O Apanhador no Campo de Centeio – J.D. Salinger

Houve um tempo em que sempre que ouvia o título deste livro eu imaginava um grande épico sobre alguma família no campo. Depois que descobri que era sobre alguns dias na vida de um adolescente em Nova York nos anos 50 fiquei curiosa para saber o que tinha a ver uma coisa com a outra, mas só recentemente achei que era a hora de lê-lo.

Holden Caulfield tem 16 anos e está internado em algum lugar para recuperar-se de um esgotamento nervoso. Ele é o narrador de sua história e conta o que se passou com ele para que chegasse a esse ponto, ao mesmo tempo que divaga e reflete sobre a vida, sua família e sua dificuldade de se relacionar com os outros. Como todo adolescente, mas em maior escala que a média, Caulfield é intolerante com qualquer característica que remeta ao mundo adulto. Não suporta hipocrisia e convenções sociais, e acha muito desagradável que o mundo seja cheio de “falsidade”, com as pessoas escondendo o que realmente sentem e pensam, bem como o que acham umas das outras, formando um jogo de fingimento que ele sabe ser necessário para a vida social, mas que ainda assim o incomoda muito.

Mas se por um lado ele busca sinceridade e verdade, ele mesmo não é sincero com os outros e consigo mesmo, e isso é apenas uma das características que o fazem contraditório o tempo todo: ele anseia por companhia e se sente muito sozinho, mas ao mesmo tempo sabota suas relações por não saber lidar com elas, e ao tentar se proteger da dor, se aliena e colhe uma solidão insuportável. Ele quer fugir da vida cotidiana padronizada em que todos seguem o mesmo curso, fazem as mesmas coisas e dizem as mesmas frases, mas no fundo ele tem muito medo da maturidade que está para chegar e só consegue admirar pessoas que ele julga simples ou puras, como as crianças, especialmente sua irmãzinha Phoebe.

O livro é repleto de simbolismos, sendo o mais óbvio o chapéu de caça vermelho que ele usa para fugir de sua realidade, uma marca de individualidade típica dos adolescentes para assinalar o não-pertencimento a uma sociedade que ele julga hipócrita. É um clássico romance de formação, mas como ele mesmo deixa claro no primeiro parágrafo, essa história não será contada como a de David Copperfield, nem no formato, porque se restringirá a apenas alguns dias de sua vida, nem no estilo, já que Salinger se utiliza do chamado skaz adolescente: uma narração que lembra muito mais a fala do que a escrita, semelhante ao que Mark Twain fez em As Aventuras de Hucleberry Finn (aliás, os dois livros são usualmente comparados, como se Caulfield fosse uma versão urbana e refinada de Huck).

Essa linguagem usada pelo autor, inclusive, aproxima muito o leitor do narrador, o que acaba reativando alguns questionamentos da adolescência, nos lembrando de que as coisas não são muito diferentes por termos uma idade ou outra, a mudança é apenas de perspectiva, de como encaramos a vida: não é difícil encontrarmos Caulfields de todas as idades, que em vez de enfrentarem seus medos e desafios, encontram desculpas, como a falta de disposição. Não é difícil qualquer um de nós escolher agir assim em um momento ou outro como forma de nos protegermos de algo que não queremos encarar e é esse é apenas um dos motivos pelos quais O Apanhador no Campo de Centeio não é um livro juvenil, ainda que deva ser uma leitura incrível para quem estiver nessa fase.

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19 comentários sobre “O Apanhador no Campo de Centeio – J.D. Salinger

    1. Molandinha, quando você quiser o meu emprestado, é só pedir, viu? Até porque ele é bem carinho na versão nacional.
      Pois é, eu tentei fugir de alguns “extras” que sempre comentam sobre ele e me concentrei mais no livro mesmo, rs. Beijos!!!

  1. Aha! Então esse é o seu adolescente de 16 anos…
    Quando peguei para ler esse livro, já tinha ouvido muito falar que era a história de um serial killer. Com isso na cabeça, me decepcionei um pouco, pois Caulfield tem seus momentos violentos, mas não era o psicótico sanguinário que eu tinha imaginado. Acho que é mais um daqueles livros que têm mais impacto se lido quando temos determinada idade. Para variar, eu já tinha idade demais quando li. Mas, no geral, gostei. Foi só a expectativa alta demais que atrapalhou.
    bjo

    1. Mil perdões, Michelle! Às vezes alguns comentários vão para o spam, sei lá por que motivo! Acabei de encontrar seu comentário perdido, desculpa!
      A expectativa errada realmente pode acabar com a leitura. Na verdade o fato do livro ser associado ao assassino do John Lennon leva as pessoas a acharem que se trata de um serial killer quando na verdade não tem nada a ver. É apenas um livro sobre a entrada no mundo adulto e me conquistou pela escrita do autor e os recursos simbólicos que ele usou. Beijão, querida! =)

      1. Sem problema! Isso acontece comigo também. É que fiquei na dúvida se o comentário tinha sido enviado, pois mandei pouco antes de desligar o PC e já estava com sono…rs
        bjo!

        1. Então… hoje estava escrevendo minha resenha sobre esse livro e lembrei do seu post. A leitura que fiz agora foi completamente diferente daquela que fiz pela primeira vez. Gostei demais, viu?
          bjo

          1. Que massa, Michelle! Vou ficar atenta à tua resenha. Uma coisa legal desse livro é que ele virou meio cult e se não me engano o autor teve o cuidado de não deixar que ele virasse filme (se bem que eu não sei se ele funcionaria dessa forma). Beijos!!!

  2. “Houve um tempo em que sempre que ouvia o título deste livro eu imaginava um grande épico sobre alguma família no campo.”

    Disse TUDO! Eu também pensava a mesma coisa até ter a oportunidade de ler a Biografia do Salinger (Que muito bacana e sofrida é a vida desse homem)
    Ainda não li o apanhador, mas é uma das possíveis aquisições para esse ano. Estou louco com as obras do Salinger desde que li a biografia.
    Esses tempos vi vendendo a versão em inglês. É uma vergonha ver a versão em Inglês mais barata que a versão em Português! Fico ainda mais indignado quando converso com uma amiga em Portugal e ela diz que lá os Livros Brasileiros são Baratos, assim como os livros que vem da Inglaterra e os Estados Unidos da America. Da uma revoltinha no peito – e no bolso –
    Beijão!

    1. Oi, Jon! Realmente a versão nacional é cara e até me arrependi um pouco de não ter comprado a original, mas como imaginei que algumas gírias antigas iam deixar a leitura menos fluida, acabei optando pela tradução mesmo. Mas acredito que nesse caso é um livro caro porque é de uma editora menor, e em Portugal alguns livros ficam mais baratos simplesmente porque se não for assim, não vende! rs Aqui não temos muita escolha, não temos muitos leitores e acabamos pagando mais caro. Beijo! =)

  3. Eu partilhava da sua ‘expectativa’ de leitura a partir do título, Lua, rs!

    Muito interessante o plot (outsiders têm grandes chances de me atrair, sempre!), e a forma que o autor usa, segundo você disse aqui, também me parece muito adequada a uma história tão confessional e já moderna (sim!).

    Abraço!

  4. Oi Lua, nossa que saudade que eu estava de ler seus posts! Agora com as coisas mais ajeitadas vou tentando retomar meus hábitos, leituras e visitas aos blogs queridos!
    Esse livro é um top que eu quero ler há muito tempo, até comprei ele naquela promoção que eu comprei mais de 80 livros, mas minha cunhada pediu emprestado e deixei com ela, fica pra volta!
    No começo o título não me chamava muito a atenção, me dava certa preguiça, confesso, mas depois que soube um pouco sobre o enredo, fiquei muito curiosa. E ainda estou!!!
    ótima resenha, mas isso já é comum te dizer! 😉
    Bjaum

    1. Oi, Cah! Também tava com saudade de você aqui! Esse livro é daqueles que depende muito do espírito do leitor, tem muita gente que não gosta, especialmente por causa do personagem, mas se você for capaz de se identificar com ele de algum modo (nem que seja lembrando da própria adolescência) a leitura é boa. Beijão!!

  5. Lua, muita saudade de passar aqui! Mas é sempre assim, quando as aulas voltam, minha vida vira de pernas para o ar… Atualizar o blog fica impossível, mas passar para visitar as amigas eu tento sempre! Eu li O Salinger quando era adolescente sim, mas depois da sua resenha morri de vontade de ler novamente. Como você ressaltou é uma leitura para todas as idades, afinal, como diz a psicanálise, a criança e o adolescente que nós fomos continuam nos visitando sempre, principalmente em situações dificeis. E o Caulfield é um personagem de uma riqueza impressionante!!
    Beijos, boa semana =)
    Tati

    1. Tati, querida, eu entendo! Ultimamente estou um pouco atrasada com as postagens daqui também, é assim mesmo! Mas espero que você volte em breve!
      Beijos!!!! =)

  6. Eu quero muito ler o livro só para conhecer..a história de vida do autor me fascina a ponto de querer conhecer sua obra…eu assisti ao filme e acho que o título é magnífico!!! D+++ Agora só falta eu ler a obra!

  7. Lunita, eu li o seu Apanhador hoje. O Caramelo andou lendo também e vou devolvê-lo com marcas de unhas de gato. Eu sofri muito com o Holden, durante e depois do livro. Os capítulos finais foram de doer, doer muito. Ele é um cara perdido que não sabe como pedir ajuda. Todos que querem ajudá-lo não tem a paciência de escutá-lo, de entender a origem do que o faz sofrer. Ele é muito sensível, enxerga coisas que passam despercebidas a todos ao redor. Várias cenas exemplificam isso, mas não vou dar spoiler. Só quero dizer que sou totalmente empática à solidão do Holden e acho que ele tem muito a nos ensinar.

    Adorei a sua resenha!

    Bjs
    S.

    1. Eu também tenho carinho pelo Holden, Socorrita, e olha que eu sou difícil com adolescentes, mas ele é tão real!
      Diga ao Caramelo que ele pode arranhar o livro à vontade! rs
      Beijos!

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