Neuromancer – William Gibson


Quando leio um livro muito incensado e importante para a cultura em geral, acabo me sentindo um pouco obrigada a gostar, do contrário fico achando que o problema está comigo. Mas isso acontece só num primeiro momento, afinal é preciso separar as coisas quando se avalia uma obra: há que se considerar tanto o que ela representa pro mundo como também o que ela representa pra você como leitor. Neuromancer foi um desses livros que me deixou dividida porque não me tocou pessoalmente, apesar de ter suas qualidades.

Tudo começa em um cenário bem semelhante ao de Blade Runner: Chiba City, no Japão, mais especificamente na região de Night City, em que perambulam turistas, marginais e não-japoneses. Case é um ex-cowboy (espécie de hacker) do ciberespaço, que foi punido por ter vendido informações de seus chefes, tendo seu sistema nervoso danificado por uma toxina. Sem poder exercer sua profissão, ele sobrevive como uma espécie de intermediário de um traficante e age de maneira autodestrutiva. Um belo dia aparece Molly (imagine a Trinity, de The Matrix), com uma proposta de cura para o seu problema, contanto que ele faça parte de um time com uma missão secreta, liderada pelo sombrio Armitage, que por sua vez responde a Wintermute, uma Inteligência Artificial. Até chegar à missão principal eles irão passar por outros desafios e coletar mais algumas pessoas à equipe. Se isso pareceu a descrição de um jogo de videogame, não é à toa, Case é um mero peão das circunstâncias, resolvendo as missões que lhe são impostas para que ele possa ter sua cura definitiva.

Apesar de conter vários elementos que me interessam, a história não me conquistou. A maior dificuldade que tive durante a leitura foi o fato de não me importar muito com os personagens pois eles parecem vazios e sem propósito. Sei que a intenção do autor é retratar um mundo niilista, e Case representa bem essa característica, mas me incomodou o fato do leitor não ter acesso aos seus pensamentos e desejos. E isso acontece com todos os personagens, você conhece apenas seus objetivos mais urgentes e eles dificilmente dizem respeito a algo fora das missões. Por um lado é curioso porque você se depara com uma sociedade em que as pessoas parecem andróides que perderam o contato com os grandes significados ou valores e isso é válido enquanto visão distópica, mas por outro isso deixa a leitura maçante porque não dá para se identificar ou torcer por ninguém. Apenas na quarta e última parte eu passei a curtir o livro, não sei se porque Case parece mais humano ou se porque a narrativa fica menos travada ou se porque as coisas finalmente se resolvem, mas os últimos capítulos até que compensaram os demais.

Neuromancer causou muito impacto na época em que foi lançado (1984) e antecipou muitos conceitos comuns nos dias de hoje, como o pós-humano, a globalização, o ciberespaço etc. Além disso inaugurou o subgênero cyberpunk na ficção-científica e serviu como uma boa inspiração para outras obras, sendo a mais famosa e evidente os filmes da série The Matrix. Dentro desse contexto de referência, é um livro que vale a pena ser lido, mas enquanto obra literária ou mesmo entretenimento, não foi o que eu esperava.

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8 comentários sobre “Neuromancer – William Gibson

  1. Não conhecia por não ser muito aficcionada por esse tipo de história. Mas entendo esse sentimento. Já li muitos clássicos que no fim ficava: Ahn? O que esse livro tem demais? E guardei para reler em outra oportunidade e ver se era uma questão de percepção no momento ou não. Alguns eram, outros eram bobos mesmo kkkkkkkk
    Beijos
    Tati

    1. Ah, Tati, isso acontece muito! O pior é que, no caso, eu gosto de ficção-científica e esperava muito desse livro, mas infelizmente não bateu. Eu percebo o que ele tem de importante, até gostei em alguns momentos, mas quando minha expectativa é muito alta eu acabo ficando mais rigorosa. 🙂
      Beijos!!!

  2. Esse é o tipo de livro que não gostaria de ler, mas provavelmente me interessaria por sua adaptação para o cinema. Achei até que a história fosse mais nova (a desinformada…rs).
    bjo

    1. Michelle, vários diretores já tentaram fazer o filme, mas nunca dá certo, inclusive tem um projeto atualmente, vamos ver se vai pra frente. Mas acho que eles teriam que mudar muito a história pra funcionar hoje, não só porque algumas coisas ficaram datadas mas também porque o filme Matrix tirou o que o livro tinha de mais interessante. =) Beijo!

  3. Olá! Visitando o seu blog através de uma visita que você fez ao meu canal no youtube! Sensacional! Belo trabalho! 😀
    Daiane

  4. A sinopse desse livro nunca chamou a minha atenção! Na verdade, ela sempre fez com que eu me distanciasse da obra rsrs
    A nova e maravilhosa edição da aleph despertou o meu interesse (por motivos óbvios) mas depois parei para pensar, e…. preguiça.
    Não sei se terei essa edição ou se lerei esse livro… e por mais que você tenha ressaltado alguns pontos positivos, estou feliz por você partilhar de uma certa decepção rsrs
    (eu avacalhando o livro sem ao menos tê-lo lido…. shame on me.)

    e Lua! Janice’s ohhhhhhhhh. myyyyyy. goddddddd.
    Eu estava vendo as suas indicações de blogs e morri quando encontrei o meu!
    Fiquei super feliz quando vi o nome, e por isso, só tenho a agradecer ❤
    mas não pude deixar de ter uma tremenda vergonha rsrsrsrsrs
    é muita humilhação estar ao lado dos blogs indicados, coitada da minha humilde inconstância rsrsrs
    mas muito obrigado! ❤

    1. Henrique, eu tinha curiosidade com esse livro porque meu irmão tem essa edição mais antiga da Aleph e eu não costumo deixar passar livros que eu posso pegar emprestado da família, rs. Sinceramente, prefiro mil vezes os filmes The Matrix e Blade Runner, mas olha só, tem gente que ama Neuromancer, então quem sabe um dia você leia e goste mais que eu?
      Ah, imagina, você merece! 😉
      E sobre as fotos dos livros, todas as imagens de livros aqui do blog são escaneadas das minhas próprias edições e eu edito no Photoshop para que fiquem assim. =D
      Beijinho, querido, obrigada pelos comentários fofos! ❤

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