Emma – Jane Austen [Fórum Entre Pontos e Vírgulas Dez/2012]

Este texto participa do Fórum Literário Entre Pontos e Vírgulas, que tem como leitura do mês o livro Emma, de Jane Austen. Como é voltado para pessoas que leram o livro, pode conter revelações sobre o enredo.

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Em 2008 fiz parte de um clube de leitura sobre Jane Austen e lembro que antes de aceitar participar, tinha um certo preconceito com a autora, achando que sua literatura seria muito água com açúcar para o meu gosto. Eu estava enganada, é claro, pois apesar de não ter faltado açúcar em nossas reuniões – já que, para entrar no clima, aproveitávamos para discutir os livros tomando um chá da tarde –, constatei que os romances de Austen oferecem muito mais crítica e sarcasmo à sociedade inglesa retratada do que mesmo a preocupação com um amor romântico.

O grande tema que se destaca nos livros que já li da autora é a condição da mulher de seu tempo, que dependia de herança ou de casamento para garantir um bom status social e financeiro para o resto da vida. O trabalho, principalmente para as mulheres, não tinha um valor edificante, mas sim degradante, e o casamento era o ponto mais alto de alguma experiência de poder feminino possível.

A maioria dos relacionamentos voltados para o casamento começavam com a constatação de que são convenientes, e a vaidade, muito mais que o amor, era quem dava as cartas na hora da escolha dos pares. As protagonistas de Austen geralmente são exceções porque se apaixonam, mas longe de serem mocinhas perfeitas, sempre fazem algumas escolhas erradas para acertar depois. E Emma talvez seja a menos perfeita de todas elas.

Vaidosa, rica e mimada, Emma julga o amor e o casamento como coisas abaixo de sua condição social. Sem mãe, com um pai que não passa de um egocêntrico hipocondríaco e uma governanta que não consegue ter poder sobre ela, Emma tem apenas a figura de Mr. Knightley, amigo da família, como uma espécie de grilo falante a todo tempo tentando educá-la – o que nem sempre a impede de fazer o que bem entende. Somente quando a governanta, sua melhor amiga, deixa seu posto para casar é que Emma percebe sua solidão e seu drama inicia.

É difícil gostar de Emma porque ela é uma heroína cheia de defeitos e com problemas superficiais, muitas vezes levada pela vaidade, a inveja e a manipulação da vida alheia – o que seriam características mais próprias de uma vilã –, mas ao mesmo tempo cheia de boas intenções e doçura, contraste que a deixa muito mais humana que as mocinhas comuns. Como não precisa de nada, Emma precisa perder algumas coisas para evoluir, fazendo um caminho inverso ao das usuais princesas, como afirma David Lodge, em A Arte da Ficção:

“O romance será o avesso da história de Cinderela, o triunfo da heroína subestimada, que de Orgulho e Preconceito a Mansfield Park já vinha despertando a imaginação de Jane Austen. Emma é uma princesa que precisa ser humilhada para atingir a verdadeira felicidade.”

Além do percurso de Emma, é possível detectar no romance alguns tipos de destino possíveis às mulheres, através de algumas personagens. Miss Bates, por exemplo, é a solteirona pobre que tudo que tem é uma boa relação com a comunidade, por sua família ter um nome. Sua sobrevivência é garantida pela caridade dos amigos, o que a torna uma enorme bajuladora. Já Harriet Smith não tem nome ou família, mas como é bonita, sua melhor escolha é casar com quem aceite sua situação. Jane Fairfax é órfã e pobre, e como foi criada por uma família rica, sofre com a possibilidade de não conseguir casar e ter que se tornar uma governanta. Miss Taylor, simples governanta de Emma, consegue uma grande emancipação ao fazer um bom casamento, ao contrário de Miss Hawkins, que sai de sua vida confortável na casa dos pais para se casar com um homem de poucas posses, somente pelo orgulho de estar casada. Em Jane Austen, portanto, amor, berço e dinheiro andam de mãos dadas e o leitor que só consegue enxergar o romantismo água com açúcar em seus livros talvez esteja um pouco desatento.

A narrativa bem amarrada da autora perde muito sua força na terceira e última parte do livro, principalmente depois do clímax, com Mr. Knightley e Emma se declarando um ao outro. A partir daí não há mais surpresas ou novidades, e a leitura fica enfadonha. Ainda assim a leitura no geral foi prazerosa, especialmente pelos momentos cômicos encabeçados por personagens como Mr. Woodhouse e Miss Bates; pelos mal entendidos de uma sociedade que não deixa transparecer seus sentimentos e por uma certa beleza da vida cotidiana e privada, que faz com que os personagens sejam familiares e facilmente reconhecíveis, nos dando a impressão de que os conhecemos de algum lugar.

Para quem tiver interesse em participar da discussão sobre o livro, é só acessar o canal da Denise Mercedes a partir do dia 20 de dezembro.
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13 comentários sobre “Emma – Jane Austen [Fórum Entre Pontos e Vírgulas Dez/2012]

  1. Eeeeee! Você voltou!
    Engraçado que eu também achava que as histórias da Jane Austen seriam “água com açúcar”, mas me surpreendi com as críticas que ela faz e com a força de suas personagens. “Emma” eu ainda não li, mas “mimada” é uma palavra bastante usada para descrever a protagonista. Acho que vou gostar da história.
    beijo!

    1. Michelle, eu não sei se foi porque foi o primeiro que li, mas gosto muito de Razão e Sensibilidade também. Acho que Jane Austen é legal ler pelo menos uns 3 livros pra ter uma visão geral sobre ela. Emma talvez tenha sido o que achei mais engraçado. =) Beijo!

  2. Não vou ler o post ainda, quero reler o livro antes!
    Mas que saudade de ver seu blog atualizado!! Espero que a Olivia te permita estar aqui de vez em quando 😉
    Beijos!!

    1. Tati, que bom te ver por aqui! Eu já disse pra ela que tem que me deixar postar, rs. Ultimamente ela até que tem estado boazinha, rs. Beijão, querida!

  3. Austen é uma autora muito forte. Ela foi uma das maiores responsáveis pelo meu revival de leitura pós entrada na universidade, rs!

    Emma é muito divertido, mas nem passa perto da obra-prima austeniana, que na minha opinião é Orgulho e Preconceito.

    E pouco tem mesmo de açúcar nas histórias dela, se pensarmos que casar por amor naquela classe e época era um ato revolucinário (mas até hoje é, se olharmos pra certos contextos!).

    Beijão!

    1. Jéssica, eu preciso reler um dia OeP, foi uma obra que na época não me chamou tanta atenção como Razão e Sensibilidade.
      Exatamente, as pessoas interpretam Austen com os olhos de hoje, por isso acham que são meras histórias românticas (não que haja algo errado com histórias românticas).
      Fico imaginando o que ela escreveria nos dias de hoje! =) Beijos!!!

  4. Olá Lua, também estou participando do fórum e vim visitá-la =].

    Muito interessante a pontuação que você fez sobre o destino das personagens femininas. Resume bem a falta de opções que elas tinham.

    Mesmo sendo meu primeiro contato com a narrativa de Jane Austen, nunca achei seus romances água com açúcar. Assisti a alguns filmes e séries baseados em suas obras, e enxergava a vida doméstica deste período.

    Concordo que os personagens são familiares e facilmente reconhecíveis. Eu por exemplo, conheço uma Miss Batesrs rs.

    Abraços!

    1. Oi, Lulu! Obrigada pela visita! Olha, acho que também conheço uma Miss Bates, mas o mais reconhecível pra mim foi o Sr. Woodhouse, conheço pelo menos umas 2 pessoas daquele jeito, rs. Beijinho!!! =)

  5. Que pena que nessa época eu ainda não participava do fórum, Lua! Teria adorado discutir Emma com vocês =D
    Eu evito ao máximo criticar o que eu não conheço e Jane Austen é um grande vítima disso. Conheço várias pessoas que dizem não gostar dela porque assistiram Orgulho e Preconceito com a Kiera Knighley e não gostaram. Agora estou com uma política de não justificar mais minhas leituras para os outros. Se a pessoa acha que é sub-literatura (o que quer que seja isso), paciência.
    Beijos!
    P.S. Concordo com você que o livro perdeu força no final. Nunca entendi porque Austen ficou prolongando o casamento de Emma e Knighley…

    1. Eduarda, eu entendo que uma pessoa não goste de Jane Austen, mas não entendo dizer que é mal escrito ou que seus livros são menores. Pelo contrário, pelo menos na Inglaterra ela é considerada alta literatura, mas sabe como é, essas discussões vão longe! 😉
      Beijinho!!

Deixe um comentário e eu responderei aqui mesmo. Obrigada pela visita!

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