A Brincadeira – Milan Kundera [Projeto Kundera #1]

33_brincadeiraEstava lembrando dia desses de como eu gostei de A Insustentável Leveza do Ser e me perguntando porque nunca procurei conhecer melhor a obra do checo-francês Milan Kundera. Não costumo fazer isso, mas resolvi ler sua obra em ordem cronológica. Comecei, é claro, pelo seu primeiro livro, lançado em 1967, em que acompanhamos a história de Ludvik, um morávio que está visitando sua cidade natal com uma intenção de vingança. Ao longo de sua visita vamos conhecendo os motivos que o levaram até ali, sua juventude durante a ditadura comunista e de como uma mera brincadeira o levou para um caminho que ele não planejara.

Quando ainda era universitário, Ludvik envia um cartão postal para a namorada debochando do partido comunista, com a ingênua intenção de provocá-la, já que a moça não tinha o menor senso de humor. Essa piada acaba custando muito caro para ele pois a brincadeira é levada a sério e Ludvik passa a ser visto como um inimigo do partido, indo parar numa espécie de serviço militar/prisão com trabalhos forçados. Numa de suas folgas da prisão, conhece e se apaixona pela enigmática Lucie, que lhe serve de conforto e sentido.

Pelo que pude perceber, uma das grandes questões do livro é o embate entre Alegria e Tristeza. Por um lado não era permitido ficar triste neste regime comunista – pois isso seria tomado como um sentimento individualista, indo contra a felicidade coletiva causada pela vitória política –, mas por outro não haveria lugar para a troça, especialmente se envolvesse o partido. Envolto numa situação sem defesa, Ludvik passa, então, de um rapaz brincalhão a um homem atormentado, que não se conforma com sua condenação, pois acredita que haja espaço para as duas coisas, argumentando que às vezes a alegria pode vir da identificação com a tristeza do outro.

“Nada aproxima mais as pessoas (mesmo que seja muitas vezes uma aproximação falsa) do que um entendimento triste, melancólico.”

“Os partidários da alegria eram, em sua maioria, as pessoas mais tristes.”

Alegria ou tristeza, Ludvik está em busca mesmo é da escolha, algo impensável numa ditadura. Ainda assim, na prisão, ele relata brincadeiras juvenis bem engraçadas, como uma forma de apaziguar a falta de liberdade: através da ironia e das sutilezas os presos iam contornando a sensação de opressão e despersonalização sofridas no ambiente militar. Lendo uma determinada cena, me dei conta que fazia tempo que eu não gargalhava com um livro.

A narrativa possui outros personagens-narradores (Helena, Jaroslav e Kostka), que têm suas próprias histórias pessoais, mas que são contadas apenas porque estão envolvidas com a de Ludvik, principal narrador. As personagens femininas, Helena e Lucie, são ainda menos desenvolvidas. Tanto no capítulo narrado por Helena quanto através dos pensamentos do protagonista, o autor acaba passando uma visão muito superficial das mulheres, como se existissem apenas em função dos homens. O sexo e os relacionamentos amorosos são frágeis, mas ironicamente carregam uma força masculina, para não dizer machista.

Apesar de ter lido A Insustentável Leveza do Ser há muito tempo, não lembro do texto de Kundera ser tão duro e quebrado quanto em A Brincadeira. As descrições de cenas, lugares, momentos históricos, cultura checa, ou seja, quando o autor quer mostrar detalhes demais, ele deixa o texto muito carregado, sem fluidez e às vezes até didático. Já a narrativa meio filosófica e metafórica dos personagens quando ponderam sobre a vida e seus destinos é, para mim, o ponto forte do livro e compensa as passagens enfadonhas.

“As histórias pessoais, além de acontecerem, também significam alguma coisa? Apesar de todo o meu ceticismo, sobrou-me um pouco de superstição irracional, como a curiosa convicção de que todo acontecimento que me sucede comporta também um sentido, que ele significa alguma coisa; que por sua própria aventura a vida nos fala, nos revela gradualmente um segredo, que se oferece como um enigma a ser decifrado, que as histórias que vivemos formam ao mesmo tempo a mitologia de nossa vida e que essa mitologia detém a chave da verdade e do mistério. É uma ilusão? É possível, é mesmo verossímil, mas não posso reprimir essa necessidade de decifrar continuamente minha própria vida.”

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24 comentários sobre “A Brincadeira – Milan Kundera [Projeto Kundera #1]

  1. Acho que você adivinhou em fazer uma resenha do Milan justo agora que eu tava tão interessada em saber mais sobre ele 🙂 essa semana mesmo eu comprei a Insustentável leveza do ser e agora não vejo a hora dele chegar pra eu ver o que acho da escrita do autor.

    1. Tamara, acho difícil você não gostar de A Insustentável… Pelo menos não conheço ainda quem não gostou, é um ótimo livro que vou acabar relendo nesse projeto. =)
      Beijo!

  2. Ei Lua: adorei o projeto e sua resenha! Eu nunca li nada dele, mas vi e AMO o filme baseado em A insustentável… até pq é com o meu ator preferido de todos os tempos: Daniel! rs
    Fiquei interessada em ler A Brincadeira… pela temática e tb pela estrutura narrativa.
    Abraços,

    1. Mercedes, também gosto do filme, acho que vi antes de ler o livro, mas já faz muito tempo! Olha, o Daniel com certeza é um dos meus favoritos também! Acho que algumas coisas de A Brincadeira você iria gostar, mas quando eu ler outros dele te digo quais valem mais a pena. =)
      Beijinhos!

  3. Lua, eu também fiquei empolgada com o Kundera depois de ler “Insustentável”, aí comprei mais dois: “Risíveis Amores”, que é um livro de conto, lindo, triste e extremamente certeiro. Eu gostei muito. E também “A Valsa dos Adeuses”, que não li porque achei que não ia entender. Dizem que o texto é escrito em um ritmo de valsa, como se os movimentos da narrativa e dos personagens construissem certa melodia – não me senti preparada para isso, he he.
    Talvez quando você chegar nele eu te acompanhe…
    Abs,
    Maira

    1. Oi, Maira! =)
      Se não me engano o próximo será Risíveis Amores, bom saber que alguém gostou, assim vou mais empolgada. Não sabia (ou não lembrava) que A Valsa dos Adeuses tinha essa narrativa tão diferente, mas parece que o autor tem uma história com música mesmo, em A Brincadeira isso fica bem evidente com um dos personagens. Oba, se quiser me acompanhar, vou adorar! Beijo!

      1. Lua, me empolguei com seu projeto e fiquei com vontade de reler “Risíveis Amores”. Não seria legal um tópico do livro no fórum? Assim poderíamos falar de cada conto. Seria épico 😉
        Se não der, me avisa apenas quando você vai começar a leitura, que eu começo a minha por aqui.
        Bjs

  4. Você sabe que eu adoro esses projetos de leitura, né?
    Estou preparando alguns para o ano que vem (porque esse ano já estou com a lista de leitura completa). Vou acompanhar seu passeio pelas obras do Kundera.
    Ah… adorei a primeira citação 😉
    bjo

  5. Assim como a Michelle eu tb adoro projetos de leituras. Eu estava até pensando em reler os romances do Bukowski em ordem cronológica, mas a vida tá corrida.
    Mas enfim…
    Confesso que não conheço nenhuma obra do Kundera além da mais famosa, a qual vergonhosamente eu ainda não li. Sempre dou de cara com ela em algum sebo, mas nunca compro. Preciso mudar essa situação!
    E já estou ansiosa para ler mais posts seus!
    Beijos

    1. Michelle, eu também tenho vontade de reler alguns dos Bukowski que li, adoro Hollywood, por exemplo. O Kundera é um autor bem “único”, digamos assim, e espero gostar muito de alguns livros dele, além do A Insustentável, que já adoro. Estou aproveitando que tem a coleção dele quase toda de bolso pela Cia das Letras, mas alguns são bem fáceis de achar nos sebos, realmente. Bom te ver aqui, beijinho!!! =)

  6. Eu li A Insustentável Leveza do Ser há muitos anos, eu tinha uns 16 anos e confesso que não lembro nada, mas me ficou a impressão de um texto difícil, acho que na época nem entendi o livro direito. Mas só tinha 16 anos e um olhar romântico e ingênuo do mundo ainda. Com a sua resenha fiquei até curiosa de reler. Parabéns você escreve muito bem!

    1. Cintia, já faz tempo que li também, mas minha experiência foi melhor que a sua, simplesmente amei o livro.
      Obrigada pelo elogio! =)
      Beijão e volte sempre!

  7. Que delícia, Lua!!
    Eu adoro a escrita do Milan e já tinha pensado em um projeto como o seu, já que comecei a lê-lo muito nova, lá pelos meus 16 anos… Espero que se apaixone por ele como eu me apaixonei! 😉

    Xerinhos

    1. Eu também li há muito, Paty, mas nunca esqueci. Eu já sou apaixonada, estou entusiasmada pelo projeto. =)
      Beijinho!

  8. Até hoje tudo o que li do Kundera achei muito bom (apenas não li dois livros de ensaios, muito dificeis de encontrar e o último escrito em 2015) por isso aconcelho vivamente toda a gente a ler sua obra. Quanto ao filme, raros são os filems que fazem juz aos livros e neste caso aconteceu isso também, mas ainda assim é mais facil ver esse filme que “O ensaio sobre a cegueira” ou “a casa dos espiritos” que conseguem destruir completamente as respectivas obras litera´rias.

    1. Hugo, por enquanto tenho gostado muito das leituras, até mesmo o A vida está em outro lugar, que por enquanto foi o que menos gostei, sempre dá pra tirar muita coisa dos livros deste autor.

Deixe um comentário e eu responderei aqui mesmo. Obrigada pela visita!

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