Foi apenas um sonho (Rua da Revolução) – Richard Yates [Projeto Para ler como um escritor #5]

23_roadFrank e April Wheeler são um jovem casal com dois filhos que moram no subúrbio de Nova York nos anos 50. Essa descrição não os deixaria exatamente felizes, pois eles rejeitam todo o contexto que envolve morar no subúrbio, conviver com pessoas que julgam medíocres e até mesmo serem pais. No entanto eles se sentem superiores à sua vizinhança não pelo que são realmente – suburbanos iguais – mas pelo que eles pensam que poderiam ter sido. São os seus sonhos não-realizados, a potência do que poderia ter acontecido, suas personalidades ideais que nunca puderam existir, que dominam suas vidas.

Depois de experimentar um fracasso como atriz do teatro local, April decide que eles devem ir embora para Paris, onde ela acredita que pelo menos Frank possa retomar a vida de onde parou quando tiveram que casar. A decisão afetaria poucas pessoas: seus filhos pequenos, cujas opiniões não são muito consideradas; seus únicos amigos, o casal Shep e Milly Campbell; e a sra. Givings, vizinha que tem esperança que seu filho John, que é interno de uma clínica psiquiátrica, possa melhorar se relacionando com eles. Frank teria que deixar o emprego que tanto detesta, mas é justamente nesse momento que lhe surge uma nova oportunidade profissional e ao mesmo tempo uma situação nova que irá fazê-los repensar a partida para a Europa.

Durante o livro inteiro a questão das escolhas paira sobre os personagens e nos perguntamos se certos caminhos que tomamos – por mais insatisfeitos que estivermos depois com eles – não foram, no fim, a decisão mais acertada, pois corresponderam a seu devido momento: só conseguimos viver uma vida, não há ensaio. Quem disse que outros caminhos nos levariam necessariamente a coisas melhores? Se April acredita que toda sua história foi uma série de erros, Frank, ao menos aparentemente, parece achar que não poderia ser diferente. Ambos vivem para provar algo aos outros, mas enquanto April quer fugir do que ela considera medíocre e se sentir superior, Frank, no fundo, quer fazer o que é esperado, quer apenas ser aceito e amado e por isso mesmo é mais conformado com a sua situação. São almas quebradas, e a maneira indiferente como tratam os filhos provavelmente perpetuará o ciclo de desamor. É muito fácil se considerar especial quando isso não precisa ser provado, e por isso as novas escolhas talvez não sejam tão diferentes daquelas que eles tomaram na juventude.

Yates não é um autor muito dissertativo, de frases a serem sublinhadas durante a leitura. Ele não dá chance nem para os próprios personagens ponderarem sobre a vida, é o leitor que deve chegar às suas próprias conclusões sobre a história que lê. A narrativa se encarrega de nos deixar tudo à mostra e ele tem o incrível talento de nos deixar interessados o tempo inteiro nesses personagens aparentemente tão banais, mas justamente por isso tão reais: e no fim não é a banalidade só uma maneira de vermos as coisas sem a lente da profundidade?

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Essa leitura faz parte do Projeto Para ler como um escritor.

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16 comentários sobre “Foi apenas um sonho (Rua da Revolução) – Richard Yates [Projeto Para ler como um escritor #5]

  1. Nunca li Yates, porém assisti ao filme. Não sabia da existência do livro, eu soube dele com o video da Juliana Brina do canal e blog O pintassilgo. Você que leu o livro, já assistiu ao filme? Você acha que a relação e a tensão é mais desenvolvida no livro. Estou louca para ler este livro. Linda resenha!
    Beijo,
    Jéssica d´O Feminino dos Livros (ofemininodoslivros.blogspot.com.br)

    1. Oi, Jéssica, vi o filme ontem. Achei que o filme é muito fiel à história, mas não é fiel aos personagens, sabe? Não reconheci nem o Frank nem a April. Os outros personagens, sobretudo John, correspondem bem, mas os protagonistas me pareceram pessoas bem diferentes. No filme parece que as circunstâncias da vida estão contra eles, mas no livro são eles mesmos que se destroem. Vale a pena ler o livro. =) Beijo!

  2. A última frase foi incrível Lua, realmente traduziu a escrita do Yates, o que há de profundo no cotidiano! O livro dele que eu mais gostei até agora foi O desfile de páscoa,mas quero muito ler Uma providência especial que tenho aqui!
    Beijo enorme, adorei sua resenha!

  3. Gostei bastante do filme, mas ainda não li o livro, mesmo já o tendo aqui. Lua, o ultimo parágrafo do seu texto deixou todo mundo com vontade de ler 😉 Beijos!

    1. Lulu, a história é a mesma, é bem fiel, mas achei os personagens um tanto diferentes e acredite, não foi uma boa escalação de atores, pelo menos na minha opinião. Não conseguia ver o Leonardo como Frank, eu só conseguia pensar no protagonista de Mad Men, rs. Eu adoro a Kate, mas não sei se ela foi uma boa escolha pra April. =)
      Beijinho, Lulu!

  4. Poxa Lua que interessante o mote desse livro. Não Li Yates ainda,apesar de ter livros dele aqui. Também não vi o filme, mas fiquei super interessada agora.
    Adoro esses autores que sabem trabalhar com as banalidades da vida, mas que por trás tem um contexto tão mais profundo do que parece. a Alice Munro anda por essas trilhas e adorei os livros dela que li.
    bjos

  5. Tenho os livros o Yates aqui na fila de leitura já tem um tempo, e essa semana comprei esse. Eu preciso lê-los e a cada texto que leio sobre o autor, ou vídeo que assisto, mais quero ler. Pretendo começar por esse livro, embora já tenha assistido a adaptação para cinema não creio que vá atrapalhar em nada a leitura. Texto muito bom, Lua! Um beijo!

    1. Acho que não irá atrapalhar a leitura, Rose, até porque este não é um livro em que o enredo seja o principal. As relações entre os personagens é que protagonizam a narrativa e isso é muito mais profundo no livro. Espero que goste! Beijo! =)

  6. Lua, eu adorei o filme, mas fiquei com aquela impressão esquisita de não ter compreendido tudo que ele quis passar, sabe como é? Talvez lendo o livro essa impressão passe. A Ju Brina também falou muito bem do livro.
    Esse projeto para ler como um escritor está me tentando… =P

    1. Eduarda, eu vi o filme só por curiosidade mesmo, mas ele realmente não passa a profundidade do livro (nem poderia, é claro). Deixa passar um tempinho (quando o filme estiver meio esquecido) e pega o livro pra ler, é muito bom. =)

  7. Estou louca para ler algo do Yates! Adorei o filme! Lembro que assisti no cinema e, claro, um monte de gente saiu reclamando, pois a história foi vendida como mais um romance entre Winslet e DiCaprio. Preciso ler para conhecer mais detalhadamente os personagens, mas a impressão que tive sobre o filme foi bem essa que você mencionou: a vida estava contra eles. Em todo caso, acho que vou gostar muito.
    bjo

    1. Mi, eu lembro na época que o filme saiu, eu nem sabia que era baseado num livro e fiz cara feia para o casal escolhido, rs. Mas é um bom filme, só não pega exatamente o espírito do livro.
      Estou querendo ler outro livro dele, acho que vou esperar pro próximo ano, pra não desgastar o autor. 🙂
      Beijo!

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