Duas aventuras de H.R. Haggard

Quando criança, fantasia associada a aventura e descoberta de civilizações perdidas formavam para mim uma equação irresistível, coisa que deve ter começado através das caças ao tesouro protagonizadas pelo Tio Patinhas e os filmes da tarde com as sagas de Simbad ou Indiana Jones. Numa destas sessões assisti a uma das versões de Ela e fiquei muito intrigada com a história, especialmente o final. Recentemente lembrei do filme e descobri que é uma adaptação de um best-seller de H. Rider Haggard, o mesmo autor do famoso As Minas do Rei Salomão e que, com suas obras, iniciou o subgênero lost-world nos livros de fantasia.

Apesar de ser um dos livros mais vendidos de todos os tempos, dificilmente ouço falar de alguém que tenha lido Ela ou mesmo conheça sua história. O narrador é Holly, um professor de Cambridge que juntamente com seu filho adotivo Leo e seu criado Job seguem em uma perigosa aventura na África a fim de entender a herança histórica da família de Leo. Lá eles descobrem uma civilização escondida, comandada por Ayesha, uma belíssima mulher que vive há dois mil anos. Se por um lado a história é curiosa e influenciou inúmeros escritores mais tarde, como Rudyard Kipling e J.R.R. Tolkien, por outro é incômodo para o leitor de hoje perceber de maneira tão escancarada alguns valores racistas e machistas dos vitorianos. Apesar de Ayesha ser uma mulher com extremo poder – é absurdamente bonita e sábia e possui poderes sobrenaturais e grande capacidade de comando – sua soberania não é vista com bons olhos, mas como algo perigoso à humanidade, e infelizmente sua devoção romântica a Leo por vezes acaba ajudando a diminuir a força da personagem.

As Minas do Rei Salomão também conta uma aventura na África e é narrada pelo caçador Allan Quatermain, que possui um mapa para as incríveis e secretas minas do rei bíblico. Com a companhia de Sir Henry Curtis, o Capitão Good e o nativo Umbopa, os personagens farão uma longa jornada através de um deserto africano, cada um com seu motivo e missões pessoais. Os tipos de situação que eles enfrentam são semelhantes aos que vemos em filmes com o personagem Indiana Jones (que parece ter sua origem em Quatermain), com direito a batalhas contra um rei africano sanguinário, trapaças de uma feiticeira maligna e cavernas com mecanismos secretos. Assim como em Ela, Haggard traz um narrador um tanto contraditório, que se divide entre mostrar os africanos como bárbaros e ao mesmo tempo, em algumas situações, considerá-los como mais cavalheiros que certos europeus. É fácil encontrar sua edição traduzida por Eça de Queiroz.

A escrita de Haggard não oferece muitos atrativos, mas não há como negar que ele foi muito criativo em suas histórias, aproveitando sua experiência na África para pormenorizar suas descrições. Tendo influenciado tantos livros e filmes que vieram depois, estas obras não causam muito impacto nos dias atuais e são previsíveis e ultrapassadas – as situações repetitivas e os monólogos cansativos dos narradores também não ajudam. Ainda assim, guardarei a cena final de Ela com carinho nas minhas lembranças de infância.

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12 comentários sobre “Duas aventuras de H.R. Haggard

  1. Realmente, o “Ela” é um dos mais vendidos do mundo, mas aparentemente por todo o mundo menos no Brasil, porque você é a primeira pessoa que conheço em vida que diz ter lido esta história. 🙂 É sem dúvida um livro que lerei antes de morrer, tanto o “Ela” quanto “As Minas do Rei Salomão”.

    Beijão, Lua! :-*

    1. Eni, eu fiquei impressionada quando soube a quantidade de exemplares vendidos de Ela, está entre os 10 mais! Realmente ele não parece ter pegado por aqui, mas eu gostei mais dele do que As Minas. O bom é que os dois são fáceis de achar para download para quem lê digitalmente. Beijos!!!

  2. Oi, Lua! Nas entrevistas sobre a criação de Indiana Jones, nem Lucas nem Spielberg citam H.R. Haggard. Indiana surgiu a partir dos filmes de um produtora dos anos 30 chamada Republic, que rodava filmes de aventureiros com o visual de Indiana Jones (veja no you tube). O chapéu, o chicote, a arma na cintura, as civilizações perdidas, os objetos valiosos, etc. Talvez Quartemain tenha influenciado esses produtores da Republic, já que o livro é de 1885, né? Nesse caso, por tabela, também influenciou Lucas e Spielberg. Ms, que eu me lembre, ele nunca citaram Haggard, apenas as aventuras da Republic.
    Adorei o texto. Adoro essas aventuras. Meu primeiro filme em videocassete (Nossa Senhora!!!) foi Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida. Adoro até hoje!
    Não conhecia Ela, apenas a Minas do Rei Salomão!
    Beijos!!!!!!!!!!!!!

    1. Oi, Sandro! O Indiana é um personagem original, por isso não é citado por seus criadores, mas com certeza foi inspirado no personagem Quatermain. Se foi consciente ou não, eu não sei, mas se você fizer uma busca com os nomes dos dois vai encontrar muita coisa em comum.
      Eu também adoro aventuras até hoje, especialmente quando quero uma leitura simples e descompromissada ou, no caso do cinema, um filme divertido! Ultimamente não tenho visto muitos filmes interessantes do gênero, prefiro ver os antigos que fizeram minha infância, confesso! Mas a saga de Guerra dos Tronos, apesar de não ser exatamente aventura, está resolvendo bem essa parte. Beijo!! =)

  3. Fiquei até com vergonha de comentar. Acredita que nunca vi e nem li nenhum dos livros/Filmes que estão citados aqui? Aliás, nunca ouvi falar de “Ela” e fiquei muito curioso com a história.
    – Também nunca li “As Minas do Rei Salomão”. Mwuahahahahaa. Ai ai ai, mais livros, mais livros! Meu bolso que aguente, fazer o que. Já entrou (entraram) para minha longa lista de livros a serem comprados!
    Beijão! 🙂

    Jon

    1. Que é isso, Jon, nada de ter vergonha, ninguém conhece tudo e eu também só li estes livros agora! =)
      Apesar de Ela ser um dos livros mais vendidos de todos os tempos, acho que pouca gente o conhece aqui no Brasil. “As Minas” é mais conhecido, mas acho que atualmente não é muito popular, rs.
      São livros datados, então só recomendo para quem tem curiosidade mesmo! =) Beijo!

  4. Lua,
    não conhecia o Ela; mas As MInas conhecia e amei o filme! haha!
    Uma certa fase da minha adolescência eu e minhas irmãs só víamos esse tipo de filme! Como vc, eu amava essa coisa toda de civilização perdida e aventuras. Além disso, eu já desenvolvia toda uma relação com suspense e investigação e, nessa fase, eu até queria ser arqueóloga, rs.
    Beijos!

    1. Mercedes, eu não lembro se cheguei a assistir ao filme d’As Minas, por isso não comentei no texto, mas devo ter visto em alguma sessão da tarde! rs
      Nossa, civilização perdida era comigo mesmo, também cheguei a pensar em ser arqueóloga, rs, acho que naquela época todo mundo achava que a profissão era uma espécie de caça ao tesouro! 😀
      Beijão!!!

  5. Oi. Curioso realmente é perceber que não conheço ninguém que tenha lido Ela, a não ser eu e agora você. Li também A Volta de Ela em edição portuguesa. Isso em 1980 e pirlulitos. E olha que na época fiz muita propaganda entre os amigos que gostam de ler. Enfirm é uma boa aventura para passar o tempo. Beijo.

  6. Amiguinha, eu sou o Rivaldo. Conhecí este livro através do filme com Ursula Andress e resolví procurar. Achei o livro que conseguí baixar mas, tem um outro livro chamado Ayesha, a volta de Ela de Haggard que eu não consigo baixar. Com este livro voce se prende até o fim porque é muito bom.Mas, o outro livro que é as extensão dele não conseguí baixar. O nome é “Ayesha, a volta de Ela. Caso você saiba como, eu agradeceria.

    razevedo98@gmail.com

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