Tia Júlia e o Escrevinhador – Mario Vargas Llosa

21_juliaEmbora os personagens deste romance não sejam os mais interessantes da história da Literatura – talvez até porque sejam baseados na vida real do autor – eu cheguei a ficar com saudade deles no final do livro. Senti como se tivesse viajado até o Peru e tivesse convivido com eles e suas histórias doces e banais. Nada banais, no entanto, são as historietas paralelas contadas ao longo do livro e que permeiam o romance, todas com um tom trágico e envolvente.

Mario é um jovem estudante de Direito, aspirante a escritor, que trabalha em uma rádio em Lima reciclando notícias do dia para sua transmissão de hora em hora. No livro ele narra uma passagem da sua vida, quando tinha apenas 18 anos, em que conheceu dois bolivianos que o fascinaram e o marcaram para sempre: Julia, um amor complicado pela diferença de idade e revolta da família; e Pedro Camacho, um excêntrico escritor de radionovelas. Enquanto ela irá estimular sua sexualidade e ânsia por maturidade, ele o fará refletir sobre o objetivo de ser escritor profissional.

O livro se divide então entre o cotidiano de Mario – lutando pelo direito de ficar com uma mulher mais velha e ao mesmo tempo tentando escrever e compreender o método e a personalidade do colega de rádio –, e vários capítulos de novelas de Pedro Camacho, como são transmitidos aos ouvintes da Rádio Central.

Essas radionovelas funcionam como contos com os quais a história principal de vez em quando dialoga, fazendo referências que comentam ou antecipam os acontecimentos. Seus protagonistas são sempre pessoas de 50 anos, geralmente homens, que guardam certas características em comum: “testa ampla, nariz aquilino, olhar penetrante, retidão e bondade no espírito” (embora essa descrição seja alterada mais pra frente) e sua escrita curiosamente revela um estilo próprio, diferente do restante do livro, repleto de passagens melodramáticas e metáforas cafonas, próprias das radionovelas:

“A incerteza, margarida cujas pétalas não se termina jamais de desfolhar, foi agravando o alcoolismo de Joaquín Hinostroza Bellmont, a quem, por fim, via-se mais bêbado que sóbrio.”

Mais para o fim, essas histórias perdem um pouco o fôlego e vão desmoronando junto com o personagem Pedro Camacho e minha curiosidade restava apenas para o que iria acontecer com Mario e Julia. Muitos leitores reclamam do final do livro e eu até entendo, porque nada de muito extraordinário acontece, talvez, como já comentei, pelo compromisso que o autor tinha com a realidade. Ainda assim sua escrita é leve, bonita, simples e com ótimos toques de humor, o que me rendeu uma leitura mais do que agradável.

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Livros relacionados:

Livros e Leituras de Abril

Não tinha intenção de comprar muitos livros este mês, mas com as promoções do Dia Mundial do Livro ficou difícil resistir.

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Escolhi dois livros do Philip Roth. Não li nada ainda desse autor mas insisto em ficar adquirindo livros dele. A obsessão me custou um livro repetido, Zuckerman Acorrentado, que eu irei sortear aqui, e Nêmesis. Outro autor que ando curiosa é Roberto Bolaño: comprei 2666 e Amuleto. Em seguida, dois clássicos pela Penguin: Pelos Olhos de Maisie, de Henry James, e O Amante de Lady Chatterley, de D.H. Lawrence. Seguindo dicas da Juliana e do Kalebe comprei também o Luka e o Fogo da Vida, do Salman Rushdie, e o quadrinho Umbigo sem Fundo, de Dash Shaw.

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A promoção era realmente muito boa e não resisti a dois de J.M. Coetzee, outro autor que quero conhecer, com Desonra e Verão. Sempre gostei dos livros da Lygia Fagundes Telles, mas nunca tinha comprado nada dela. Aproveitei então os seus As Horas Nuas e A Estrutura da Bolha de Sabão. Para completar a compra, um do Mia Couto, A Varanda do Frangipani, e um do José Saramago, Caim. Fora essa compra, ganhei dois livros: o infantil A Luz é como Água, do Gabriel García Márquez, e o quarto volume da coleção Sherlock Holmes (agora só falta o número 5): O Último Adeus de Sherlock Holmes, do Conan Doyle. Uma passadinha na livraria me rendeu ainda A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstói, para a leitura do fórum, e Um General na Biblioteca, do Italo Calvino.

As leituras do mês foram poucas. Li Peter e Wendy, do J.M. Barrie, sobre qual já comentei aqui; terminei a leitura de Fadas do Divã: psicanálise nas histórias infantis, de Diana Lichtenstein Corso e Mário Corso; li também Tia Júlia e o Escrevinhador, de Mario Vargas Llosa, que comento aqui; e li a primeira parte (Fantine) de Os Miseráveis, de Victor Hugo, para a discussão no fórum. Esta é uma leitura que ainda vai me acompanhar por um bom tempo, mas devo ir revezando com outras, se for possível.

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Bom, mas e o sorteio?
Quem tiver interesse em ganhar o livro do Philip Roth, Zuckerman Acorrentado (3 romances e 1 epílogo), basta deixar um comentário aqui dizendo que livro comentado por mim aqui no blog você inclui como uma possível leitura para o futuro (atenção que só valem os livros para os quais eu tenha feito uma postagem). Para facilitar, clique no menu Leituras em 2012 e/ou Leituras em 2013 (a maioria dos livros tem textos no blog e cada imagem leva ao texto correspondente). O sorteio é nacional e valerá até o dia 9/5/2013 6/5/2013 e no dia 10/5/2013 7/5/2013 eu anuncio o ganhador. Boa sorte!

Update: Sorteio fechado. Quem ganhou o livro foi a Maura Parvatis! Parabéns!!!

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Peter e Wendy – J.M. Barrie

18_peterPeter e Wendy não parece ser um livro que muita gente tenha lido, apesar de todos conhecerem a história através de adaptações. Mesmo na infância, nunca me senti empolgada com os personagens e sua aventura na Terra do Nunca. Mas como recentemente histórias infantis têm me chamado (mais ainda) a atenção, não resisti a essa bonita edição da Cosac Naify, em que a sobrecapa se transforma em luminária.

Ler a obra original não me fez mudar muito de idéia com relação aos personagens, ainda que eles sejam bem construídos por Barrie. Peter tem todas as virtudes e defeitos da infância exacerbados, e isso o deixa ora muito divertido, ora muito desagradável. Já Wendy é uma espécie de não-criança, pois toda sua energia é voltada pra fantasiar que é adulta. A vida deles na Terra do Nunca é fazer de conta que são pais dos Garotos Perdidos, como se brincassem de casinha. O papel de Peter se divide em outros, pois além disso ele é amigo, herói, líder. Mas Wendy é apenas uma frágil mãe, com funções domésticas, incapaz de atos de bravura, servindo apenas para confortar meninos carentes de amor materno.

O que mais me envolveu na obra foi ver como as crianças são retratadas de uma maneira realista, sem aquela chata romantização de que elas seriam anjinhos: o Pan de Peter parece apontar para um estágio onde a moral ainda não foi construída, um mundo de natureza pura, com espaço tanto para a inocência quanto para a crueldade, a violência e o egocentrismo:

“Afinal, as crianças estão sempre prontas, quando uma novidade se oferece, a abandonar as pessoas de que mais gostam.”

Se existe alguma romantização da infância no livro é no ponto em que ela é mostrada como um mundo mágico onde tudo é possível, inclusive poder voar, mas no fundo é isso mesmo que acontece com a imaginação infantil e isso só funciona por muito tempo para Peter, pois todas as outras crianças acabam escolhendo crescer. Por mais que a infância tenha suas vantagens, nós geralmente só nos damos conta delas depois de grandes.

A narrativa de Barrie é outro elemento de muito valor em Peter e Wendy. Não sei se porque o livro foi escrito com base em sua peça de teatro, mas a interação com o leitor é contínua, trazendo-o para dentro da obra, permitindo que ele participe do rumo da história e ao mesmo tempo antecipe o que vai acontecer, gerando expectativa. É um texto gostoso de ler, com várias camadas de significado, servindo tanto para adultos como para crianças, especialmente para adultos que têm crianças ou que sentem nostalgia de sua própria Terra do Nunca.

Livros e Leituras de Fevereiro e Março

Nos dois últimos meses tive boas leituras e adquiri coisas novas para a estante:

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Começei completando minha coleção do Livro das Mil e uma Noites, que devo ter começado em 2009. Por sinal, na época cheguei a ler a metade do volume 1 e nunca terminei, não lembro o porquê, mas estava gostando muito. Também de coleção adquiri o volume 4 do The Absolute Sandman. Essa versão está sendo lançada no Brasil pela Panini, mas eu acabei preferindo a edição americana, não só pela linda capa de couro, como por achar que seria interessante reler no original, já que todas as minhas outras versões são brasileiras. Eu devo ter umas 4 edições diferentes de Sandman, tanto em revistas avulsas como encadernados, mas nunca consegui completar nenhuma; sempre que vou reler eu começo com uma e vou para outra, mas espero que essa agora eu consiga todos os volumes.

Ainda em quadrinhos, Retalhos e Habibi, do Craig Thompson. Eu não tenho dúvida de que irei gostar de ambos, mas estou mais empolgada ainda para ler Habibi. O mangá Solanin, de Inio Asano e o livro Matadouro 5, de Kurt Vonnegut são livrinhos de bolso muito recomendados pela Luara e eles me chamaram da prateleira da L&PM. Também veio pra casa O Sentido de um Fim, para a discussão no Fórum Literário. De todos que comprei foi o único que li até agora.

Por fim, dois livros infantis: Ela tem olhos de céu, da minha amiga Socorro Acioli, que veio com um lindo button para quem comprou no dia do lançamento, e Peter e Wendy, de J.M. Barrie, em uma edição bem legal da Cosac Naify, em que a sobrecapa do livro se transforma numa luminária.

E as minhas leituras (clique na imagem do livro para ver texto aqui no blog ou informações do Goodreads):

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Coincidentemente, a metade dos livros têm histórias que se passam nas décadas de 60/70 e três foram lidos para o Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

Dos que não comentei por aqui:

A Fantástica Fábrica de Chocolate, de Roald Dahl – a história não era nenhuma novidade pra mim, talvez por isso não tenha me surpreendido tanto, já que as adaptações para o cinema são bem fiéis. Mesmo assim gostei, e tenho vontade de ler alguns outros livros do autor, como Matilda e As Bruxas.

O Colecionador, de John Fowles – lido para o fórum, foi um livro que achei muito bem escrito e envolvente, mas com uma temática que me incomoda bastante. Consegui um exemplar em português fazendo uma troca no skoob, mas como o livro veio muito velho acabei lendo em inglês mesmo, no kindle.

A Tormenta de Espadas [As Crônicas de Gelo e Fogo, #3], de George R.R. Martin – começa devagar, mas do meio para o fim justifica ser considerado um dos melhores da série. Li para me preparar para a terceira temporada da série de tv e estou ansiosa para ver como vão adaptá-lo. Achei que a escrita do Martin deu uma caída em relação aos outros livros, mas pode ser problema de tradução. Contudo, no que diz respeito à trama, nesse ele caprichou.

A História sem Fim, de Michael Ende – esse livro tem grandes qualidades narrativas, mas senti falta de uma certa linearidade, em certo ponto ele toma um rumo episódico que coloca a história principal em segundo plano. Adorei os personagens Atreiú e Fuchur, mas não simpatizei muito com o Bastian, ainda que seja legal que o personagem principal tenha tantas facetas e não seja exatamente bonzinho. Não cheguei a ver o filme na infância – sei lá eu por que essa sessão da tarde não aconteceu pra mim – mas sempre achei muito estranha a produção do dragão Fuchur, que mais parece um cachorro. Pude vê-lo agora e apesar de continuar achando estranho esse Fuchur (que no filme se chama Falkor), até que é uma boa adaptação, bem no estilo dos anos 80. Fiquei surpresa, contudo, ao ver que o filme só cobre metade do livro.

O Sentido de um Fim – Julian Barnes [Fórum Entre Pontos e Vírgulas, Mar/2013]

Esse texto contém algumas leves revelações de enredo (nenhuma relacionada ao final), pois é voltado para uma discussão no Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

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Acredito que todos nós somos um tanto obcecados por nossa própria história. Ouvimos dos mais velhos as peripécias que aprontamos na infância com toda atenção e interesse; buscamos pessoas do passado nas redes sociais não tanto por ainda nos interessarmos por elas, mas para resgatar um eu perdido nosso que ficou guardado em suas memórias; e mesmo com toda felicidade que possamos ter no presente, guardamos uma curiosidade, leve ou cruel, sobre os misteriosos motivos por que fomos rejeitados ou por que certas situações não deram certo.

Mas todo o emaranhado que construímos com nossas lembranças é feito pelo nosso olhar atual e de alguma forma nos parece mesmo que até aquela criança que éramos aos 7 anos de idade pensaria a vida como pensamos agora. Nosso engano é legítimo, pois a própria historiografia do mundo é reconstruída pelo olhar contemporâneo e esse é um dos questionamentos que Julian Barnes nos traz, em O Sentido de um Fim.

“Se eu não posso mais ter certeza dos acontecimentos reais, posso ao menos ser fiel às impressões que aqueles fatos deixaram.”

Na primeira parte do livro, temos a primeira versão da história pessoal de Tony Webster. Sua história oficial, baseada nas memórias de juventude e bem arranjadas ao seu momento atual de homem acima dos 60 anos, aposentado e divorciado. Ela envolve amizades da escola, um namoro que deu errado e o impactante suicídio de um amigo que era fonte de admiração. Já na segunda parte, o personagem tem que repensar todos os acontecimentos que ele tinha por certos em sua vida quando recebe uma herança curiosa da mãe de Veronica, sua antiga namorada: o diário de Adrian, seu amigo que morreu.

Era a documentação que ele precisava para entender não necessariamente as escolhas de Adrian, mas suas próprias escolhas, emparelhando-as como coisas opostas que eram: uma vida levada de acordo com o que se acredita, outra empurrada pelas circunstâncias.

“Na minha maneira de pensar, eu me preparei para a realidade da vida e me submeti às suas necessidades: se acontecer isto, faço aquilo, e assim os anos se passaram. Na maneira de pensar de Adrian, eu desisti da vida, desisti de examiná-la, aceitei-a como ela se apresentou.”

No entanto, o acesso ao diário é impedido por Veronica, e só ela tem a chave para que Tony entenda o que realmente aconteceu com Adrian. Essa busca acaba levando o personagem ao encontro com uma versão jovem de si mesmo que ele não reconhece e da qual se envergonha. E é a partir desse momento que ele vai percebendo não só o papel que ele exerceu na vida alheia, mas também a diferença que o relato daqueles que fizeram parte de nossas vidas pode fazer para entendermos o que realmente aconteceu.

“À medida que as testemunhas da sua vida vão diminuindo, existe menos confirmação, e portanto menos certeza, a respeito do que você é ou foi.”

Mas o que realmente aconteceu em nossos passados é um mistério tão grande quanto o que aconteceu na Grécia Antiga, nós que muitas vezes não sabemos direito nem o que fizemos ontem. Fiquemos então com as memórias que escolhemos ter no agora, esse sentimento do passado preso ao presente, que parece ser o único possível, e que Fernando Pessoa descreveu tão bem:

Pobre velha música!
Não sei por que agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado.

Recordo outro ouvir-te,
Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembra em ti.

Com que ânsia tão raiva
Quero aquele outrora!
E eu era feliz? Não sei:
Fui-o outrora agora.

Norwegian Wood – Haruki Murakami

10_woodTodo mundo fala que é mais difícil falar sobre um livro de que gostamos muito, talvez porque isso revele muito de nossa intimidade, ou acabe mostrando muito de quem somos. Norwegian Wood é o primeiro livro do ano que amei. Não esperava muito mais que um bom livro, mas acabei me surpreendendo. No entanto, é daqueles livros que dependem muito de identificação com os personagens ou situações, o que acaba rendendo uma leitura chata para alguns e maravilhosa para outros.

Uma das coisas mais legais do livro é a sensação de que todos temos trilha sonora para certos momentos da vida, ou melhor, como certas canções servem de transporte para um momento ou trazem de volta a presença de alguém que está longe no tempo ou no espaço. No caso deste livro de Murakami, tudo começa quando Toru Watanabe, de 37 anos, está num avião e começa a tocar Norwegian Wood, dos Beatles. Imediatamente ele se sente mal porque a música lhe traz de volta não só o seu passado triste, mas a sensação de um futuro incerto:

“Refleti sobre as muitas coisas perdidas no curso da minha vida até aquele momento. O tempo perdido, pessoas mortas ou desaparecidas, emoções que eu nunca mais experimentaria.”

A partir daí acompanhamos suas lembranças de juventude no final dos anos 60, essencialmente a história das amizades que fez e que marcaram sua vida em sua época de estudante. Toru é quase sempre o terceiro elemento em seus relacionamentos, um rapaz simples que gosta de ser amigo de pessoas complexas e lhes serve deixando-as confortáveis por serem diferentes:

“– Por que você só gosta desse tipo de pessoa? – perguntou Naoko. – Todos pessoas esquisitas, desvirtuadas, que afundam aos poucos por não saberem nadar bem. Eu, Kizuki, Reiko. Somos todos assim. Por que não consegue gostar de pessoas mais normais?
– Provavelmente porque eu não os vejo assim – respondi depois de refletir por um instante. – Não acho de jeito algum que você, Kizuki e Reiko sejam esquisitos. Aqueles que eu considero esquisitos estão todos andando lá fora numa boa.”

Para mim, Norwegian Wood é mais uma história de amizade que de amor e perda ou entrada no mundo adulto. Uma maneira de lembrarmos como certas pessoas que fazem parte da nossa vida em algum momento podem deixar marcas eternas. Mas também é uma obra cheia de referências gostosas, literárias e musicais – quem é fã dos Beatles pode encontrar várias, algumas bem sutis, outras bem evidentes –, com uma escrita leve, temática profunda e personagens memoráveis.

A adaptação para o cinema é bela e delicada, mas incrivelmente mais triste e sombria que o livro e, talvez por questões de direitos autorais, não se utilizou muito das músicas que ajudam a contar a história.

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Laranja Mecânica – Anthony Burgess [Fórum Entre Pontos e Vírgulas Fev/2013]

09_laranja01Este texto participa do Fórum Literário Entre Pontos e Vírgulas, que tem como leitura do mês o livro Laranja Mecânica, de Anthony Burgess. Como é voltado para pessoas que leram o livro, contém revelações sobre o enredo.

Todos nós somos seres orgânicos que agem através de escolhas morais, mas nos tornamos máquinas quando somos condicionados, nos tornamos algo como uma laranja mecânica. Essa é a grande proposição do livro de Burgess, que defende o livre-arbítrio como uma condição essencial do ser humano.

E ele faz isso nos contando a história de Alex, um adolescente viciado em violência e música clássica, odioso e carismático ao mesmo tempo, que com sua gangue de druguis sai à noite para praticar todos os tipos de violência extrema, mas não sem antes tomar seu leite batizado com drogas. O grupo tem uma linguagem própria, o nadsat, e durante a leitura vamos nos familiarizando com esse vocabulário – muito embora às vezes o glossário no final do livro ajude em alguns termos.

Na primeira parte da obra somos testemunhas de alguns terríveis atos do grupo, até o ponto em que Alex é preso por assassinar uma senhora. É só então na segunda parte que começa a primeira fase de punição: sua vida na prisão. Sua amizade com o capelão do local traz valiosas discussões sobre o livre-arbítrio ao conversarem sobre a possibilidade de Alex ser usado numa técnica de reabilitação, a técnica Ludovico, que o impediria de praticar o mal novamente e garantiria sua liberdade. O capelão argumenta que o processo o impediria de tomar decisões morais e que, portanto o deixaria sem alma:

“A questão é se uma técnica dessas pode realmente tornar um homem bom. A bondade vem de dentro, 6655321. Bondade é algo que se escolhe. Quando um homem não pode escolher, ele deixa de ser um homem.”

“Pode não ser bom ser bom, pequeno 6655321. Ser bom pode ser horrível. E quando digo isso a você, percebo o quão auto-contraditório isso soa. Eu sei que perderei muitas noites de sono por causa disso. O que Deus quer? Será que Deus quer bondade ou a escolha da bondade? Será que um homem que escolhe o mal é talvez melhor do que um homem que teve o bem imposto a si?”

Segundo ele, e é essa a defesa do autor, o mal existe em todos nós. O que nos define como uma pessoa boa ou má é a escolha ética que fazemos: escolhemos não praticar o mal, mas isso não quer dizer que somos bons. Ser impedido de fazer o mal também impede Alex de fazer o bem, pois anula o livre-arbítrio. O bem tem que ser uma escolha, e não um condicionamento que deixa o indivíduo programado para não cometer crimes:

“Ele será seu verdadeiro cristão – krikava o Dr. Brodsky –, pronto para dar a outra face, pronto para ser crucificado ao invés de crucificar, doente até a alma só de pensar em sequer matar uma mosca.”

A técnica usada em Alex, portanto, não teria a intenção primeira de torná-lo um sujeito bom, mas tão somente um sujeito controlado. Seria apenas uma manobra política, uma punição mais barata e eficiente que sustentá-lo na prisão, garantindo segurança à sociedade. Alex aceita participar da experiência porque no fundo ele não acredita que vai deixar de ser quem é e também porque está mais interessado em sua liberdade, mas no momento em que percebe que todas as coisas que lhe davam prazer não podem mais se realizar, descobre que se tornou um mecanismo, que perdeu sua humanidade:

“Será que eu serei apenas uma laranja mecânica?”

A última parte do livro tem quase um tom de fábula porque Alex se reencontra com todo o seu passado e sofre sua segunda fase de punição, vinda de várias pessoas a quem fez mal, sem poder se defender. Nesse ponto fica claro que o autor defende que nenhuma maldade que Alex tenha feito pode ser pior do que a que ele sofre, já que ele teria sido castrado naquilo que o faz humano, que é a sua escolha, seu livre-arbítrio.

No final, também por motivos políticos, Alex volta a ser o que era e é claro que volta a praticar crimes, mas em determinado momento se vê cansado da vida que leva e passa a desejar uma vida mais adulta. Nesse ponto percebemos que Burgess acredita que a falta de maturidade de Alex (ou dos jovens, em geral) é que o levaria a cometer todos aqueles atos violentos e que chegando a determinado ponto de sua vida, esses atos passariam a não fazer mais sentido.

A única coisa que me incomodou nesse final foi que em nenhum momento anterior na história do personagem ele faz qualquer reflexão que ponha em questão seus atos: para ele a violência dá prazer e ele a pratica porque deseja. Talvez por isso o último capítulo tenha um tom muito diferente do resto do livro: a redenção de Alex através da música seria, apesar de mais óbvia, mais convincente para mim, afinal não são apenas adolescentes que praticam crimes. No entanto, comparando com a versão americana do livro e com o filme de Kubrick, que ignoram o último capítulo, é melhor que haja algum tipo de redenção que nenhuma, do contrário a proposta do autor de demonstrar que não somos bons nem maus, que nossas escolhas flutuam, não se aplicaria a Alex, e ele se tornaria a própria encarnação da maldade.

Isso não tira o mérito da adaptação cinematográfica que, com exceção do final, foi extremamente fiel ao livro e encontrou soluções geniais para deixar a história ainda mais simbólica e angustiante. Apesar de ter vida própria enquanto filme, não deveria dispensar este incrível livro em que foi baseado.
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Serena – Ian McEwan

08_serenaConfesso que uma das coisas que me levaram a querer ler Serena foi ter ouvido falar que o final do romance era muito surpreendente, e o fato de se passar na década de 70 também me atraiu. O que me fez gostar da leitura, no entanto, não foi uma coisa nem outra, mas tão somente as questões sobre livros e literatura que atravessam o texto, que para mim foram colocadas de uma maneira interessante e simples, ao contrário do que fazem alguns autores contemporâneos, que carregam no eruditismo e deixam o leitor no escuro*.

A personagem Serena também me envolveu nas poucas coisas que eu senti ter em comum com ela, embora às vezes ela dê a impressão de não ter caldo suficiente para a sopa: os outros personagens parecem sempre ter mais substância que ela. Talvez o mais curioso de sua personalidade seja a característica contraditória de querer satisfazer seus mentores/amantes – dando a entender que entende mais das coisas do que realmente entende – e ao mesmo tempo não se envergonhar do prazer de suas leituras rasas:

“Eu era a mais simples das leitoras. Só queria o meu mundo, comigo dentro, devolvido para mim de maneiras artísticas e de uma maneira acessível.”

O problema do livro para mim foi o próprio enredo, que alimentou expectativas que não foram concretizadas. A leitura é prazerosa tanto pela escrita do McEwan quanto pela curiosidade em desvendar o que pode haver por trás de tudo (afinal é uma história que envolve espionagem!), mas o que surge no final, embora possa ser algo inesperado, é quase um não-final, e mesmo fazendo sentido e tornando o livro original, não me satisfez como leitora, pois desmorona todo o castelo de cartas construído. É claro que isso é apenas uma experiência pessoal baseada no que eu esperava do livro, pois muita gente leu e achou o final genial e eu mesma acho que é um livro recomendável, mas ficou o sentimento de leve decepção, pois assim como Serena, pelo menos nesse caso, eu esperava mesmo era uma boa reviravolta no enredo que atendesse a meus anseios superficiais.

*A Luara comentou melhor sobre essa questão, apesar dela ter achado que o autor não fez o bastante.

As Brumas de Avalon – Marion Zimmer Bradley

06_avalon_allO que será que há nas lendas medievais que atraem tanto as pessoas, especialmente os mais jovens? Será porque passam a idéia de uma vida aparentemente mais simples, em que havia um contato mais direto com a natureza, ou porque revelariam uma fantasia do homem forte e destemido que deve enfrentar suas batalhas e a donzela frágil que espera ser salva apenas por sua beleza e bondade – o que faz até hoje meninas se vestirem de princesa e meninos brincarem com espadas? Talvez seja porque essas histórias permitem um enorme espaço para o desconhecido, seja através da magia ou da religião, oferecendo a possibilidade de soluções rápidas para os problemas ou porque valores como honra e compromisso são levados a sério, oferecendo uma certa segurança ou conforto.

Não sei o que seria, mas na adolescência as histórias medievais me chamavam muito a atenção e mesmo assim eu nunca havia lido As Brumas de Avalon, livro devorado por muitos amigos meus na época. Até cheguei a assistir ao filme televisivo de 2001, mas somente ano passado adquiri os livros da saga e reacendi a curiosidade com essa lenda arturiana recontada sob o olhar de seus personagens femininos.

Principalmente a partir do segundo livro percebe-se que o romance se trata basicamente de um embate entre paganismo e cristianismo, força feminina e força masculina, natureza e espírito, terra e céu: elementos representados respectivamente por Morgana e Gwenhwyfar (também conhecida por Guinevere). Os personagens em geral são bem humanos, nem bons nem maus, e a maior parte deles muito cativantes e bem construídos, especialmente Morgana – o leitor torce por ela até quando está errada. Acredito que a única personagem insuportável do livro seja Gwenhwyfar, não necessariamente pelo seu fanatismo religioso e superficialidade, mas pela sua pouca capacidade de evolução, tornando-a muito repetitiva na história, um verdadeiro disco arranhado.

O primeiro e terceiro livros foram os melhores, na minha opinião, e apesar de ter sentido uma queda na qualidade da narrativa lendo o último livro, no geral a leitura foi o que eu esperava: envolvente e leve, até mesmo quando traz breves discussões teológicas, e com o ótimo mérito de dar voz e poder às mulheres diante de uma lenda tão masculina.

Sobre a adaptação (com spoilers)
07_avalonJá havia assistido a esse filme (ou mini-série) em 2001, mas não lembrava de absolutamente nada. Como costumo dizer, não procuro fidelidade de enredo em adaptações, mas espero que elas sejam fiéis ao espírito do livro e esta está bem longe disso. Mesmo não entendendo muito de Paganismo, dá pra perceber que aqui ele é retratado como mera bruxaria e o seu embate com o Cristianismo foi praticamente sufocado, ou distorcido. Além disso, no livro todos os personagens são ambíguos, moralmente falando, e aqui eles ou são bonzinhos ou são malvados, criando um maniqueísmo que destrói completamente a força dos personagens criados pela autora. E como se não bastasse, até espada colocam na mão de Morgana, enquanto a idéia de poder da mulher proposta por Bradley não era a de se apropriar do mundo masculino, mas tão somente utilizar seus próprios recursos femininos.

Fórum Literário e o mês de Janeiro

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O Fórum Literário Entre Pontos e Vírgulas é uma espécie de clube de leitura criado pela querida Denise Mercedes, em que a cada mês um livro é escolhido para ser lido e discutido por qualquer pessoa que tiver interesse em participar, inicialmente através de vídeos, posts ou comentários.
A Denise me convidou para ajudá-la na construção e administração do blog e agora todas as contribuições estão organizadas por lá, com o adicional de um fórum para que todos possam participar com suas impressões de leitura e promover quaisquer outras discussões sobre livros.
O livro de fevereiro já foi escolhido, mas a votação para o livro de março está aberta até o dia 15 de fevereiro.
separadorEste mês assisti a muitos vídeos legais no you tube, como sempre. Além dos vídeos sobre leituras e compras que sempre adoro ver dos meus canais preferidos, lembro de ter achado alguns bem interessantes:

Kindle x Kobo: qual escolher?, do canal A Capitu já leu.
Descobri esse delicioso canal recentemente e o primeiro vídeo deles é bem útil para quem está considerando comprar um e-reader nas lojas brasileiras. Para completar tem outro ensinando a fazer um case engana-ladrão com livros velhos para guardar seu e-reader.

Esse romance é bom?, de Claire Scorzi.
Adoro os vídeos da Claire e nesse ela questiona rapidamente o que faz a gente gostar ou não de um livro.

9 dicas para ler poesia, da Juliana Gervason.
Gosto muito de poesia, mas não tenho lido muito ultimamente. Então, além de ser um vídeo com sugestões para quem ainda não tem o hábito de ler o gênero, serviu para que eu lembrasse que ando deixando os versos de lado.

Para ler quadrinhos… #1: Craig Thompson, do canal Espanadores.
Ando com muita vontade de ler Craig Thompson e esse ótimo vídeo já passa de um convite, é quase uma intimação!

Pergunte-me sobre 2012, no canal da Juliana Gervason.
As três fofas Denise, Luara e Juliana respondem a um questionário sobre suas leituras de 2012.
separadorE nos blogs também li várias resenhas e textos bacanas, entre eles, estes aqui:

Do blog Universo Fantástico: Por que, afinal, a Literatura Brasileira não vende? E por que venderia?

Do blog Ebook BR: O e-reader é efêmero, o livro é imortal.

Do blog da Companhia: Me joga na parede e me chama de literatura.

Do blog No país das entrelinhas: Livros reconfortantes.

Do blog 365 escritores: A Bula de Benedetti, Robert Crumb: o gênio dos quadrinhos underground e Pegando carona com Jack Kerouac.

separadorPor fim, minhas aquisições do mês:
07_compras01Como comprei muita coisa no ano passado, não tinha intenção de adquirir novos livros tão cedo, mas além de alguns livros de uma entrega atrasada chegarem, uma livraria na cidade estava fechando as portas e vendendo tudo pela metade do preço (ótima dica da Lulu) e acabei trazendo alguma coisa pra casa. Alguns não eram prioridade, mas não deu pra resistir ao preço.

As Irmãs Makioka – Jun’ichiro Tanizaki [Fórum Entre Pontos e Vírgulas Jan/2013]

01_makiokaOs momentos intermediários sempre me intrigam por terem essa característica de abrigar o passado e preparar para o novo, deixando as coisas meio indefinidas. É um momento assim que Tanizaki retrata naquela que é considerada sua obra mais importante: As Irmãs Makioka. O livro revela um detalhado cotidiano de uma família japonesa no final dos anos 30, dividida entre a sobrevivência de valores tradicionais e a inevitável influência do Ocidente. Em um relato constituído por diversos episódios por que a família passa, bem como por cartas e poemas, vamos assistindo às pequenas histórias vividas por Sachiko e suas irmãs Tsuruko, Yukiko e Taeko.

Sachiko é a segunda irmã e vive um casamento feliz com Teinosuke em Ashiya, numa região do Japão mais tradicional. Moram com eles as irmãs mais jovens e solteiras, Yukiko e Taeko, quebrando uma obrigação social de morarem com a irmã mais velha, Tsuruko, mais rígida e com um marido intransigente. Esta, inclusive, não tem muita participação no livro e praticamente toma o lugar de uma figura materna, distante das demais irmãs.

As situações que vivem são geralmente comuns: refeições em casa, encontros sociais, idas ao teatro, algumas viagens. As regras sociais são, muitas vezes, mais importantes que o conforto, a saúde ou a felicidade das pessoas pois existe uma grande preocupação com o que a sociedade vai pensar e comentar, mesmo que a família Makioka já carregue o signo de decadente. As conversas estão quase sempre relacionadas ao destino de Yukiko e Taeko, uma porque não consegue arranjar um marido adequado, a outra por sua rebeldia e tendências feministas.

Yukiko é retraída e calada, com uma personalidade feminina e submissa, sempre seguindo os caminhos impostos pela família. É uma figura marcada – inclusive literalmente por uma mancha no rosto – pois apesar de sua beleza, seus talentos e seu nome, a má sorte a acompanha no que diz respeito a arranjar um marido adequado. Com sua idade já avançando e uma irmã com má reputação na sociedade, seus pretendentes não são as melhores escolhas. Já Taeko é moderna, trabalha, usa apenas roupas ocidentais e tem vida amorosa ativa, esperando apenas que Yukiko case para que também possa casar, ainda que seu interesse maior seja ter uma carreira e seu próprio dinheiro.

As duas irmãs simbolizam no livro duas facetas do país: o Japão das tradições e cultura antiga e o dos valores modernos e ocidentais. O nome de Yukiko tem, inclusive, relação com o título original do livro, Sasameyuki, que significa “neve fina”, a última neve a cair no inverno, dando à personagem o caráter de manifestar os últimos sopros do Japão antigo decadente.

O livro inteiro tem esse clima de decadência e uma certa melancolia das despedidas. Assistir à queda das flores de cerejeira, por exemplo, é um ritual das irmãs que gera felicidade e angústia diante das mudanças inevitáveis da vida, como mostra esse poema escrito por Sachiko:

(Vendo a chuva de pétalas en Heianjingu)
Quisera guardar
Numa dobra do quimono
As flores caídas
Em relutante adeus
À primavera perdida.

Apesar de Yukiko e Taeko constituírem esse grande embate do livro entre antigo e moderno, valores orientais e ocidentais, Sachiko é quem domina a perspectiva da narrativa: só consegui identificar um momento em que temos acesso ao pensamento de outra personagem, no caso Yukiko. No geral é o olhar de Sachiko que acompanhamos e ela acabou sendo a minha preferida das irmãs, mesmo quando eu não concordava com algumas de suas atitudes.

É um livro contemplativo, para quem aprecia momentos singelos entre família e amigos ou situações corriqueiras em geral, na procura do que é especial nas coisas simples. Com apenas dois ou três episódios com mais ação, o livro também dispensa uma reflexão sobre as guerras nas quais o Japão estava envolvido, que parecem não afetar muito as personagens, o que foi decisivo para que ele fosse censurado na época de publicação.

Sobre a adaptação cinematográfica (com spoilers):
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A minha curiosidade com o filme de 1983 foi basicamente para conferir a produção, o figurino e as paisagens japonesas. É uma adaptação interessante, que encontrou soluções boas para resumir um livro tão extenso e até atribuiu uma importância significativa à personagem Tsuruko, ainda que aqui ela seja uma personagem completamente diferente do livro. No entanto, foi justamente essa descaracterização de algumas personagens que não me agradou. Yukiko se apresenta como uma jovem sensual e dissimulada, e Teinosuke, que no livro forma um lindo casal com Sachiko e vê suas irmãs meramente como filhas, revela-se aqui apaixonado por Yukiko, escolha que acaba substituindo os problemas familiares por uma intriga amorosa e leva a história, portanto, para outro caminho.

Dois náufragos e seus felinos

Abstraindo toda a polêmica que envolve estes dois livros, já bastante discutida sempre que se fala de um ou outro, segue um breve comentário sobre Max e os Felinos e a A Vida de Pi apenas como um registro de leitura, movida esta, confesso, pela curiosidade em assistir ao novo filme de Ang Lee.

63_maxfelinosMax e os Felinos – Moacyr Scliar

Nesta pequena novela de Scliar, o autor nos apresenta a Max, um menino alemão de 9 anos muito sensível, que tem como símbolo do medo que sente do pai a figura de um tigre de bengala empalhado, que serve de adorno para a loja de peles da família. No decorrer da narrativa, este é apenas o primeiro de três grandes felinos que Max irá enfrentar ao longo de sua vida e todos eles exacerbam o sentimento de impotência do indivíduo perante a um poder superior.

Já adulto, Max irá se confrontar com o felino mais emblemático do livro: o jaguar que viaja com ele num escaler depois de sofrer um naufrágio a caminho do Brasil. Sem a opção de fugir e sem a força para enfrentá-lo, o que lhe resta é alimentar a fera e conviver com a constante ameaça de ele próprio acabar servindo de alimento. Sem dúvida o seu relacionamento com o jaguar durante a travessia no mar é a parte mais envolvente da história contada por Scliar. Depois desse ponto os acontecimentos parecem tomar um aspecto de epílogo e Max se torna um personagem um tanto diferente.

Confesso que tanto neste livro quanto em A mulher que escreveu a Bíblia, me incomodou um pouco certas situações ou pensamentos absurdos na narrativa. Não por serem em si absurdos, mas por destoarem um pouco dos próprios elementos apresentados pelo autor, contradizendo a lógica interna do livro. Talvez isso seja uma característica do Scliar e dá para notar que seu texto é bem despretensioso: ele parece querer contar a história tal qual a imaginou, sem refiná-la muito. Sem ter essa impressão talvez eu tivesse apreciado mais a história.

64_vidapiA Vida de Pi – Yann Martel

Também dividido em três partes, o romance de Martel conta a história do menino Pi, um indiano que se divide em 3 religiões porque busca encontrar Deus de todas as formas possíveis, e que no início de sua vida adulta sofre um naufrágio no Pacífico a caminho do Canadá.

Assim como Max, ele terá um grande felino por companhia em seu bote: um tigre de bengala. Mesmo com sua experiência com animais, já que é filho de um dono de zoológico, o desafio aqui se apresenta bem maior e a sua luta fica mais evidente pela riqueza de detalhes apresentada pelo autor, mostrando Pi com uma personalidade perseverante, capaz de qualquer coisa pela sua sobrevivência.

Enquanto o felino de Max denota opressão, o de Pi representa o limite entre a morte e a vida, onde essas duas realidades se tocam e passam a ser quase a mesma coisa, pois o tigre o ameaça e o preserva. O que é estranho é que, considerando que o personagem apresenta no início do livro várias reflexões espirituais, mesmo diante de sua situação extrema essas reflexões praticamente desaparecem e a sobrevivência se torna o único assunto – algo que de certa forma pode ser explicado no final do livro, mas que ainda assim causa estranhamento ao leitor.

Apesar do livro ser envolvente e bem escrito, o tipo de escrita e soluções de Martel, que é algo mais comercial, de best seller, é algo que me deixa desconfortável e me desagrada muito (senti a mesma coisa, em maior escala, quando li A Pequena Abelha, de Chris Cleave). No Cinema eu até tolero mais, mas na Literatura, dificilmente. Sendo o filme muito fiel, acho mais interessante ficar na versão cinematográfica, com seus belos efeitos visuais.

Duas novelas chilenas

Uma das recentes modas literárias são os chamados romances curtos, mais precisamente novelas, pela sua estrutura. Tenho um certo embate com novelas (e com contos também) porque elas dificilmente alcançam a profundidade de um romance ou mesmo não dão tempo para que os personagens se arredondem, tomem corpo. Ainda assim podem ser ótimas leituras, como estes dois exemplos de autores chilenos contemporâneos.

61_contadoraA Contadora de Filmes – Hernán Rivera Letelier

“Como em casa o dinheiro andava a cavalo e a gente andava a pé, quando chegava um filme no acampamento da Mina e meu pai – só pelo nome do ator ou da atriz principal – achava que parecia ser bom, as moedas eram juntadas uma a uma, o preço exato da entrada, e me mandavam assistir.
Depois, ao voltar do cinema, eu tinha de contar o filme para a família inteira reunida na sala.”

Esse é o primeiro capítulo do livro e resume bem como começa a vida da menina Maria Margarita enquanto contadora de filmes num pequeno povoado no Chile, no final dos anos 50. Morando com seu pai inválido, abandonado pela mulher, e os 4 irmãos mais velhos, Maria tem em comum com a mãe a atitude de nunca se conformar com nada e o enorme amor pelo cinema. Ela leva tão a sério suas interpretações que acaba atraindo todas as pessoas do povoado na hora em que se apresenta e encontra a partir daí uma fonte de renda para a família, ganhando até um nome artístico: Fada Docine.

Se a primeira parte da história é até divertida, do meio pro fim ela vai ficando mais triste e interna. À medida que Maria vai amadurecendo e descobrindo o mundo, e o mundo vai apresentando novidades, como a televisão, a menina que tem medo dos dias nublados vai perdendo não só sua clientela como outras coisas mais importantes da vida. Apesar da personagem ser muito genuína, o caráter curto do livro nos deixa com a sensação de que poderia haver mais desenvolvimento, mas ainda assim o livro é tocante, com um final muito belo.

Existe um projeto do Walter Salles para que ele se torne filme e espero ansiosa por ver o deserto do Atacama nas telas.

62_bonsai2Bonsai – Alejandro Zambra
Esta pequeníssima novela começa, digamos assim, pelo fim, e se desenvolve como se fosse contada um pouco de trás para frente, da direita para a esquerda, deixando quaisquer ansiedades do leitor mais ou menos resolvidas:

“No final ela morre e ele fica sozinho.”

Ainda assim queremos saber os comos e os porquês e eles têm muita relação com a Literatura, que integra a vida do casal chileno Julio e Emilia, a ponto de interferir até em sua vida sexual. É um livro que fala de outros livros e fala de si mesmo: o personagem Julio inclusive escreve um romance chamado Bonsai. Não me envolvi muito com a história do casal, mas o livro traz muito boas considerações sobre relacionamentos. Para mim, o mais envolvente na obra foi mesmo a escrita de Zambra, que dá muito prazer em ser lida.

A adaptação para o cinema, pelo diretor Cristián Jiménez, é bem delicada e lenta, dá inclusive para se envolver bem mais com os personagens. No entanto, sendo baseado em um livro tão pequeno, dá a sensação de que o filme poderia ser mais curto, o que o torna um pouco monótono para quem já conhece a história. Ainda assim é um filme muito bonito, que eu recomendaria.

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Emma – Jane Austen [Fórum Entre Pontos e Vírgulas Dez/2012]

Este texto participa do Fórum Literário Entre Pontos e Vírgulas, que tem como leitura do mês o livro Emma, de Jane Austen. Como é voltado para pessoas que leram o livro, pode conter revelações sobre o enredo.

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Em 2008 fiz parte de um clube de leitura sobre Jane Austen e lembro que antes de aceitar participar, tinha um certo preconceito com a autora, achando que sua literatura seria muito água com açúcar para o meu gosto. Eu estava enganada, é claro, pois apesar de não ter faltado açúcar em nossas reuniões – já que, para entrar no clima, aproveitávamos para discutir os livros tomando um chá da tarde –, constatei que os romances de Austen oferecem muito mais crítica e sarcasmo à sociedade inglesa retratada do que mesmo a preocupação com um amor romântico.

O grande tema que se destaca nos livros que já li da autora é a condição da mulher de seu tempo, que dependia de herança ou de casamento para garantir um bom status social e financeiro para o resto da vida. O trabalho, principalmente para as mulheres, não tinha um valor edificante, mas sim degradante, e o casamento era o ponto mais alto de alguma experiência de poder feminino possível.

A maioria dos relacionamentos voltados para o casamento começavam com a constatação de que são convenientes, e a vaidade, muito mais que o amor, era quem dava as cartas na hora da escolha dos pares. As protagonistas de Austen geralmente são exceções porque se apaixonam, mas longe de serem mocinhas perfeitas, sempre fazem algumas escolhas erradas para acertar depois. E Emma talvez seja a menos perfeita de todas elas.

Vaidosa, rica e mimada, Emma julga o amor e o casamento como coisas abaixo de sua condição social. Sem mãe, com um pai que não passa de um egocêntrico hipocondríaco e uma governanta que não consegue ter poder sobre ela, Emma tem apenas a figura de Mr. Knightley, amigo da família, como uma espécie de grilo falante a todo tempo tentando educá-la – o que nem sempre a impede de fazer o que bem entende. Somente quando a governanta, sua melhor amiga, deixa seu posto para casar é que Emma percebe sua solidão e seu drama inicia.

É difícil gostar de Emma porque ela é uma heroína cheia de defeitos e com problemas superficiais, muitas vezes levada pela vaidade, a inveja e a manipulação da vida alheia – o que seriam características mais próprias de uma vilã –, mas ao mesmo tempo cheia de boas intenções e doçura, contraste que a deixa muito mais humana que as mocinhas comuns. Como não precisa de nada, Emma precisa perder algumas coisas para evoluir, fazendo um caminho inverso ao das usuais princesas, como afirma David Lodge, em A Arte da Ficção:

“O romance será o avesso da história de Cinderela, o triunfo da heroína subestimada, que de Orgulho e Preconceito a Mansfield Park já vinha despertando a imaginação de Jane Austen. Emma é uma princesa que precisa ser humilhada para atingir a verdadeira felicidade.”

Além do percurso de Emma, é possível detectar no romance alguns tipos de destino possíveis às mulheres, através de algumas personagens. Miss Bates, por exemplo, é a solteirona pobre que tudo que tem é uma boa relação com a comunidade, por sua família ter um nome. Sua sobrevivência é garantida pela caridade dos amigos, o que a torna uma enorme bajuladora. Já Harriet Smith não tem nome ou família, mas como é bonita, sua melhor escolha é casar com quem aceite sua situação. Jane Fairfax é órfã e pobre, e como foi criada por uma família rica, sofre com a possibilidade de não conseguir casar e ter que se tornar uma governanta. Miss Taylor, simples governanta de Emma, consegue uma grande emancipação ao fazer um bom casamento, ao contrário de Miss Hawkins, que sai de sua vida confortável na casa dos pais para se casar com um homem de poucas posses, somente pelo orgulho de estar casada. Em Jane Austen, portanto, amor, berço e dinheiro andam de mãos dadas e o leitor que só consegue enxergar o romantismo água com açúcar em seus livros talvez esteja um pouco desatento.

A narrativa bem amarrada da autora perde muito sua força na terceira e última parte do livro, principalmente depois do clímax, com Mr. Knightley e Emma se declarando um ao outro. A partir daí não há mais surpresas ou novidades, e a leitura fica enfadonha. Ainda assim a leitura no geral foi prazerosa, especialmente pelos momentos cômicos encabeçados por personagens como Mr. Woodhouse e Miss Bates; pelos mal entendidos de uma sociedade que não deixa transparecer seus sentimentos e por uma certa beleza da vida cotidiana e privada, que faz com que os personagens sejam familiares e facilmente reconhecíveis, nos dando a impressão de que os conhecemos de algum lugar.

Para quem tiver interesse em participar da discussão sobre o livro, é só acessar o canal da Denise Mercedes a partir do dia 20 de dezembro.

Os melhores de 2012

Ultimamente não tenho conseguido atualizar o blog, mesmo porque minhas leituras estão um tanto suspensas. Nos últimos meses li apenas 2 livros: 20 Mil Léguas Submarinas, de Jules Verne e A Ilha do Dr. Moreau, de H. G. Wells. Os dois livros coincidentemente têm em comum o fato de seus narradores serem náufragos que acabam prisioneiros de um cientista lunático. Ótimas leituras para quem gosta de ficção científica do século XIX.

Como já imagino que lerei muito pouco até o final do mês, comecei a pensar quais seriam os livros que mais me marcaram este ano, sem contar releituras, é claro. São aqueles que por um motivo ou outro falaram comigo mais pessoalmente.

Livro – José Luís Peixoto

Livro foi uma surpresa porque eu não esperava muito da leitura. E apesar da segunda parte do livro fazer parte daquela tendência contemporânea de “escritores que escrevem para escritores”, que eu geralmente acho cansativa, algumas questões bateram tanto com minhas próprias questões pessoais na época em que li, que foi inevitável colocá-lo como um favorito do ano. Comentário sobre este livro aqui.

Cem Anos de Solidão - Gabriel García Márquez

Este não é apenas um dos melhores do ano, mas um dos melhores de todos os tempos. Se existe algo como leituras obrigatórias, definitivamente esta obra deve estar na lista. Aqueles que já tenham morado numa cidade pequena ou que tenha tido uma infância cercada de lugares misteriosos devem apreciar ainda mais a casa dos Buendía. Comentário sobre este livro aqui.

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Alta Fidelidade – Nick Hornby

Apesar de já conhecer a história do livro por ter visto o filme, a leitura de Alta Fidelidade foi deliciosa e além de me transportar diretamente para os anos 90 também me trouxe identificação pessoal nas questões sobre maturidade. Comentário sobre este livro aqui.

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Contos de Lugares Distantes – Shaun Tan

Este é o tipo de livro a que você retorna várias vezes, de tão lindo que é, imagens e textos. Daqueles que você não sabe se foi feito realmente para o público juvenil, já que hoje em dia os adultos não escondem mais seu lado criança. Comentário sobre este livro aqui.

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Daytripper – Fábio Moon e Gabriel Bá

Sem dúvida o quadrinho do ano para mim. Foi uma leitura tão tocante que eu tive que parar pela metade para continuar depois. Talvez em outro momento não tivesse sido tão pungente, mas parece que certas obras chegam até nós na hora certa para nos emocionar. Comentário sobre este quadrinho aqui.

Cinema: 10 Questões

Como faz tempo que não falo sobre filmes aqui, vou aproveitar para responder duas correntes sobre Cinema que achei bacanas. Caso alguém queira respondê-las também em seu blog, fique à vontade!

Tag 5 perguntas (Cinema)*


1. Em qual filme você gostaria de morar?
Gostaria de morar em A Viagem de Chihiro, simplesmente porque é o mais lindo filme que eu já vi. Mas para escolher um que não seja animação, eu moraria em Matrix e aprenderia kung-fu em alguns segundos.


2. Qual personagem você gostaria de ser?
Adoraria ser Celine, de Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-sol. Linda, inteligente, divertida e aventureira.


3. Que filme você mudaria o final?
Vinhas da Ira. O final do livro é uma das coisas mais lindas da literatura; acaba sendo inevitável ficar frustrado com o final diferente, ainda que o filme seja muito bom.


4. Que filme gostaria de ter realizado?
Imagino que deve ter sido muito divertido fazer Monty Python Em Busca do Cálice Sagrado. Mil vezes que eu assista esse filme, mil vezes eu morro de rir.


5. Que título de filme você acha fantástico?
Um Bonde Chamado Desejo (infelizmente no Brasil foi lançado como “Uma Rua chamada Pecado”).

Meu TOP 5 de Questões Aleatórias (Cinema)**


1. Terror, Suspense e Tortura
Não assisto a filmes de terror ou com cenas pesadas de pessoas sendo torturadas, me fazem muito mal. Também não suporto filmes com um assassino mascarado qualquer matando todo mundo sem motivo. Como sou muito ansiosa, qualquer filme com muito suspense já me deixa um pouco irritada, mas se for um bom filme, como os de Hitchcock, por exemplo, então fica tudo certo. Indicação: Um Corpo que Cai.


2. Filmes de Justiceiros
Qualquer pessoa que viva numa cidade violenta tem seus momentos de revolta com o crime e a impunidade, então não há como evitar a fantasia de um justiceiro: seja um cowboy num faroeste, seja um policial que foge à regra, como Dirty Harry, esses homens invencíveis nos dão a sensação de que pode haver alguma justiça ou mesmo vingança em situações extremas. O justiceiro é uma falsa ilusão de poder na vida real, mas uma ótima válvula de escape na ficção. Indicação: Os Imperdoáveis.


3. Irresistíveis
É mais forte que eu. Se estiver passando na televisão algum filme da minha infância e adolescência, eu tenho que assistir a pelo menos uma parte. Vi mil vezes: Fúria de Titãs, As 7 Faces do Dr. Lao, Simbad e o Olho do Tigre, As Novas Viagens de Simbad, quase todos os filmes de John Hughes e mil outros que todo mundo da época conhece. Indicação: Feitiço do Tempo.


4. Roteiro
A coisa que mais me chama a atenção num filme é o roteiro. E depois que eu li o Story, do Robert Mckee, virou quase uma mania observar a estrutura dos filmes que assisto. Uma boa direção e fotografia são uma delícia de ver, mas dificilmente são suficientes se o roteiro não for bom. Indicação: os roteiros de Bergman, de Kaufman, do Tarantino e do Arriaga.


5.Adaptações da Literatura para o Cinema
Ver uma adaptação pode ser uma faca de dois gumes porque é impossível competir com sua imaginação pessoal, mas ao mesmo tempo é muito divertido ver a interpretação de um diretor para algo que funcionou tão diferentemente na sua cabeça. Acho mais importante que o filme seja fiel ao espírito geral do livro: filmes extremamente fiéis aos detalhes do livro tendem a não acrescentar muito. Indicação: Drácula de Bram Stoker.

*A tag 5 perguntas foi elaborada originalmente sobre Literatura pela Juliana, de O Batom de Clarice. A versão cinema eu vi em um vídeo da Mercedes, do Meus Olhos Verdes.
**A tag Meu TOP 5 de Questões Aleatórias é uma tag do Conversa Cult que me foi proposta pela Michelle, do Resumo da Ópera. Originalmente a tag é para falar de tudo, mas eu adaptei para cinema porque não consegui me resolver nas respostas.

Dois romances curtos mexicanos

Festa no Covil – Juan Pablo Villalobos
Logo depois da minha leitura de O Apanhador no Campo de Centeio eu acabei coincidentemente lendo outro romance de formação com linguagem skaz, desta vez na voz de uma criança, o Tochtli, de Festa no Covil. Ele é um menino com idade indefinida, mas com ingenuidade evidente, pois percebemos que ele ainda não é capaz de entender muito bem o que observa em sua casa, ou melhor, em seu “palácio”. Filho de um chefe do narcotráfico, Tochtli não freqüenta a escola – tem um professor particular – e vive isolado do mundo, contando nos dedos as pessoas que conhece, que são os empregados da casa ou os parceiros de seu pai.

Para compensar sua solidão, o pai atende a todos os seus desejos de consumo, tornando Tochtli um tanto fetichista – ele atribui muito poder aos chapéus que usa, por exemplo – e elitista, pois para ele as coisas materiais são medidas apenas pelo seu valor qualitativo e nunca pelo seu valor afetivo. Mas essa compensação não resolve muito seu enorme tédio e o fato de ter que encarar a rotina de violência da casa, muitas vezes para demonstrar que é “macho” para seu pai e que a infância acabou.

O mais interessante no livro é observar como existem duas histórias sendo contadas: uma sob o olhar inocente de Tochtli, com sua maneira de interpretar o que vê; e outra revelada ao leitor, escondida naquilo que a inocência dele não pode perceber. Numa primeira leitura, quando o livro acabou, fiquei um pouco decepcionada com o romance pois esperava um pouco mais de carga dramática, mas como o livro é muito curto, resolvi ler novamente e foi bem melhor, especialmente porque reparei em detalhes de como o autor amarrou tudo de maneira tão criativa. Ainda assim, fiquei com a sensação de que faltou alguma coisa.

Pedro Páramo – Juan Rulfo
Ainda que seja curto, o romance Pedro Páramo é denso e poético, não dá para deixar passar uma só palavra em branco, sob pena do leitor se perder um pouco na prosa de Juan Rulfo – que se limita apenas ao essencial –, mas também porque se trata de uma bela escrita, que deve ser apreciada com calma.

O livro conta a história de Comala, mas em dois momentos diferentes: um de quando esta era uma cidade cheia de vida e outro de quando se apresenta como uma cidade morta, e a figura de Pedro Páramo, o maior dono de terras da região, está diretamente ligada ao destino desta cidade e seus habitantes. Afinal ele não só possui terras como possui pessoas: ele domina a Igreja, na figura do padre Rentería, e domina a lei, através de seu advogado Trujillo e da violência de seus capangas. Seu poder inicia ao herdar as terras do pai e ao casar com Dolores Preciado, pelo simples interesse em fugir das dívidas da família e assim ampliar seu império, a Media Luna. Dolores acaba abandonando-o, apenas para perceber depois que ela é que foi abandonada. Em revezamento com essa história, marcada por sinais naturais como a chuva, que nunca pára de cair, temos uma outra narrativa, esta agora assinalada pelo calor, o agouro dos pássaros e a decadência, em que Juan Preciado, o filho de Pedro e Dolores, volta a Comala para exigir de volta o que seria seu. Mas ele chega à cidade tarde demais, pois vai percebendo aos poucos que todos os habitantes que vai encontrando já morreram.

Este não é um livro fácil de descrever em poucas linhas porque todos seus inúmeros personagens têm densidade e importância para a história, como se fosse um romance russo que se passa no México (ou em qualquer lugar da América Latina). A relação morte e vida é complexa aqui porque a diferença entre quem está morto e quem está vivo é mínima e Comala é quase um retrato do Purgatório, um lugar que não está aqui nem lá, mas algo no meio do caminho, numa possível e bela alegoria à condição dos países latino-americanos.

O Apanhador no Campo de Centeio – J.D. Salinger

Houve um tempo em que sempre que ouvia o título deste livro eu imaginava um grande épico sobre alguma família no campo. Depois que descobri que era sobre alguns dias na vida de um adolescente em Nova York nos anos 50 fiquei curiosa para saber o que tinha a ver uma coisa com a outra, mas só recentemente achei que era a hora de lê-lo.

Holden Caulfield tem 16 anos e está internado em algum lugar para recuperar-se de um esgotamento nervoso. Ele é o narrador de sua história e conta o que se passou com ele para que chegasse a esse ponto, ao mesmo tempo que divaga e reflete sobre a vida, sua família e sua dificuldade de se relacionar com os outros. Como todo adolescente, mas em maior escala que a média, Caulfield é intolerante com qualquer característica que remeta ao mundo adulto. Não suporta hipocrisia e convenções sociais, e acha muito desagradável que o mundo seja cheio de “falsidade”, com as pessoas escondendo o que realmente sentem e pensam, bem como o que acham umas das outras, formando um jogo de fingimento que ele sabe ser necessário para a vida social, mas que ainda assim o incomoda muito.

Mas se por um lado ele busca sinceridade e verdade, ele mesmo não é sincero com os outros e consigo mesmo, e isso é apenas uma das características que o fazem contraditório o tempo todo: ele anseia por companhia e se sente muito sozinho, mas ao mesmo tempo sabota suas relações por não saber lidar com elas, e ao tentar se proteger da dor, se aliena e colhe uma solidão insuportável. Ele quer fugir da vida cotidiana padronizada em que todos seguem o mesmo curso, fazem as mesmas coisas e dizem as mesmas frases, mas no fundo ele tem muito medo da maturidade que está para chegar e só consegue admirar pessoas que ele julga simples ou puras, como as crianças, especialmente sua irmãzinha Phoebe.

O livro é repleto de simbolismos, sendo o mais óbvio o chapéu de caça vermelho que ele usa para fugir de sua realidade, uma marca de individualidade típica dos adolescentes para assinalar o não-pertencimento a uma sociedade que ele julga hipócrita. É um clássico romance de formação, mas como ele mesmo deixa claro no primeiro parágrafo, essa história não será contada como a de David Copperfield, nem no formato, porque se restringirá a apenas alguns dias de sua vida, nem no estilo, já que Salinger se utiliza do chamado skaz adolescente: uma narração que lembra muito mais a fala do que a escrita, semelhante ao que Mark Twain fez em As Aventuras de Hucleberry Finn (aliás, os dois livros são usualmente comparados, como se Caulfield fosse uma versão urbana e refinada de Huck).

Essa linguagem usada pelo autor, inclusive, aproxima muito o leitor do narrador, o que acaba reativando alguns questionamentos da adolescência, nos lembrando de que as coisas não são muito diferentes por termos uma idade ou outra, a mudança é apenas de perspectiva, de como encaramos a vida: não é difícil encontrarmos Caulfields de todas as idades, que ao invés de enfrentarem seus medos e desafios, encontram desculpas, como a falta de disposição. Não é difícil qualquer um de nós escolher agir assim em um momento ou outro como forma de nos protegermos de algo que não queremos encarar e é esse é apenas um dos motivos pelos quais O Apanhador no Campo de Centeio não é um livro juvenil, ainda que deva ser uma leitura incrível para quem estiver nessa fase.

Duas aventuras de H.R. Haggard

Quando criança, fantasia associada a aventura e descoberta de civilizações perdidas formavam para mim uma equação irresistível, coisa que deve ter começado através das caças ao tesouro protagonizadas pelo Tio Patinhas e os filmes da tarde com as sagas de Simbad ou Indiana Jones. Numa destas sessões assisti a uma das versões de Ela e fiquei muito intrigada com a história, especialmente o final. Recentemente lembrei do filme e descobri que é uma adaptação de um best-seller de H. Rider Haggard, o mesmo autor do famoso As Minas do Rei Salomão e que, com suas obras, iniciou o subgênero lost-world nos livros de fantasia.

Apesar de ser um dos livros mais vendidos de todos os tempos, dificilmente ouço falar de alguém que tenha lido Ela ou mesmo conheça sua história. O narrador é Holly, um professor de Cambridge que juntamente com seu filho adotivo Leo e seu criado Job seguem em uma perigosa aventura na África a fim de entender a herança histórica da família de Leo. Lá eles descobrem uma civilização escondida, comandada por Ayesha, uma belíssima mulher que vive há dois mil anos. Se por um lado a história é curiosa e influenciou inúmeros escritores mais tarde, como Rudyard Kipling e J.R.R. Tolkien, por outro é incômodo para o leitor de hoje perceber de maneira tão escancarada alguns valores racistas e machistas dos vitorianos. Apesar de Ayesha ser uma mulher com extremo poder – é absurdamente bonita e sábia e possui poderes sobrenaturais e grande capacidade de comando – sua soberania não é vista com bons olhos, mas como algo perigoso à humanidade, e infelizmente sua devoção romântica a Leo por vezes acaba ajudando a diminuir a força da personagem.

As Minas do Rei Salomão também conta uma aventura na África e é narrada pelo caçador Allan Quatermain, que possui um mapa para as incríveis e secretas minas do rei bíblico. Com a companhia de Sir Henry Curtis, o Capitão Good e o nativo Umbopa, os personagens farão uma longa jornada através de um deserto africano, cada um com seu motivo e missões pessoais. Os tipos de situação que eles enfrentam são semelhantes aos que vemos em filmes com o personagem Indiana Jones (que parece ter sua origem em Quatermain), com direito a batalhas contra um rei africano sanguinário, trapaças de uma feiticeira maligna e cavernas com mecanismos secretos. Assim como em Ela, Haggard traz um narrador um tanto contraditório, que se divide entre mostrar os africanos como bárbaros e ao mesmo tempo, em algumas situações, considerá-los como mais cavalheiros que certos europeus. É fácil encontrar sua edição traduzida por Eça de Queiroz.

A escrita de Haggard não oferece muitos atrativos, mas não há como negar que ele foi muito criativo em suas histórias, aproveitando sua experiência na África para pormenorizar suas descrições. Tendo influenciado tantos livros e filmes que vieram depois, estas obras não causam muito impacto nos dias atuais e são previsíveis e ultrapassadas – as situações repetitivas e os monólogos cansativos dos narradores também não ajudam. Ainda assim, guardarei a cena final de Ela com carinho nas minhas lembranças de infância.

Cem Anos de Solidão – Gabriel García Márquez

Imagine um velho baú onde são guardados lindos vestidos de festa esperando serem usados para uma ocasião especial. Às vezes minha relação com a literatura é semelhante. Eu guardo livros para depois, imaginando que ainda não chegou a hora de lê-los. Como essa história de guardar não combina com minha visão sobre as demais coisas da vida, nos últimos tempos resolvi começar a tirar a poeira desse baú, e um dos livros guardados era Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez.

Este livro conta a história de 7 gerações dos Buendía, uma família que inicia com o casamento de dois primos, José Arcádio e Úrsula, e que, juntamente com outras famílias, fundam uma aldeia chamada Macondo, às margens de um rio. Quando José Arcádio, cujo nome já entrega sua vida simples e idílica, encontra-se com Melquíades, o cigano que traz magia e ciência para a aldeia, os homens da família Buendía não têm mais como escapar de suas jornadas marcadas pela curiosidade, ainda que com uma grande tendência ao resguardo e à introspecção quando a vida se torna difícil. Úrsula, de espírito forte e prático, será a grande mãe de todas as gerações, lutando para oferecer alguma sanidade ao que ela chama de casa de loucos. Ao longo da narrativa observamos que os dramas da família vão se repetindo através das gerações e isso é marcado pelos nomes dos personagens, que são sempre os mesmos, levando com eles suas sinas.

“Na longa história da família, a tenaz repetição dos nomes tinha permitido que ela chegasse a conclusões que lhe pareciam definitivas. Enquanto os Aurelianos eram retraídos, mas de mentalidade lúcida, os José Arcádio eram impulsivos e empreendedores, mas estavam marcados por um destino trágico.”

A casa dos Buendía é o espaço que vai refletindo a alma da família, com seus cômodos povoados de fantasmas e lembranças; cheia de luz e vida com a mão de Úrsula, sombria e abafada com a presença de Fernanda. Curiosamente um primeiro título do livro seria “La Casa”, pois toda a história é contada a partir de quem está morando nela, e ela parece não só espelhar os personagens como também interferir em seus cotidianos de forma mágica. Em um de seus quartos, por exemplo, é sempre uma segunda-feira de março:

“José Arcádio Segundo não estava tão louco como dizia a família, e era o único que dispunha de lucidez suficiente para vislumbrar a verdade de que o tempo também sofria tropeços e acidentes, e portanto podia se estilhaçar e deixar num quarto uma fração eternizada.”

Macondo é a extensão da casa dos Buendía e também sofre transformações conforme o destino da família. Ela passa de aldeia livre e quase pagã a uma cidade puritana e tradicional com a chegada das instituições, até que chegue a seu ponto máximo de desenvolvimento, rechaçado por uma intervenção da natureza, que a levará ao seu declínio. Assim como a família, Macondo não pode sobreviver muito tempo com as irrupções estrangeiras: não por acaso seu primeiro morto era de fora, e ele trouxe a morte e os mortos para um lugar em que ninguém havia morrido ainda.

“Macondo era um povoado desconhecido para os mortos até que chegou Melquíades e apontou um pontinho negro nos coloridos mapas da morte.”

Nesta história, no entanto, muitos mortos têm mais vida que alguns vivos e suas presenças na casa, assim como todos os elementos fantásticos do livro, não trazem assombro ou temor, pois a morte e a vida, a imaginação e o real são uma coisa só. Os membros da família também parecem constituir uma unidade, rodando uma mesma ciranda dramática, ainda que vivam tantos episódios diferentes. Sem querer reduzir os incríveis personagens do livro, os inúmeros Arcádios e Aurelianos, Amarantas e Remédios parecem formar manifestações de um grande personagem Buendía, marcado pela tragédia, a loucura e a solidão, destinos previstos nas cartas de Pilar e nos escritos de Melquíades.

Sempre ouvi alguns comentários de que Cem Anos de Solidão não era uma leitura fácil. Para mim foi uma das leituras mais deliciosas de todos os tempos, daquelas para saborear cada palavra, cada página, e ao mesmo tempo sentir urgência por não querer parar de ler. Difícil mesmo é registrar a leitura de um livro tão grandioso e poético lendo-o apenas uma vez. Perdi tempo, eu sei. Esse não é um livro que precise ser guardado; pelo contrário, é daqueles que devem ser relidos quantas vezes a vida permita.

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