Fahrenheit 451 – Ray Bradbury


Em Fahrenheit 451, Ray Bradbury mostra ao leitor um mundo bem parecido com o nosso atual, com a essencial diferença de que os livros são proibidos, tanto a propriedade quanto a leitura, e para controlar esta proibição os bombeiros são responsáveis por queimá-los – daí o título do livro, que seria a temperatura em que eles queimam.

Guy Montag é um bombeiro que claramente sente prazer em queimar livros, instigado pelo seu chefe Beatty, um homem culto, que um dia amou os livros mas agora prefere queimá-los. Ele é casado com Mildred, uma mulher que passa o dia interagindo com uma espécie de conjunto de televisões na parede e que parece ser uma pessoa vazia, ou esvaziada. Um dia ele encontra a espirituosa Clarisse, sua vizinha adolescente que o faz pensar e questionar a própria vida. A partir de seus encontros com ela é que ele desperta a curiosidade em relação aos livros e vai, durante a história, seguir um percurso de informação, rebeldia e transformação.

Algumas coisas me incomodaram nesta obra. Considero fraco o argumento de que o desaparecimento dos livros se deu porque todos os livros eram “perigosos” ou faziam as pessoas pensarem, até porque nem todo livro tem essa qualidade. Eu acreditaria mais numa destruição de alguns títulos (exemplos históricos reais não faltam) ou mesmo que as pessoas foram trocando os livros por outras mídias mais fáceis, coisa que até o autor deixou clara no livro. Mas tudo bem, posso concordar que o livro enquanto objeto carrega, além de seu conteúdo, uma aura meio de misticidade que poderia incomodar os governos a ponto de serem alvo do fogo. No entanto, fiz careta para um certo didatismo, quase infanto-juvenil, que permeia o livro, especialmente quando surge Faber, o personagem que vai ser praticamente um professor para Montag. Ele é responsável por explicar a Montag e ao leitor a importância da causa, ainda que deixe claro que o buraco é mais embaixo:

“Não é de livros que você precisa, é de algumas coisas que antigamente estavam nos livros. […] Não há neles nada de mágico. A magia está apenas no que os livros dizem, no modo como confeccionavam um traje para nós, a partir de retalhos do universo.”

De certa forma eu tentei ver a história do livro mais como uma alegoria, em que os livros seriam apenas um símbolo da decadência do pensamento livre e das manifestações artísticas. Nesse sentido, Fahrenheit 451 se assemelha um pouco a Admirável Mundo Novo, no sentido que enfoca a importância da arte para o ser humano. A teoria é que o ser humano, por mais feliz que fosse, não conseguiria viver sem manifestações artísticas, sem questionamentos sobre a vida e até mesmo sem tristeza. Os indivíduos da sociedade criada por Bradbury, simbolizados pela personagem Mildred, são parecidos com aqueles da obra de Huxley. São pessoas anestesiadas pelos prazeres, a diversão e o entretenimento. Porém, como em toda distopia, sempre há um grupo marginal que constitui a esperança e Montag segue em direção a esse caminho.

Apesar de tudo, é um livro com qualidades. Uma das partes mais bacanas é quando o autor meio que profetiza os reality shows nas cenas de perseguição a Montag. Algumas imagens na narrativa são belas e me fizeram querer ler outras obras do autor. E o tom meio didático do livro, que me chateou um pouco, pode ser uma vantagem na educação de jovens. E é assim que vejo esse livro, como um livro para jovens, eu mesma teria amado este livro nos meus tempos de Clarisse.

Leia aqui sobre o filme Fahrenheit 451 (1966), de François Truffaut.
__
Livros relacionados:

Anúncios

Um comentário sobre “Fahrenheit 451 – Ray Bradbury

Deixe um comentário e eu responderei aqui mesmo. Obrigada pela visita!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s