O Amante – Marguerite Duras

25_amanteA primeira coisa que compreendi quando comecei a ler O Amante, da francesa Marguerite Duras, é que não era simplesmente um relato sobre sua iniciação sexual aos 15 anos, como muitas vezes as sinopses nos contam. A bem da verdade, o caráter erótico da narrativa me pareceu ficar em segundo plano, diante das tragédias familiares da narradora, e o sexo aparece não apenas como elemento de prazer, mas também como um mecanismo de libertação da dor e da pobreza.

É bastante simbólico que o encontro entre essa menina de 15 anos e aquele que irá tornar-se seu amante – um rico chinês de 27 anos – se dê na travessia de um rio, o rio Mekong, na então Saigon do começo do século XX. A balsa a levará a outra margem, sua existência de criança ficará para trás e através dessa relação, que envolve também dinheiro, ela irá conquistar poder perante a mãe e os dois irmãos. Tudo sempre se volta para a mãe e os irmãos, especialmente a mãe, de quem a narradora fala com revolta, raiva, frustração, ciúme: ela demonstra como é possível odiar as pessoas que mais amamos e como isso nos deixa confusos e culpados. Mas ela irá experimentar o poder também sobre esse homem, que a ama desde o primeiro momento, e sua relação com ele é sofrida e desesperada porque não há possibilidade de futuro: cada encontro é intenso porque é uma despedida.

A imagem da menina na balsa, com seu vestido aproveitado da mãe, seus sapatos de lamê e um chapéu masculino, encontrando um homem rico numa limusine preta, é a imagem a que a narradora volta sempre, de forma que nada nessa história é contado linearmente: é como se ela apontasse detalhes de uma fotografia a cada momento que a vê, e em cada um deles uma nova lembrança surgisse. É um jogo com o tempo das memórias, que dá a sensação de alguém muito velho indo e voltando em seu relato, onde as memórias aparecem como elas se desenvolvem no pensamento, e não cronologicamente, e no fundo elas não passam de um quebra-cabeças desmontado, em que cada peça vai surgindo para que o leitor sinta as emoções no devido tempo. Os verbos no presente, em boa parte do livro, lhe dão um tom onírico, sugestivo e vago, e em algumas passagens podemos nos perguntar se é possível confiar nessas lembranças, mas isso é o que menos importa, pois o mais importante passou pela peneira fina da escritora e as imagens que ela constrói são pequenos relicários que guardam o essencial.

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Essa leitura faz parte do Projeto Mulheres Modernistas e será debatida no Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

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12 comentários sobre “O Amante – Marguerite Duras

  1. Eu ia participar desse Fórum, mas o livro estava esgotado na Cosac e nos outros sites o livro estava muito caro, quero fazer essa coleção linda. Gostei da sua resenha, realmente o livro, apesar de poucas páginas, é bastante intenso. Assisti ao filme, acho, era baseado nesse livro, não tenho muitas lembranças, mas me lembro da polêmica que foi na época por causa das cenas de sexo, porém vi boas referências a respeito da construção do enredo..

  2. Sua resenha ficou linda, Lua! Não sei se a poesia está no livro ou nas suas palavras… =D
    Fiquei com vontade de ler, mas antes tenho que encontrar o livro com um preço razoável.
    Beijo!

    1. Oww, Eduarda, obrigada, querida. Pois é, não sabia que o livro estava difícil de encontrar por um preço bom, a Flávia também comentou que está caro. Achei que a edição pocket seria barata mas Cosac nunca é barato, rs.
      Beijinho!

  3. Que bela resenha, Lua, como sempre!

    E essa, a

    coleção mais linda da Cosac, talvez? Já era de se esperar que Duras colocasse a questão do sexo/erotismo em segundo plano. Acho que os melhores livros do tema são bem assim mesmo, por esse caminho.

    Abraço.

    1. Jéssica, essa coleção é amor mesmo. Eu cheguei a considerar não comprar todos, mas não resisti, é o tipo de livro que fica por muito tempo na família e vale a pena. 😉
      Beijinho!

  4. “o mais importante passou pela peneira fina da escritora e as imagens que ela constrói são pequenos relicários que guardam o essencial.” Que lindo isso! Pedi o livro numa troca do Skoob, depois que vi a resenha da Denise. A sua, agora, me deixou ainda mais curiosa. Vou pegá-lo assim que desafogar das minhas leituras atuais.

    Beijo!

  5. Oi Lua, fiquei conhecendo o Projeto Mulheres Modernistas e o seu blog através do canal da Denise.
    Gostei bastante e a partir do próximo mês começarei minhas leituras do projeto (vou ler apenas um livro por mês, porque além dos preços serem de doer o coração preciso colocar outras leituras em dia). Não sei se conseguirei todas os livros com as capas da Cosac, tão lindas!
    Enfim, é isso. Ficarei acompanhando suas resenhas !

    Beijos!

    1. Oi, Fernanda, que bom que você vai participar! Os livros do projeto Mulheres Modernistas estão sendo lidos a cada dois meses, então dá pra gente ir aos poucos, rs. Beijos!!

  6. Oi, Lua!
    Finalmente vim conferir sua resenha!
    É incrível como o foco errado da sinopse pode fazer estragos, né? Sempre enfatizam o romance e o teor erótico da história, mas, como você bem ressaltou, o que mais chamou minha atenção foi o drama, principalmente a relação tensa com a mãe e com o irmão mais velho. Adorei o post!
    bjo

    1. Não é, Mi? Acho que é mais vantajoso para as vendas falar que o livro é erótico, mas as cenas eróticas são bem suaves e a relação com a família realmente se sobressai. 😉
      Beijo!

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