A Mulher que escreveu a Bíblia – Moacyr Scliar

Uma maneira de ver o Destino é como aquele conjunto de coisas das quais você não pode escapar: nascer mulher ou homem, em um determinado país, em uma determinada família, com uma determinada aparência – que irá ou não satisfazer o gosto da sociedade em seu momento histórico –, condição social favorável ou não, enfim, uma específica combinação de características que você não escolheu e que de certa forma servirão de funil para suas possibilidades de vida. Esse tipo de Destino, que aponta mais para o passado e o presente do que para o futuro, nos lança um desafio pra vida, tornando-a um jogo de escolha daquilo que você irá aceitar e daquilo que irá tentar transformar ou compensar.

Em A mulher que escreveu a Bíblia, Scliar constrói uma personagem cujo Destino foi bastante cruel: numa época em que o valor de uma mulher era medido somente pela beleza e fertilidade, ela nascera incrivelmente feia. Não ajudava muito ser filha de um mero pastor de cabras e ter uma bela irmã, mas pelo menos ela sabia ler e escrever e também era a primogênita, o que lhe rendeu ser uma das setecentas esposas do rei Salomão e acabar se tornando uma redatora da história dos judeus.

A narrativa, no entanto, é o relato de uma mulher dos dias de hoje contando como foi ser essa moça em uma vida passada, usando referências modernas e analisando as situações como se acontecessem no nosso tempo. O anacronismo na linguagem e o erotismo escrachado dão o tom de humor do livro, bem como as situações e pensamentos absurdos da personagem, com suas fantasias ingênuas de menina apaixonada, que ora incomodam, ora fazem rir. O texto inclusive foi adaptado para o teatro em 2007 e se tornou uma peça cômica.

Uma leitura leve, mas que também questiona o papel da mulher na história, o quanto a beleza define esse papel e como a condição feminina atual ainda é atrelada ao mundo masculino. A moça feia vive em função da aceitação dos homens e ao mesmo tempo se descobre em seu processo de sublimação, transformando seu Destino de uma maneira não muito diferente do que muitas mulheres fariam hoje:

“Minha vida tinha agora um sentido, um significado: feia, eu era, contudo, capaz de criar beleza. Não a falsa beleza que os espelhos enganosamente refletem, mas a verdadeira e duradoura beleza dos textos que eu escrevia, dia após dia, semana após semana – como se estivesse num estado de permanente e deliciosa embriaguez.”

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8 comentários sobre “A Mulher que escreveu a Bíblia – Moacyr Scliar

  1. O trecho escolhido é muito bom. Apesar de tantas mudanças, é incrível como as mulheres ainda são definidas pelas mesmas coisas que as definiam há séculos. Triste.
    bjo!

  2. A mulher e suas prisões eternas. Antes era a falta de liberdade para fazer as mesmas coisas que os homens fazem, hoje é a falta de liberdade para não depender tanto emocionalmente e fisicamente da beleza e da aparência. Duplas, triplas, quádruplas jornadas e as celas que nunca acabam. Fiquei bem interessada, mas vou fazer que nem você e comprar essa coleção da folha completa lá pra setembro!
    Beijos
    Tati

    1. Tati, esse é um livro que eu não compraria se não estivesse na coleção (apesar de gostar do autor, não costumo me interessar por textos “engraçados”), mas isso é legal porque faz a gente sair do nosso esquema e se abrir para coisas novas. =) Beijinho!

  3. Oi Lua!!!
    Fiquei bastante interessada por esse livro, mas ainda não tive oportunidade de ler nada do Scliar… Provavelmente começarei por este, gosto muito de obras que repensam o lugar da mulher na sociedade.

    Bjus

    1. Cah, eu acho que o Scliar deve ter livros melhores (eu só li um outro na escola, mas nem lembro qual), mas esse é bom. Ele não é muito feminista, acho que algumas atitudes da protagonista podem deixar as mulheres incomodadas (eu pelo menos fiquei), mas também não é machista, acho que a intenção era dizer que mesmo depois de tanto tempo as mulheres não mudaram tanto assim como a gente pensa. Beijinho! 😉

  4. Eu ameeeeei esse livro! Achei o Scliar um gênio! Fiquei muito interessada em comprar mais livros dele.
    Um humor inteligentíssimo e negro, muito negro.
    Não achei nada machista, pelo contrário.

    1. Oi, Anna, tudo bem? Que legal que você gostou. Um dos primeiros livros que li na vida foi do Scliar, mas em vida adulta esse foi meu primeiro, então não posso indicar outros. Se você tiver oportunidade de ler outros, depois venha me contar qual você gostou. Beijo!

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