A fazenda africana – Karen Blixen

14_fazendaApesar de muitos leitores encararem descrições como um defeito nos livros, para mim são elas que definem um bom escritor, pois são elas que nos fazem recriar a imaginação de outra pessoa e de pintar um quadro próprio, sugerido por quem escreveu. São elas que nos transportam longe de nossa confortável poltrona e nos levam a lugares que jamais poderíamos conhecer de perto. E foram através das belas descrições de Karen Blixen que eu estive na África, sentindo o grave calor do dia, as noites frias, os cheiros da selva, os sorrisos das crianças e os olhares únicos dos quicuios, dos massais, dos somalis.

Romance de não-ficção ou relato autobiográfico, A fazenda africana narra os anos em que Blixen cuidou de sua fazenda de café no Quênia, no início do século XX, mas sobretudo conta a história das pessoas que fizeram parte de sua vida nessa aventura africana. O livro não segue uma linha exata no tempo, justamente porque seus capítulos são divididos por situações e pessoas que foram importantes e inesquecíveis para a autora, como a história de Kamante, um menino quicuio que ela salva e que acaba depois se tornando seu cozinheiro, ou mesmo sobre sua amizade/amor por Denys Finch-Hatton: Blixen parecia muito feliz sobrevoando a África ao seu lado.

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O mais incrível é ver como a autora apresenta as pessoas pelo que elas têm de mais bonito e o quanto isso diz sobre ela mesma, já que pouco conta de sua vida mais pessoal, seu marido ou sua família. Mas ela também conta sobre suas caçadas, seus animais preferidos, como ela acabava interferindo nas questões locais e como a cultura africana marcava a cada dia sua existência. Sua paixão pela terra africana é tamanha que ela quer fazer parte dela de alguma forma:

“Se é que estou, como creio, familiarizada com uma melodia da África, da girafa e suas listras iluminadas pela lua nova, dos arados nos campos, dos rostos suados dos colhedores de café, será que a África também conhece uma melodia minha? Será que o ar sobre a planície estremecia com uma cor que eu estivesse vestindo, ou as crianças inventariam um jogo no qual surgia meu nome, ou, ainda, a lua cheia lançaria uma sombra parecida comigo sobre o cascalho diante da casa, e as águias de Ngong me buscariam com seus olhos?”

Com uma escrita delicada, simples e cheia de comparações e metáforas, Blixen constrói imagens da fazenda, dos seus funcionários, das tribos nativas e dos seus amigos de uma forma tão límpida e amorosa que o leitor se sente abandonado e com saudade quando o livro acaba. Não sei dizer que episódios foram os meus preferidos nesse belo rol de histórias, mas sei que quero voltar a essa fazenda um dia, sentar mais uma vez na varanda do casarão e observar Lulu aparecendo entre as árvores ao entardecer.

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Essa leitura faz parte do Projeto Mulheres Modernistas e será debatida no Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

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23 comentários sobre “A fazenda africana – Karen Blixen

  1. Que descrição linda Lua, não tenho esse livro ainda, por isso não pude acompanha-las na leitura, mas depois desse texto, confesso que a vontade só aumentou.
    Acredito que há algo de mágico em terras africanas, só isso pode explicar uma literatura tão diversa e tão linda, e que mesmo naqueles que não nasceram por lá, encanta e gera narrativas tão belas.
    bjos

    1. Quel, A festa de Babette faz parte de um dos livros dela, quero ler em breve. Vi o filme há um tempão (na época que foi lançado), mas não lembro de quase nada. =) Beijo!

  2. Gostei muito da sua resenha. Pena que meu livro não chegou a tempo para participar do Fórum. Assisti ao filme, lembro-me de ter gostado, mas hoje sou incapaz de lembrar do enredo. Tentarei ler ainda esse mês.

    Beijos!

    1. Que pena, Flávia! Mas olha, muita gente nem começou a ler ainda, acho que só eu e a Gláucia terminamos.
      Quanto ao filme, nem comentei no meu texto porque não considerei uma adaptação, sabe? É completamente diferente, foca apenas no relacionamento dela com Denys, foge muito do espírito do livro. 😉
      Beijo!

  3. Lua, queria ter participado dessa leitura com vocês, mas realmente não deu – não tinha o livro e não estou conseguindo tempo ultimamente 😦
    Sua fala me fez pensar sobre a questão das descrições. Eu facilmente diria que não gosto, mas não é bem verdade. Lembro que existem descrições que nós nem percebemos e quando vemos…pum…estamos vendo e vivendo aquela cena, essas são ótimas ❤
    Ainda quero ler esse livro (e também ainda quero montar minha coleção "Mulheres Modernistas", Ahaha!)

    beijo grande,

    1. Entendo, Maira, tem um monte de leitura compartilhada que eu queria fazer parte e não vou poder.
      Descrição é algo que quando bem feito faz a escrita ficar mais bonita, mas realmente pode ser chata em alguns casos.
      Essa coleção é linda, vale a pena! =) Beijo, querida!

  4. Tem uma personagem chamada Lulu *_* Já gostei! rsrsrs
    Lua, ótima resenha! Nem preciso comentar que fiquei curiosa para ler “A Fazenda Africana”. Não tenho este título. Na verdade falta muito para completar minha coleção Mulheres Modernistas.
    Beijos!

  5. Li o ‘Festa de Babette’ no comecinho do ano e gostei bastante. Fui transportada para a cozinha de Babette, senti os aromas de seus pratos, salivei com a sobremesa. Em geral, há uma linha muito tênue que separa as descrições que me ajudam a recriar o ambiente imaginado pelo autor daquelas que extrapolam nos detalhes e me irritam. Pelo primeiro contato que tive com a Blixen, confirmado agora pela sua resenha, acho que, felizmente, ela se encaixa no primeiro time. Quero ler mais coisas dela! 🙂
    beijo

  6. Belíssimo livro, Lua. O trecho que você escolheu mostrar aqui não me deixou dúvidas disso, quanta sensibilidade tem Karen Blixen! É um poema em prosa, esse trechinho.

    Dessa coleção da Cosac tive muita vontade de ter o volume da O’Connor, porém, como leio no original, estou esperando mais um pouco para comprar a coletânea dela da Library Of America.

    Um grande abraço.

  7. A cura para tudo está na água salgada: suor, lágrimas ou o mar.” Isak Dinesen

    Meus Deus, que texto motivante : – )
    Olha só como é a vida: em alguns dias começarei minha volta ao mundo de bicicleta e ontem, durante uma pesquisa sobre pneus, cheguei a um fórum americano onde um dos participantes tinha como frase de seu perfil “The cure for anything is salt water – sweat, tears, or the sea”. Foi assim que conheci a Karen.
    Então hoje resolvi pesquisar sobre ela e caí nesse maravilhoso texto. De verdade, meus parabéns e você puxou o gatilho para a busca dessa obra.

    Um abraço e muita água salgada para ti.

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