é voltado para crianças. Não teria nenhum problema se alguma criança lesse, mas acredito que poucas iriam apreciar a leitura, pois é voltada mesmo para adultos lembrando a infância. Abraço!

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