A Trilogia dos Dólares – Sergio Leone

Quando criança eu adorava assistir a filmes western com meu pai de madrugada. Era acordar com um barulho de tiros ao longe e correr para a sala acompanhada do lençol. Claro que a minha lembrança é afetiva, não lembro exatamente quais filmes vi na época, mas ficou o gosto pelo gênero e de vez em quando procuro ver/rever alguns clássicos. O que mais me fascina nesse tipo de filme é o quanto eles são cinematográficos: eles contam uma história através de muita ação e de elementos simbólicos do bem e do mal, quase sem precisar de diálogos.

Minha mais recente escolha foram três clássicos do western spaghetti que compõem a chamada Trilogia dos Dólares. Trata-se de uma série de filmes de Sergio Leone, diretor italiano que inaugura um faroeste único, onde não há necessariamente mocinhos e bandidos. Eles têm em comum a figura de um certo pistoleiro solitário capaz de fazer quase tudo por uns trocados: um charmoso anti-herói vivido por Clint Eastwood. Claro que torcemos por ele não só pelo carisma e sua incrível habilidade com a arma (ele é especialista em matar pelo menos 3 ao mesmo tempo) mas também pelo seu senso de justiça, a despeito de ser um fora-da-lei no oeste americano. Há controvérsias se se trata do mesmo personagem em todos os filmes – já que nenhum deles têm realmente um nome – mas o poncho usado por ele dá uma boa pista.

No primeiro filme, Por um Punhado de Dólares, esse sujeito sem nome chega a um vilarejo tão decadente que o único negócio que ainda funciona é a funerária. A única maneira de ganhar dinheiro na cidade é com a morte, seja matando, seja enterrando. Dois grupos rivais tomam conta do lugar e é jogando lenha nessa fogueira que ele se aproveita da situação para conseguir tirar dinheiro deles. Geralmente consideram este o mais fraco da trilogia, talvez por ser uma cópia de Yojimbo, do Kurosawa, mas pra mim é um dos mais divertidos e talvez o mais coeso dos três.

Em Por uns doláres a mais, nosso amigo fica um pouco em segundo plano por conta da história de Mortimer, um amargurado caçador de recompensas que está tentando achar um bandido que vale 10 mil dólares. O personagem de Clint também está de olho no prêmio gordo e ora eles competem, ora se ajudam, mas o foco é na história pessoal de Mortimer e sua relação com o valioso vilão, que está planejando com sua quadrilha um assalto ao banco da cidade. O filme tem uma das melhores cenas da trilogia (a cena dos chapéus) e apesar de ter ótimos momentos talvez seja o que menos gostei.

Por fim, o grande clássico Três homens em conflito, também conhecido por “O Bom, o Mau e o Feio”. Aqui Clint faz o Bom, mais uma vez caçando recompensas, desta vez em sociedade com o bandido caçado. Cada vez que Tuco (o Feio) está prestes a ser enforcado é salvo pelo próprio e assim eles vão dividindo o dinheiro, num esquema que obviamente não dura muito tempo, já que o Bom não é tão bonzinho assim. A sociedade é refeita quando eles descobrem a localização de uma grande fortuna em ouro, que já está sendo procurada por Angel Eyes (o Mau). Para chegarem no local onde o ouro está enterrado precisam cruzar caminho com a Guerra Civil e com Angel Eyes e a cena final com os três é daquelas que não deixam dúvidas dos motivos pelos quais cinema vale a pena. A única coisa ruim do filme pra mim é o excesso de cenas focadas na guerra, pois retiram o foco da história e não acrescentam muito. O melhor, no entanto, é o personagem Tuco, extremamente engraçado e peculiar, especialmente em sua relação com Blondie (apelido que ele dá ao Bom). Editando algumas cenas, esse filme seria perfeito.

Se você puder abstrair a dublagem em inglês (a maioria do elenco atua em italiano) e tiver um gosto por boa direção e boas histórias, sugiro a trilogia mesmo para quem não costuma gostar de western. Mas não espere ver mocinhos e mocinhas: aqui temos apenas sujeitos gananciosos que estão tentando sobreviver num mundo em que o que resta é matar ou morrer.

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9 comentários sobre “A Trilogia dos Dólares – Sergio Leone

  1. Você descobriu meu segredo: não gosto de faroeste. Embora eu assista a praticamente qualquer filme, não me animo muito com o gênero. Mas já passei horas divertidas com filmes de bang-bang que passavam na Record (acho que era esse o canal).
    bjo!

    1. Michelle, sempre tem aquele gênero que a gente não gosta muito. Eu por exemplo não gosto de ver terror (a menos que tenha um nível bem alto). Eu entendo quem gosta, mas passo. Faroeste não é uma paixão mas acho muito divertido e os do Sergio Leone já saem um pouco da categoria pois podem ser considerados clássicos além do gênero. Beijinho!!! =)

  2. Oi Lua!
    Taí o tipo de filme que eu acho que nunca assisti. Confesso que sempre tive uma certa preguiça. Gostei da dica, quando decidir me aventurar no gênero começarei por aqui!
    Bjus

    1. Oi, Cah! Eu entendo, muitos filmes de faroeste são bobos, não funcionam nos dias de hoje e tal, mas os do Sergio Leone são muito legais! 😉 Beijo!

  3. Já faz um certo tempo que vi tres homens em conflito, e é muito bom; li em outro blog por aí que o apelido dado a cada um dos personagens não revela seu carater e acho que isso se aplica mais ao bom já que ele não é tecnicamente um bom.
    A relação entre o lorinho e tuco é muito intrigante pois eles ora se ajudam ora se boicotam.
    Muito massa esse filme, tecnicamente impecavel e tem todos os elementos de um veradeiro western.

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