Dois náufragos e seus felinos

Abstraindo toda a polêmica que envolve estes dois livros, já bastante discutida sempre que se fala de um ou outro, segue um breve comentário sobre Max e os Felinos e a A Vida de Pi apenas como um registro de leitura, movida esta, confesso, pela curiosidade em assistir ao novo filme de Ang Lee.

63_maxfelinosMax e os Felinos – Moacyr Scliar

Nesta pequena novela de Scliar, o autor nos apresenta a Max, um menino alemão de 9 anos muito sensível, que tem como símbolo do medo que sente do pai a figura de um tigre de bengala empalhado, que serve de adorno para a loja de peles da família. No decorrer da narrativa, este é apenas o primeiro de três grandes felinos que Max irá enfrentar ao longo de sua vida e todos eles exacerbam o sentimento de impotência do indivíduo perante a um poder superior.

Já adulto, Max irá se confrontar com o felino mais emblemático do livro: o jaguar que viaja com ele num escaler depois de sofrer um naufrágio a caminho do Brasil. Sem a opção de fugir e sem a força para enfrentá-lo, o que lhe resta é alimentar a fera e conviver com a constante ameaça de ele próprio acabar servindo de alimento. Sem dúvida o seu relacionamento com o jaguar durante a travessia no mar é a parte mais envolvente da história contada por Scliar. Depois desse ponto os acontecimentos parecem tomar um aspecto de epílogo e Max se torna um personagem um tanto diferente.

Confesso que tanto neste livro quanto em A mulher que escreveu a Bíblia, me incomodou um pouco certas situações ou pensamentos absurdos na narrativa. Não por serem em si absurdos, mas por destoarem um pouco dos próprios elementos apresentados pelo autor, contradizendo a lógica interna do livro. Talvez isso seja uma característica do Scliar e dá para notar que seu texto é bem despretensioso: ele parece querer contar a história tal qual a imaginou, sem refiná-la muito. Sem ter essa impressão talvez eu tivesse apreciado mais a história.

64_vidapiA Vida de Pi – Yann Martel

Também dividido em três partes, o romance de Martel conta a história do menino Pi, um indiano que se divide em 3 religiões porque busca encontrar Deus de todas as formas possíveis, e que no início de sua vida adulta sofre um naufrágio no Pacífico a caminho do Canadá.

Assim como Max, ele terá um grande felino por companhia em seu bote: um tigre de bengala. Mesmo com sua experiência com animais, já que é filho de um dono de zoológico, o desafio aqui se apresenta bem maior e a sua luta fica mais evidente pela riqueza de detalhes apresentada pelo autor, mostrando Pi com uma personalidade perseverante, capaz de qualquer coisa pela sua sobrevivência.

Enquanto o felino de Max denota opressão, o de Pi representa o limite entre a morte e a vida, onde essas duas realidades se tocam e passam a ser quase a mesma coisa, pois o tigre o ameaça e o preserva. O que é estranho é que, considerando que o personagem apresenta no início do livro várias reflexões espirituais, mesmo diante de sua situação extrema essas reflexões praticamente desaparecem e a sobrevivência se torna o único assunto – algo que de certa forma pode ser explicado no final do livro, mas que ainda assim causa estranhamento ao leitor.

Apesar do livro ser envolvente e bem escrito, o tipo de escrita e soluções de Martel, que é algo mais comercial, de best seller, é algo que me deixa desconfortável e me desagrada muito (senti a mesma coisa, em maior escala, quando li A Pequena Abelha, de Chris Cleave). No Cinema eu até tolero mais, mas na Literatura, dificilmente. Sendo o filme muito fiel, acho mais interessante ficar na versão cinematográfica, com seus belos efeitos visuais.

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12 comentários sobre “Dois náufragos e seus felinos

  1. Lua, tomei abuso desses gatos, tigres, jaguares, seja lá o que seja rsrs Fiquei com muita indignação com a coisa toda do plágio e perdi a vontade de ler e assistir tudo! Mas admiro você e a Ju Gervason por terem feito toda essa jornada! E vamos ver quantos oscars esse Pi vai ganhar né?
    Beijo enorme
    Tati

    1. Tati, fiquei rindo muito aqui com teu comentário! Eu também não agüento mais essa história, até pensei em não falar sobre os livros, mas como eu acabei lendo e os livros têm seu valor, resolvi registrar aqui minha leitura. Realmente esse filme tá com cara de ganhar tudo esse ano. Beijão, linda! =)

  2. Oi, Lu! Poxa, tentei publicar um comentário à tarde, mas só consegui agora! Eu não vi o filmes, nem li os livros. Eu sei que sou um fã de Ang Lee e em algum momento vou assistir ao filme. Senti a mesma coisa sobre ‘A pequena abelha’. Existiu um marketing muito eficiente em torno do livro que, para mim, é muito bom, mas não é como pintaram!
    Beijos!!!!!!!!!

    1. Oba! Sandro conseguiu comentar! =)
      Olha, eu também gosto do Ang Lee e só procurei os livros porque queria ver o filme, mas a experiência foi legal.
      Sobre A Pequena Abelha, eu gostei da personagem, foi uma leitura interessante, mas pra mim não funcionou, me pareceu o típico livro que nasceu querendo virar filme, esperava mais. Beijo!!!

  3. Uma confusão levada há anos pelo comentário hostil e desnecessário do Yann Martel. Enfim, não li nenhum dos dois livros e não sei se tenho interesse em lê-los (quem sabe no futuro ^^). Mas, assisti ao filme e creio que sou uma das poucas(?) que desgostou. O motivo não é a espiritualidade, mas a cansativa narrativa. É muito marketing em cima de uma história razoável.

  4. Estava louca para ler suas observações sobre as histórias!
    Polêmicas à parte, acho que cada história tem seu valor. Pelo que entendi, embora a situação seja a mesma (garoto em um barquinho com um felino), a relação que o menino tem com a fera no primeiro caso é diferente do segundo. Continuo com vontade de ler os dois livros.
    Quanto ao filme, achei incrível, mas não sei se vai ganhar tanto Oscar assim. Vamos aguardar.
    bjo

    1. Michelle, a relação é bem diferente mesmo! Mas quando você conseguir ler os dois livros vai entender os motivos da polêmica. Dá pra perceber claramente que o Martel leu o livro do Scliar, algumas coincidências não poderiam ser somente coincidências. Sabe que depois que vi a lista dos concorrentes também tenho minhas dúvidas? Muitos filmes bons esse ano! Beijo! =)

  5. Oi Lua!
    Eu li o Scliar e tive a mesma sensação que vc, de que o texto é despretensioso. Na última parte tudo acontece tão rápido que eu fiquei pensado “poxa, ele podia ter trabalhado mais nisso”, uma pena.
    O Pi eu não li e provavelmente não lerei tão cedo.
    Tive a mesmíssima impressão quando li o Pequena Abelha, história interessante totalmente feita pra vender. Uma pena quando sentimos isso =/
    Bju grande

  6. Olá!
    Eu nao cheguei a ler Max e os Felinos, mas li As Aventuras de Pi e adorei a história. O final do livro e a total reviravolta que ele nos faz observar em tudo o que foi contado ate então conseguiu me consquistar! Adorei sua comparação e o fato que, apesar de todo o burburinho, você ter ido atras, lido os dois e tirado sua própria conclusão acerca do plágio ou não plágio. Não acho bacana quando um livro é abandonado sem nem ao menos ter a chance de tentar conquistar o leitor só porque está mal falado ou algo do gênero!
    ótimo post!

    1. Dener, o grande lance do livro é, sem dúvida, a reviravolta no final, mas no geral é um bom livro. Não tem como comparar muito os dois porque são propostas diferentes, mas lendo os dois não há a menor dúvida de que Martell leu o livro do Scliar. 😉
      Bj!

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