O Sentido de um Fim – Julian Barnes [Fórum Entre Pontos e Vírgulas, Mar/2013]

Esse texto contém algumas leves revelações de enredo (nenhuma relacionada ao final), pois é voltado para uma discussão no Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

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Acredito que todos nós somos um tanto obcecados por nossa própria história. Ouvimos dos mais velhos as peripécias que aprontamos na infância com toda atenção e interesse; buscamos pessoas do passado nas redes sociais não tanto por ainda nos interessarmos por elas, mas para resgatar um eu perdido nosso que ficou guardado em suas memórias; e mesmo com toda felicidade que possamos ter no presente, guardamos uma curiosidade, leve ou cruel, sobre os misteriosos motivos por que fomos rejeitados ou por que certas situações não deram certo.

Mas todo o emaranhado que construímos com nossas lembranças é feito pelo nosso olhar atual e de alguma forma nos parece mesmo que até aquela criança que éramos aos 7 anos de idade pensaria a vida como pensamos agora. Nosso engano é legítimo, pois a própria historiografia do mundo é reconstruída pelo olhar contemporâneo e esse é um dos questionamentos que Julian Barnes nos traz, em O Sentido de um Fim.

“Se eu não posso mais ter certeza dos acontecimentos reais, posso ao menos ser fiel às impressões que aqueles fatos deixaram.”

Na primeira parte do livro, temos a primeira versão da história pessoal de Tony Webster. Sua história oficial, baseada nas memórias de juventude e bem arranjadas ao seu momento atual de homem acima dos 60 anos, aposentado e divorciado. Ela envolve amizades da escola, um namoro que deu errado e o impactante suicídio de um amigo que era fonte de admiração. Já na segunda parte, o personagem tem que repensar todos os acontecimentos que ele tinha por certos em sua vida quando recebe uma herança curiosa da mãe de Veronica, sua antiga namorada: o diário de Adrian, seu amigo que morreu.

Era a documentação que ele precisava para entender não necessariamente as escolhas de Adrian, mas suas próprias escolhas, emparelhando-as como coisas opostas que eram: uma vida levada de acordo com o que se acredita, outra empurrada pelas circunstâncias.

“Na minha maneira de pensar, eu me preparei para a realidade da vida e me submeti às suas necessidades: se acontecer isto, faço aquilo, e assim os anos se passaram. Na maneira de pensar de Adrian, eu desisti da vida, desisti de examiná-la, aceitei-a como ela se apresentou.”

No entanto, o acesso ao diário é impedido por Veronica, e só ela tem a chave para que Tony entenda o que realmente aconteceu com Adrian. Essa busca acaba levando o personagem ao encontro com uma versão jovem de si mesmo que ele não reconhece e da qual se envergonha. E é a partir desse momento que ele vai percebendo não só o papel que ele exerceu na vida alheia, mas também a diferença que o relato daqueles que fizeram parte de nossas vidas pode fazer para entendermos o que realmente aconteceu.

“À medida que as testemunhas da sua vida vão diminuindo, existe menos confirmação, e portanto menos certeza, a respeito do que você é ou foi.”

Mas o que realmente aconteceu em nossos passados é um mistério tão grande quanto o que aconteceu na Grécia Antiga, nós que muitas vezes não sabemos direito nem o que fizemos ontem. Fiquemos então com as memórias que escolhemos ter no agora, esse sentimento do passado preso ao presente, que parece ser o único possível, e que Fernando Pessoa descreveu tão bem:

Pobre velha música!
Não sei por que agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado.

Recordo outro ouvir-te,
Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembra em ti.

Com que ânsia tão raiva
Quero aquele outrora!
E eu era feliz? Não sei:
Fui-o outrora agora.

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10 comentários sobre “O Sentido de um Fim – Julian Barnes [Fórum Entre Pontos e Vírgulas, Mar/2013]

  1. Bem interessante. Que a memória que temos não é exatamente a descrição fiel do que aconteceu é um fato, mas nem sempre nos damos conta do quanto a realidade e a percepção são diferentes. Lá vou eu botar mais um livro na minha interminável lista de leituras.
    Aliás, estou adorando ler as resenhas das participantes do fórum. A cada texto, descubro uma observação diferente, um ponto novo. Muito legal mesmo.
    bjo

    1. Mi, que legal que você está acompanhando os debates! Esse livro foi um que dividiu opiniões, nem todo mundo gostou, mas achei ele bem legal, espero que você goste, se um dia ler. Beijinho, linda! =)

  2. Lua,

    Não consigo me cadastrar no blog do forum. Não recebo o email de confirmação. Não sei o q acontece.
    Queria discutir lá, então se puder me ajudar no cadastro será ótimo.
    Obrigada
    Heloisa

    Off topic:
    Em tempo, repensem a idéia de forum dentro de forum. Acho a idéia dos clássicos ótima mas deveria ser criado um outro espaço para isso. Só de entrar la e me deparar com o livro do mes e aquela enquete abaixo achei esquisito. O blog está tão bom e claro que acho uma pena bagunçá-lo. Me lembrei do Meia-Palavra que cresceu em tantas novas frentes que morreu de gigantismo.

    1. Oi, Heloísa, olhei aqui na lista de cadastros e seu nome e email já constam entre os usuários do fórum, tenta entrar com seu login pra ver se dá certo.
      Se não der certo, me avisa!

      Quanto ao livro paralelo do fórum, é apenas um projeto de alguns usuários do fórum, o debate não é oficial, haverá apenas um tópico para isso e participa quem estiver com vontade. Aquela enquete é provisória e hoje mesmo será deletada, fiz apenas para ajudar o pessoal a escolher o livro. Não se preocupe que os debates se limitarão ao fórum e não bagunçarão o blog! =)

      Beijo!

  3. Texto muito bonito Lua : ) A introdução falando sobre esse nosso egoismo e o detalhe do facebook ficou muito legal.
    Gostei dos diferentes pontos que você marcou sobre a memoria, foi um ponto que eu não abordei, acho que ainda estou muito focado nesse egoismo que você comentou para dialogar com esse tema do livro, apesar de ser o tema principal, rs.

    Abraços

    1. Obrigada, Filipe! =)
      Pois é, acho que tem a ver com nosso momento pessoal, não é mesmo? Ando num momento nostálgico e acho que isso colaborou para que eu me identificasse com o livro.
      Abraço!

  4. Nossa Lua, como a literatura é incrível! O mesmo livro é muito diferente para cada leitor por isso estou adorando participar desses fóruns. Não gostei muito do livro, creio que fiz uma leitura meio superficial e não consegui enxergar além.

    1. Gláucia, também acho isso incrível, e depende muito do nosso momento também, em determinados momentos da vida certos livros podem nos tocar mais ou menos.
      Beijinho, querida! =)

  5. Lua, esse parece mesmo ser um livro muito forte e impactante. Deve ser por isso que o evitei nos últimos tempos…!

    Conheci-o através de uma sugestão de leitura de uma grande professora de literatura na UFC, semestre passado, na disciplina de Literatura Comparada, mas ainda não me atrevi a lê-lo.

    Quem sabe um dia, quando já tiver aplacado uns certos furacões dentro de mim, eu tenha força para contemplar os pensamentos existenciais de Tony Webster?

    Um grande abraço! ;]

    1. Jéssica, achei um ótimo livro. Infelizmente muita gente no fórum não curtiu, acho que é um livro que você tem que estar no espírito nostálgico, entende? Não tenha pressa para ler esse, acho que você está certa em deixá-lo pra depois. 😉
      Bj!

Deixe um comentário e eu responderei aqui mesmo. Obrigada pela visita!

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