Risíveis Amores – Milan Kundera [Projeto Kundera #2]

58_risiveisContinuando meu Projeto Kundera, li a segunda publicação do autor: Risíveis Amores, um livro de contos bem singular, por seu caráter conceitual. Embora tenha sido publicado em 1970, ele foi escrito entre 1959 e 1968, isto é, mais ou menos ao mesmo tempo que o romance A Brincadeira, o que é nítido em algumas temáticas em comum, especialmente a troça com coisas sérias, jogos que levam os personagens a situações ruins, simplesmente porque se recusam a aceitar a seriedade onde ela não deveria existir.

E um dos lugares onde a seriedade não mora é no sexo: os personagens vivem seus amores de uma forma muito real, e por isso mesmo muito risível para quem vê de fora, e as relações são muito mais interiores e egoístas, no sentido de que o outro só serve à medida que se comporta como um espelho. Tanto faz qual seja a aparência física de alguém, contanto que esta pessoa sirva ao propósito de refletir o lado mais bonito de quem está no jogo. Isto fica bem evidente nos 3 últimos contos do livro.

Em Ninguém vai rir e Eduardo e Deus temos histórias semelhantes em que seus protagonistas irão se enredar numa teia de mentiras para que possam escapar da seriedade imposta pelo regime político em que vivem. Seja para atingir interesses pessoais, seja para exercer algum grau de liberdade, esses personagens parecem querer fugir da sensação de que não são eles mesmos que regem sua vida.

“Eu compreendia de repente que era apenas uma ilusão ter imaginado que nós mesmos selávamos a égua de nossas aventuras e que dirigíamos nós mesmos a corrida; que essas aventuras talvez não fossem absolutamente nossas, mas talvez impostas do exterior.”

O pomo de ouro do eterno desejo é um conto mais singelo, sobre amizade, que mostra como dois amigos saem à caça de mulheres de tal forma que o jogo é mais importante que o resultado. O jogo também se sobressai em O jogo do carona, a história de um jovem casal que resolve fingir que são estranhos um ao outro, a tal ponto que um deles se deixa levar além do permitido. É bem interessante observar como a garota neste conto vai desenvolvendo sua segunda personalidade, o que lhe traz uma pura sensação de liberdade.

O Simpósio é o conto mais diferente do livro em sua estrutura. Aqui o autor faz referência aos simpósios gregos e divide o conto por atos, como se fosse uma peça de teatro. E o maior número de diálogos também nos dá essa impressão de texto dramático. O que mais me chamou atenção nessa história foi o tom irônico do autor demonstrando o fim das tragédias, ou de como o ser humano insiste em procurar o elemento trágico mesmo onde ele não existe. Um dos personagens desse conto, o dr. Havel, volta em O dr. Havel vinte anos depois: o colecionador de mulheres agora é casado com uma bela e famosa atriz e tem nela e em sua reputação sua fonte de poder, já que não pode mais contar com sua juventude.

Por fim, Que os velhos mortos cedam lugar aos novos mortos foi um dos meus contos preferidos, pois gostei como Kundera montou várias camadas do mesmo tema e da maneira como os personagens estão tentando fugir da velhice e da morte através do sexo.

Apesar de achar que a composição das personagens femininas do autor ainda não é ideal – pois geralmente elas vivem em função das personagens masculinas – em Risíveis Amores há mulheres bem melhor construídas que em A Brincadeira, claro que dentro dos limites de um livro de contos.

O mais divertido nesta leitura foi que ela foi compartilhada com a querida Maira. Tivemos uma ótima discussão sobre o livro, conto por conto, e foi incrível como cada uma via elementos no texto que a outra não via e a conversa foi muito rica. Quem quiser acompanhar esse debate ele foi realizado neste tópico do Fórum Entre Pontos e Vírgulas. Se alguém tiver lido o livro e quiser acrescentar alguma coisa, é só deixar sua contribuição por lá. Obrigada pela ótima companhia, Maira!

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8 comentários sobre “Risíveis Amores – Milan Kundera [Projeto Kundera #2]

  1. Não conhecia essa publicação do Kundera. Eu comecei a ler A Insustentável Leveza do Ser e quase morri de tédio. Mas um dia pretendo recomeçar. Vou procurar esse livro. Pareceu bem mais interessante.

    1. Ih, Isabele, se você morreu de tédio com a Insustentável… provavelmente você não vai gostar de nada do autor, talvez não seja seu estilo de leitura mesmo. Mas quem sabe tentando depois, tem livros que funcionam melhor em determinados momentos da vida da gente. Beijo!

  2. Lua! Lindo seu texto. Acho que se precisasse escolher entre os contos, ficaria com o “Ninguém vai rir” e “Eduardo e Deus”. Foi talvez o que mais me marcou nesse livro, a presença dessa sociedade estruturada, rígida e literal, que não permite a troça e a brincadeira. Acho que o Kundera consegue passar, de uma forma que ainda me encanta, a angústia e o desespero desses personagens.
    Adorei sua companhia nessa jornada!
    beijo grande,

    1. Obrigada, Maira! Você tem razão em escolher esses dois, são os mais fortes (no sentido de mais “sérios”, ironicamente) do livro. O que me deixou cansada em Eduardo e Deus foi justamente porque é muito parecido com A Brincadeira (e aproveito pra te indicar o romance, é claro). Não é a mesma coisa, é claro, mas como já era o último conto eu já estava meio cansada do tema. Depois passa lá no fórum e me conta mais das tuas impressões desse conto! Beijinho!

  3. Estou achando ótimo acompanhar suas leituras do Kundera. Esse livro, por exemplo, eu nem sabia que era de contos. E ler junto com outra pessoa é o máximo, né?
    Fico aqui aguardando os próximos livrinhos 😉
    bjo

  4. Matando a saudade de um dos meus blogs preferidos que não estava com tempo de visitar e ler, mas que agora estou compensando ❤
    Li os romances de Kundera quando era adolescente e foram um divisor de águas na minha formação como leitora e como pessoa. Quero muito reler algumas coisas e acompanhando sua trajetória com essas leituras vou decidindo!
    Beijo enorme!!!

Deixe um comentário e eu responderei aqui mesmo. Obrigada pela visita!

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