On the Road (Pé na Estrada) – Jack Kerouac

Quando jovens, somos levados facilmente pela idolatria porque ainda não descobrimos quem somos ou não acreditamos em nossas próprias qualidades ou queremos uma realidade maior que a oferecida diante de nossos olhos. Geralmente precisamos de alguém que nos puxe pela mão para fazer as coisas que queremos fazer, e é um pouco o que acontece com Sal Paradise e Dean Moriarty, em On the Road. Com o propósito de descobrir o que é a vida, o que é a América, o que é Deus e o sentido de tudo, Sal precisa pegar a estrada e ser apóstolo de Dean, que serve de condutor não só como motorista mas também como “santo” idolatrado, que orienta a uma vida plena de liberdade no final dos anos 40.

“…e eu me arrastava na mesma direção como tenho feito toda minha vida, sempre rastejando atrás de pessoas que me interessam, porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo em constelações…”

A vida proposta por Dean é a vida do cada dia com sua preocupação; sem pensamentos sobre carreira profissional ou investimentos pro futuro, mas a mais pura e primitiva vida compromissada apenas com o agora e com os desejos imediatos, ainda que isso signifique muitas vezes babaquice ou criminalidade. A liberdade de ser e fazer o que quiser, uma espécie de egoísmo infantil que se preocupa apenas com o querer, independente do que isso possa significar para os outros. A liberdade do seguir em frente e não ficar parado, de descobrir o que há além e experimentar todos os prazeres possíveis.

“Inclinou-se sobre o volante e deu a partida; estava de volta a seu elemento natural, qualquer um podia perceber. Ficamos maravilhados, percebemos que estávamos deixando para trás toda a confusão e o absurdo, desempenhando a única função nobre de nossa época: mover-se.”

Se para Sal a aventura da estrada é uma peregrinação espiritual e despedida da última infância, naquela idade em que ainda podemos fazer loucuras sob a desculpa de nossa juventude, para Dean é a única forma de viver, atropelando as pessoas que o amam porque o mais importante é seguir em frente. Dean não tem nada a oferecer, senão o entusiasmo pela vida. Sua ideia de liberdade é romântica e atraente, mas é um fogo que aquece e queima os que se aproximam. Ainda assim, Sal insiste em vê-lo como salvador, no fundo porque ele quer ser Dean Moriarty, ser tudo o que não é; ele quer entender a vida sob outros olhos porque sua própria vida não lhe ofereceu o que era necessário:

“Num entardecer lilás caminhei com todos os músculos doloridos entre as luzes da 27 com a Welton no bairro negro de Denver, desejando ser um negro, sentindo que o melhor que o mundo branco tinha a me oferecer não era êxtase suficiente para mim, não era vida o suficiente, nem alegria, excitação, escuridão, música, não era noite o suficiente. (…) Mas era apenas eu, Sal Paradise, melancólico, errando nessa escuridão violeta, naquela noite insuportavelmente encantadora, desejando poder trocar meu mundo pelo dos alegres, autênticos e extasiantes negros da América.”

Quando li On the Road aos 18 anos o livro causou um grande impacto em mim: eu queria ter experiências semelhantes às de Sal, pelo menos no que diz respeito às viagens. Queria encontrar pessoas diferentes e interessantes, queria colecionar histórias, queria ver a estrada e as diferentes vegetações do meu país através das janelas laterais de um carro ou de um ônibus… 18 anos depois não dá mais para se identificar tanto com os personagens, mas penso que o que ficou de mais importante pra mim desta estrada percorrida por Sal e Dean é o eterno questionamento, é o ímpeto de tentar não fazer as coisas da mesma forma que todos já fazem ou fizeram, de não se deixar cair numa fôrma e se acomodar na tradição. Perguntar-se sempre se o que queremos fazer é realmente o que queremos ou apenas o que é esperado de nós, para só então tomar uma decisão, seja ela qual for, ainda que seja a mais segura.
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Adaptação: Na Estrada (On the Road, 2012) – Walter Salles

O filme de Walter Salles destaca Sal como escritor e a amizade dele com Dean, dando uma importância maior à Marylou e Camille, esposas de Dean. Infelizmente o episódio com Terry e Sal – uma das melhores partes do livro na minha opinião – não foi desenvolvido como deveria, mas algumas outras situações foram bem retratadas. Fiquei um pouco incomodada com a escolha de Sam Riley como Sal Paradise, que não me pareceu certo para o papel (ainda que bom ator), mas ainda assim é um filme bonito e com bons momentos.

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7 comentários sobre “On the Road (Pé na Estrada) – Jack Kerouac

  1. Ah Lua, eu confesso que apesar de ter passado dos 18 há muitooo tempo, ainda tenho muitas reminiscências de Sal Paradise em meu sangue. Simplesmente amo On the road, foi um dos livros mais importantes na minha adolescência. Tô louca pra ver esse filme, pra relembrar tantos momentos sonhando.
    Beijos
    Tati

    1. Tati, eu também tenho e eu adoro o Sal, especialmente longe do Dean, mas ao mesmo tempo Dean faz ele se mover, então é um sentimento meio paradoxal.
      E engraçado é que nem tento ver ele muito como o Jack, mas como um personagem à parte mesmo!
      On the Road também é um dos livros da minha vida pois eu sou mais uma que ficou apaixonada quando leu na adolescência, fiquei totalmente obcecada pelos beats na época. Infelizmente, quando reli esses dias não foi a mesma coisa, fiquei até com raiva de mim por ter relido porque acabei vendo com outros olhos e estraguei um pouco minha lembrança. Mas como eu falei no texto ainda guardo em mim um pouco do espírito da coisa, só não consigo mais me identificar como antes. Depois quero saber tua opinião sobre o filme. Beijos! =)

  2. Não li o livro e acho que é um daqueles que tem momento certo para ser lido. Ao que parece, o meu passou faz tempo. Acho que vou ficar só com o filme. Se gostar muito, talvez me arrisque a conhecer a história escrita.
    bjo

  3. Ótima resenha Lua! Apesar dos meus 18 anos terem ficado pra trás – e de eu ter sido sempre muito tímida pra tentar correr grandes riscos – gosto de histórias de quem corre riscos e se aventura… Talvez, ainda que atrasada, me reste um pouquinho de tempo pra arriscar! Pelo menos eu gosto de pensar que sim!
    Beijo

    1. Cah, acredito que On the road é muito criticado também porque funciona mais como uma espécie de crônica poética do que um romance. Por ser autobiográfico, os personagens acabam não sendo muito aprofundados porque sabemos que são reais e Kerouac não poderia conhecer o que se passa na cabeça de pessoas reais, entende? É um livro bonito, na minha opinião, mas arriscado pra quem já passou da idade, quem sabe você gosta, você é bem mais jovem do que eu, rs. Beijinho!

  4. ser jovem ,ou nao ser jovem essa nao e a questão , o importante mesmo e se deliciar com os personagens, entretanto para ser jovem nao precssamos repetir as mesmas coisas que alguem fez por que estar no livro ou filme.

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