Ciro Colares, A Crônica Paixão por Fortaleza – Lucíola Limaverde


Eu sei que o fato deste livro ter sido escrito por uma prima querida me faz bastante suspeita para falar sobre ele, mas não poderia deixar de comentar este belo texto que originalmente foi uma monografia de final de curso e se transformou em livro, ao ganhar o prêmio Braga Montenegro, em 2010.

A proposta geral é demonstrar como a crônica, gênero que se acha entre o jornalismo e a literatura, pode encontrar uma vida após jornal e mais especificamente, como o cronista cearense Ciro Colares (1923-2002) conseguiu esse feito aproximando suas crônicas da poesia. Através de uma análise de textos do livro Fortalezamada, Lucíola Limaverde demonstra como era a relação deste jornalista com a cidade de Fortaleza e como seu olhar poético para as coisas simples do cotidiano elevava seus textos diários. Seria mais um trabalho acadêmico se não fosse a própria autora dialogar com essa ideia e levar a escrita de sua monografia para um nível também literário. O que temos então é um bonito texto acadêmico que vale a pena ser lido não só pelo seu tema como por suas linhas carregadas de poesia e paixão pelo cronista Colares. Tanto é assim que a introdução e a conclusão do livro são cartas pessoais ao jornalista, demonstrando como sua obra marcou a autora e como é possível aplicar um pouco de emoção a trabalhos sérios sem sair do rigor que eles demandam.

Num primeiro momento, somos introduzidos às relações entre jornalismo e literatura, entre prosa e poesia, e conhecemos um pouco da história de Ciro Colares, que trabalhou em vários jornais de Fortaleza e que tinha como inspiração maior sua cidade, seu bairro, seu beco. Ciro tinha alma boêmia, aqui entendida quase como um sinônimo a um estado de ser atento à poesia do mundo, como ele próprio define:

“Ser boêmio é um estado d’alma. Às vezes não há nenhum boêmio dentre os homens que num boteco, altas noites, bebem e tocam sambinhas em caixas de fósforos beija-flor. Às vezes, os mais autênticos dormem as noites todas e de manhã cedo vão dar milho às galinhas, apanhar rosas e borboletas.”

Lucíola vai demonstrando então de que forma Ciro conseguia revelar o cotidiano de sua cidade, do seu beco e dos bares que frequentava de forma singular, ultrapassando as regras de objetividade do jornal, buscando trazer permanência ao que é descartável:

“A literatura, como arte, se quer permanente e universal. E o jornalista, inclusive o também escritor, assiste a uma morte por dia: é o jornal quase recém-escrito, já substituído. O fim do jornal, de alguma forma, é o fim de quem o escreve, as folhas carcomidas servindo de embrulho ou de forro – embora haja sempre a esperança de que ela acabe por limpar janelas, aclarando ambientes.”

A cidade, enquanto grande protagonista de seus textos, serve não para regionalizar as crônicas, mas antes as torna universais, pois todo leitor possui lugares que lhes são caros, o que gera identificação. No entanto, neste caso, isso pode ser mais forte ainda para o próprio fortalezense, que através das crônicas-poemas pode resgatar um pouco uma cidade que quase não existe mais, uma Fortaleza cuja transformação foi sendo aos poucos relatada e lamentada por Ciro, já que ela foi se afastando cada vez mais de sua experiência de infância, numa época em que as cadeiras eram postas na calçada e todos se conheciam pelo nome:

“Bem que a cidade pequena devia ter sido amarrada
na linha de minha pipa ou na fieira do meu pião,
só assim ela parava, que era para esperar a gente crescer
e entendê-la melhor,
mas todo mundo foi que parou
e a cidade embalou tomando a frente de todo mundo.”

O trabalho de Lucíola é uma bela homenagem não só a Ciro Colares como a Fortaleza e nos faz olhar diferente para a cidade, para que seja amada com todos os seus defeitos e encantos, vendo poesia na lama dos becos, nos calçamentos de pedra, ou nas avenidas de asfalto.

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