Tom Jones – Henry Fielding

21_tomjonesEncerrando um pequeno projeto de ler os principais romances ingleses setecentistas tratados por Ian Watt em seu livro A Ascensão do Romance, finalmente terminei a leitura de Tom Jones, de Henry Fielding, publicado em 1749: a história de um rapaz abandonado pela mãe quando bebê e criado por um bondoso fidalgo.

Jones é apaixonado pela bela e rica Sofia, mas devido a sua origem moralmente inaceitável, sofre por saber que não pode casar-se com ela, ainda que ela também o ame. Muito atraente às mulheres e agradável com todos, Jones desperta a inveja de Blifil, sobrinho do fidalgo Allworthy, que os cria como irmãos. E por uma série de artimanhas de Blifil, Jones acaba sendo expulso de casa e tendo que seguir seu caminho sozinho: em grande parte do livro temos então uma história de estrada, onde a cada paragem há uma aventura de Tom Jones com novos personagens.

Apesar de constituir uma espécie de herói perdido em busca de seu lugar na vida, de saber quem é seu pai e de encontrar uma maneira de ficar com Sofia, Jones traz muitas características de um malandro sedutor, envolvendo-se com outras mulheres e até se aproveitando de algumas situações com elas para sobreviver. Mas o seu lado proeminente é o de apaziguador, apagando incêndios, resolvendo desavenças, salvando mulheres de vilões, enfim, resolvendo questões alheias e deixando amizades por onde passa.

Considerado por alguns estudiosos como um dos primeiros romances, Tom Jones também pode ser visto como uma espécie de novela picaresca, em que vários episódios ocorrem com esse herói um tanto anti-herói, sem que haja grandes mudanças ou desenvolvimento dos personagens: o entretenimento, o humor satírico, a ação e seus propósitos moralizantes (não necessariamente moralistas) se sobressaem. O gênero do livro pode ser, portanto, difícil de definir, já que Fielding queria inaugurar novas regras de como contar uma história. Não à toa ele interrompe a narrativa o tempo inteiro para demarcar suas regras:

“Como sou, em realidade, o fundador de uma nova província do escrever, posso ditar-lhe livremente as leis que me aprouverem.”

Essa conversa constante com o leitor, não só para delimitar sua técnica, como para divagar acerca dos acontecimentos do livro, e também para discutir assuntos aleatórios, fazendo referências literárias e filosóficas adornadas com citações em latim, pode ser algo bem incômodo, especialmente em um calhamaço de mais de 800 páginas. Contudo, os capítulos são curtos, com títulos que antecipam o que vai acontecer, e o leitor é aquele a quem o autor dá sempre uma piscadela de olhos, um cúmplice a rir de vários personagens secundários, com suas conjecturas absurdas ou equivocadas. No geral é um clássico simples e divertido de ler, principalmente por conter muita ação e por abusar de ironia e sarcasmo com a sociedade de seu tempo.

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10 comentários sobre “Tom Jones – Henry Fielding

  1. Lua, que delícia encerrar um projeto, né? Meus projetos são tão megalomaníacos que acho que vou morrer sem ter encerrado nenhum…
    Me tira uma dúvida? Você disse que Tom Jones é considerado um dos primeiros romances e que o livro de Ian Watt é “A Ascensão do Romance”. Afinal, qual o conceito de romance? Eu sempre acabo classificando todos os livros de ficção que leio como romances.
    Beijos! E a resenha ficou ótima!

    1. Oi, Eduarda! Esse projeto era pequeno, por isso consegui terminar, rs, mas confesso que desisti de um dos livros, era muito chato!

      É muito complicado conceituar o gênero romance porque vai depender do teórico, sabe? Mas no geral o romance é uma tentativa de descrever a realidade através do que o Watt chama de “realismo formal” (não tem a ver com o Realismo enquanto tendência literária). Enquanto outros gêneros, como a poesia, por exemplo, possuem aspectos formais mais artificiais, como ritmo, rimas etc, o romance tenta se aproximar o mais que pode da realidade para que o leitor esqueça que aquilo é ficção, entende? Claro que alguns autores modernos vão romper com isso e muitos romances modernos colocam esse realismo formal em cheque.
      A diferença para a novela e o conto são discussões à parte, mas basicamente o conto é uma narrativa com apenas um núcleo narrativo que se resolve brevemente e a novela eu gosto de exemplificar com os livros de aventura: sabe aquele herói que tem que salvar uma princesa, mas pra chegar até ela passa por várias batalhas? Pois é, a novela não vai desenvolver psicologicamente esse personagem, não haverá uma preocupação em formar um perfil da sociedade retratada, enfim, a novela não trará ao leitor a sensação de estar observando a vida real (o real aqui não tem necessariamente a ver com o mundo real, os romances de fantasia continuam sendo romances, eles só têm que ter um compromisso com o mundo proposto pelo autor). A novela moderna (ou os romances curtos) têm uma similaridade maior com o romance propriamente dito, então por isso é complicado definir assim resumidamente. =D

      1. Obrigada pela explicação, Lua! =D
        Acho que entendi direitinho, mesmo assim resumidamente. Por tudo o que você falou, fiquei com a impressão de que a maioria dos livros modernos são romances, né? Lembrei de Dom Quixote, em que Cervantes faz uma paródia das novelas de cavalaria que estão em decadência. E lembrei também que na edição da Penguin de “A Outra Volta do Parafuso” há um prefácio em que se discute se o livro é um conto ou não.

        1. Isso mesmo, Eduarda, acho que o que nos vicia nos romances é que eles nos transferem para uma outra realidade e ao mesmo tempo nos fazem pensar em nossa própria. Mas ultimamente tem aparecido muitas novelas também, livros como Bonsai, do Alejandro Zambra, e Festa no Covil, do Juan Pablo Villalobos. =)

  2. Ai, gente… citações em latim. Sério mesmo? Detesto quando fazem uso desnecessário de outras línguas. Um termo ou outro, OK. Mas tem gente que extrapola, né?
    Bom, pelo menos o personagem parece carismático, e o ritmo dinâmico.
    bjo

    1. Pois é, Michelle, mas grande parte das citações são feitas por dois personagens bem metidos a eruditos e até faz sentido, mas é chato mesmo. Como é uma obra bem antiga, acho que uma edição comentada seria mais interessante. =D

  3. Lua, comprei uma edição em inglês desse livro há alguns anos e ainda não bateu a coragem de ler, sabe? Mas sei que tem uma edição com tradução da Clarice Lispector, que eu nunca comprei porque era mais cara. Vamos ver se esse ano consigo encarar o Tom Jones, né?
    Parabéns por ter concluído seu projeto 🙂

    beijo,
    Pipa

    1. Pipa, não é o tipo de livro que eu recomendaria, mas se você é curiosa como eu sobre o desenvolvimento do romance, pode gostar.
      Sério que existe uma tradução dela? Puxa, nem imaginaria ela traduzindo essa obra. =)
      Beijinho!

  4. Lua, muito interessante seu projeto!

    Lembro que quando comecei a estudar a teoria do Realismo, roía os dentes pra ler Madame Bovary, um dos romances mais fantásticos que já li.

    Quem sabe um dia não leia também Tom Jones?

    Abração!

    1. Jéssica, o Tom Jones não é um livro do Realismo (é anterior a essa tendência literária), mas ele foi um dos primeiros a trabalhar com o “realismo formal” que inaugurou o gênero romance. Não sei se seria o tipo de livro que te agradaria, mas quem sabe como curiosidade? =) Beijinho, querida!

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