A Máquina do Tempo – H. G. Wells


Alguns livros do final do século XIX me dão a impressão de que o espírito da época era semelhante ao dos nossos dias, algo como uma sensação de que o futuro já chegou. A Máquina do Tempo, novela escrita em 1895 por H. G. Wells, é um desses casos em que vemos temas bem motivados pelas revoluções tecnológicas, fato que acabou inaugurando a chamada ficção-científica na literatura.

Nessa história temos O Viajante do Tempo, um cientista que constrói uma máquina capaz de se deslocar pela Quarta Dimensão. Durante um jantar em sua casa em que ele chega depois dos convidados, machucado e sujo, afirma que acaba de chegar do futuro e começa a descrever sua incrível aventura de oito dias no ano de 802701. Nesse momento da história, o Viajante encontra um mundo em ruínas e duas espécies de seres que parecem ter vindo de nossa espécie: os Elois e os Morlocks. Os primeiros são pessoas infantilizadas e bobas, pequenas e sem pelos, que se alimentam de frutas e vivem como animais pacatos. Os segundos são agressivos, têm aparência asquerosa, vivem sob a terra e temem a luz. Logo no início sua máquina é roubada e, com a companhia de Weena, o único ser com quem interage num nível mais íntimo, ele vai tentar recuperá-la e voltar para seu próprio tempo.

A teoria do personagem ao se deparar com esses seres é de que, num primeiro momento, a humanidade teria chegado a tal ponto de harmonia entre aqueles que produzem (que deram origem aos Morlocks) e aqueles que usufruem (que deram origem aos Elois), que qualquer possibilidade de guerra teria se extinguido, e portanto o ser humano viveria sem adversidades. O problema é que, segundo ele, são as adversidades da vida que tornaram o homem um ser inteligente, logo, à medida que a civilização caminhasse para a paz e a segurança, os seres humanos iriam aos poucos se tornando mais dóceis e menos inteligentes.

“Não existe inteligência onde não existe mudança ou necessidade de mudança. Os únicos animais que demonstram inteligência são aqueles que tiveram de enfrentar uma grande variedade de necessidades e de perigos”.

Enquanto conta sua história, o Viajante vai simultaneamente expondo suas impressões sobre esse novo mundo, já que tudo lhe é estranho e não há ninguém para explicar como as coisas são. Sendo assim, a narrativa ora é descritiva ora é filosófica, mas de uma maneira muito fluida, até porque o livro é bem curto. Não há nenhuma tentativa de explicação científica do funcionamento da máquina, pois a intenção era apenas demonstrar, de maneira especulativa, as possibilidades do futuro, como se a verdadeira máquina do tempo fosse a imaginação do autor. No entanto, Wells se utiliza das teorias científicas de seu tempo como argumento para as especulações de seu personagem, e em especial da teoria de Tempo enquanto Quarta Dimensão do Espaço: se é possível se movimentar nas três dimensões, também seria possível se movimentar numa quarta.

Um momento que achei muito divertido no livro foi quando o Viajante lamenta não ter lembrado de levar sua Kodak! Fiquei imaginando o que ele nos dias de hoje lamentaria não ter levado, talvez exatamente uma câmera, mas pelo menos ele colocou no bolso algo mais importante: fósforos. Se numa viagem espacial aprendemos que uma toalha pode ser muito útil, numa viagem no tempo o bom mesmo é levar uma caixa de fósforos.

Adaptações:
A Máquina do Tempo (The Time Machine, 1960) – George Pal

Nesta versão clássica de 1960, o Viajante se chama George e sua motivação em querer ver o futuro é por não ser satisfeito com a época em que vive. Aqui, antes de chegar a 802701, ele assiste às duas Grandes Guerras e em cada uma tem oportunidade de encontrar o filho de seu melhor amigo David, na juventude e na velhice. Muita coisa me incomodou neste filme, mas a principal foi o fato dos Elois falarem o mesmo inglês de George! No livro o personagem aprende alguma coisa da língua deles, mas no geral só tem sua inteligência como recurso para entender esse novo mundo, ao passo que aqui Weena lhe serve de guia, explicando como tudo funciona.
O filme me pareceu mais antiquado que o livro, e nem falo dos efeitos especiais limitados porque alguns até deram conta do recado, mas por algumas escolhas estranhas, como fazer de Weena um par romântico de George ou fazer os Elois de uma hora para outra se revoltarem contra os Warlocks, deixando George quase como um messias que irá salvar a humanidade no futuro. Confesso que o que achei mais legal no filme foi o design da máquina do tempo (feito por William Ferrari). Eu adoraria ter uma réplica dela na minha sala, como os meninos do The Big Bang Theory.


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A Máquina do Tempo (The Time Machine, 2002) – Simon Wells

Sendo o diretor bisneto do H. G. Wells, dá pra ter uma esperança de que o filme seja bom, mas não é o que acontece. O Viajante nesta versão se chama Alexander e é um professor universitário, com um laboratório cheio de invenções inovadoras e uma namorada com quem pretendia casar, mas que acaba morrendo. O que o leva a desenvolver a máquina é exatamente poder voltar no tempo para salvá-la. Apesar de tentar fazer algo diferente e explorar primeiro uma volta ao passado, esse filme não passa de um remake inferior da versão de 1960, sem nenhum compromisso em ser fiel ao livro. Enquanto H. G. Wells mostra um cientista interessado em conhecimento e em pensar para onde a humanidade poderia evoluir, este filme leva seu personagem ao futuro por uma curiosidade nada científica, apenas por uma obsessão pessoal. Simon Wells parece ter se preocupado mais em criar inúmeras referências ao filme de George Pal do que em homenagear de maneira digna seu parente. E elas são inúmeras, desde a inspiração do design da máquina, passando por detalhes de cenas e até a ideia do Viajante revolucionar o futuro. Apesar de ter bons efeitos especiais, o filme demonstra que a imaginação não é hereditária.

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15 comentários sobre “A Máquina do Tempo – H. G. Wells

  1. Não sabia que havia todas essas questões do desenvolvimento humano no livro. Não sou das mais empolgadas com filmes de ficção científica e essas adaptações nunca me atraíram, então nunca dei muita bola para a história. Mas agora… estou reconsiderando a leitura. Tks pela dica 😉

    1. Michelle, eu gosto de ficção-científica, mas muitas adaptações cinematográficas atuais estão focando muito em efeitos especiais e roteiro que é bom, nada, o que acaba dando a impressão de que alguns livros são bobos. Bj! =)

  2. Oi Lua, você tem conhecimento de algum outro livro que relate uma viagem para uma época tão distante? Acho incrível ele (H.G.Wells) ter pensado numa época tão longínqua! Gosto do tema, mas não encontrei nenhum outro escritor que tenha esse tema.

    1. Lua, desculpa me meter no comentário do Alex, mas um ótimo livro que fala de viagem no tempo é “O Fim da Eternidade”, de Isaac Asimov. E para quem gosta de Douglas Adams, o segundo livro do Guia do Mochileiro das Galáxias – O Restaurante no Fim do Universo – também é bem legal e não deixa de contar uma viagem no tempo.
      Beijo!
      P.S. Sua referência à toalha na resenha não passou despercebida e foi muito apreciada =D

  3. Olá, eu estou fazendo um trabalho sobre o livro A Máquina do Tempo e preciso de adaptações (além dos filme) que aconteceram com base na história. Se você conhece alguma, ficaria agradecido em saber.

  4. Oi, Lua! =D
    Não foi difícil encontrar a resenha. Ela está nos destaques do seu blog ; )
    Eu gostei de H.G. Wells ter simplesmente jogado o Viajante do Tempo lá no futuro, sem ninguém para ajudá-lo ou guiá-lo. Na introdução até comentam que a intenção de Wells foi realmente se afastar das utopias da época dele, em que existia um personagem no livro explicando o funcionamento das coisas. Hoje em dia quase toda ficção científica utiliza esse mesmo princípio: abandonar o leitor em um mundo cujas regras ele desconhece. Muita gente odeia isso no gênero FC. Eu particularmente adoro. Rsrsrs.
    O legal é que todas as explicações imaginadas pelo Viajante no Tempo podem estar erradas, né? E fui só eu ou você também ficou com vontade de saber o que aconteceu na segunda viagem dele (da qual ele nunca voltou)? =P
    Ainda não assisti nenhum dos dois filmes, mas conheço várias pessoas que odiaram o de 2002.
    Beijo!

    1. Eduarda, também fiquei imaginando como seria a sua segunda viagem. Puxa, daria uma boa série de tv, hein?
      Eu não chego a odiar o filme de 2002, mas realmente é decepcionante ver o filme de um parente do Wells ser tão distante da obra dele.
      =)
      Beijos!!!

  5. Achei o livro muito complexo, não sei, deve ser porque não tenho o habito de ler talvez, mais assistindo o filme percebi muito aspectos diferente do livro, achei interresante e assistirei novamente

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