Matadouro 5 – Kurt Vonnegut

28_matadouroSe você soubesse que está caminhando para um fim, você continuaria?

Billy Pilgrim é um americano comum, com uma vida comum, não fosse pelo fato de ele ser capaz de viajar no tempo, ter tido uma experiência com alienígenas e ser um sobrevivente do bombardeio de Dresden, na Segunda Guerra Mundial. Billy conhece sua vida de trás pra frente, sabe o que vai acontecer em seguida, mas isso não muda em nada suas decisões: ele sabe que não vai fazer diferença, então ele só continua.

O escritor Kurt Vonnegut usa sua própria experiência na Guerra como base para construir essa história e se coloca como narrador e ocasional personagem do livro. No início ele narra em primeira pessoa sobre o processo de escrita da obra, então segue em terceira pessoa, contando as aventuras de Billy, porém aparecendo rapidamente como personagem duas ou três vezes, sempre de uma maneira cômica.

Essa mudança de ponto de vista deixa o leitor numa situação intrigante pois o narrador na terceira pessoa nos faz acreditar que tudo por que passa Billy é verdadeiro, mas ao mesmo tempo o autor nos dá algumas indicações de que poderia haver outras explicações para o que acontece com o protagonista. Suas viagens no tempo são reais ou são uma maneira de ele lidar com os fantasmas da guerra? A adaptação de George Roy Hill para o cinema também deixa a questão em aberto e mantém a ironia e o humor da narrativa, mas aqui perdemos muito de algo importante oferecido apenas pelo livro: o tom e o ritmo da escrita de Vonnegut, que praticamente convida o leitor a ler em voz alta.

A estrutura do romance está longe de ser linear, pois é formada pelas inúmeras viagens no tempo de Billy e isto faz toda a diferença para que a história funcione. A linha sinuosa de tempo que existe é apenas aquela que leva o leitor a chegar ao momento do bombardeio de Dresden, que é o ponto chave da narrativa. Os principais momentos da vida de Billy se passam, portanto, enquanto ele é soldado na Segunda Guerra, mas também enquanto é homem adulto, por volta de seus 40 anos, ou quando é abduzido por seres do planeta Tralfamador.

Aliás, são os estranhos tralfamadorianos e sua visão de tempo que sustentam a maneira de Billy ver o mundo, que servem de base para as reflexões trazidas pelo livro diante das tragédias da vida e acaba afetando na própria maneira como a narrativa é costurada. Eles argumentam que não há livre-arbítrio, as coisas estão escritas e elas acontecem continuamente, uma roda do destino que não para de girar e garante que tudo que aconteceu e acontece vai continuar acontecendo pra sempre. Para que se preocupar? Tudo são coisas da vida:

“Todo o tempo é todo o tempo. Não muda. Não se presta a alertas ou explicações. Simplesmente é. Viva momento a momento, e o senhor descobrirá que todos somos, como eu disse antes, insetos em âmbar.”

A sensação de que tudo é por acaso, que ninguém tem uma característica especial que o leve para a felicidade ou para o infortúnio e que só nos resta cumprir um papel que já está definido pode ser bem desanimadora, mas parece ser a solução que o livro oferece diante da falta de controle que temos perante o inevitável. Ser sobrevivente de um ataque que matou 135 mil pessoas não faz Billy Pilgrim – ou Vonnegut – mais especial que ninguém, mas a história é passada adiante, para que todos possam pensar sobre ela.

Billy demonstra que saber o futuro não muda muita coisa. Se você soubesse que está caminhando para um fim, você continuaria? Não é o que todos nós já fazemos?

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10 comentários sobre “Matadouro 5 – Kurt Vonnegut

  1. Li os dois primeiros parágrafos da sua resenha e me empolguei para ler, Lua. Em julho volto aqui para comentar melhor! ; )

  2. Livro incrível! Eu acho difícil definir essa obra do Vonnegut. Matadouro 5 puxa para o lado da Ficção Cientifica, mas acredito que ele é mais um relato e crítica a guerra. Enfim, você ficou com vontade de ler os livros do Kilzore Trout? Quando li Matadouro 5 sai procurando no Google e fiquei tristonha quando vi que o autor é fictício *snif*. Maníacos na Quarta Dimensão parecia ser tão legal *snif*.
    Lua, ainda não assisti ao filme, vale a pena?
    Beijos!

    1. Ah, Lulu, já pensou como seria divertido ler os livros do Trout? rs Mas dizem que ele é um alter ego do Vonnegut e já soube que ele está em Café da manhã dos campeões, que já quero ler.
      O filme é bacana, de um diretor que gosto, mas não sei se ele vale realmente a pena pra quem leu o livro, acho que talvez valha a pena esperar a nova adaptação do Guillermo del Toro, com o roteiro do Charlie Kaufman, já pensou? Tomara que dê certo! =D
      Beijos!!!

  3. Lua, pelo amor de Deus, vou comprar esse livro amanhã. Amei essa problemática: “Se vc soubesse que está caminhando para um fim, você continuaria?”
    Amo Vonnegut, li pouco dele, um livro só, mas foi tão intenso e ele me fez sentir tantas coisas ao mesmo tempo…não sei sobre “Matadouro 5”, mas “Café da manhã dos campeões” é satírico e melancólico de um jeito que nunca tinha visto antes. É uma escrita muito forte…e quando terminei minha vontade foi começar de novo, e ainda vou fazer isso.
    Sem falar que o livro tem desenhos do próprio Vonnegut, então imagina…rs.
    É incrível…espero que você goste!

    beijo grande, sua linda!

    1. Maira, você vai atrás de Matadouro 5 e eu vou atrás de Café da manhã, rs. Não vou ler em breve porque não gosto de ler o mesmo autor seguidamente, mas já estou muito curiosa! =D
      Beijão!!!

  4. Essa ideia de juntar fatos passados durante a guerra e seres de outro planeta é muito original, nunca li nada desse autor, mas eu gostei muito do que você escreveu. É tão bom que está esgotado, mas já entrou para minha lista de desejados. Eu tenho dificuldade de ler Ficção Científica, mas todos falam tão bem desse escritor que vou tentar ler.

    1. Flávia, não sei se é um livro que agrade todo mundo, acho que precisa gostar um pouco de ficção científica ou pelo menos de humor crítico, mas mesmo assim acho que vale a pena por ser algo tão original e diferente. 😉
      Beijo!

  5. Lua, tenho certo fascínio pelo tema da Segunda Guerra, talvez por considerá-la uma das maiores tragédias da humanidade e por ela nos dar a chance de pensar a essência do humano e seus sentidos tão intensamente.

    Fiquei um pouco confusa quanto à narração do autor, e ainda mais quanto à experiência extraterrestre do protagonista, mas acredito que tudo se encaixaria se viesse a lê-lo rs

    Abraço!

    1. Jéssica, é um livro bem diferente pois consegue ser “engraçado” sem fazer graça com a tragédia, sabe? É difícil de explicar, mas o leitor pra gostar do livro tem que entender o humor do autor, do contrário pode acabar achando o livro estranho. =)
      Beijo!

Deixe um comentário e eu responderei aqui mesmo. Obrigada pela visita!

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